Irrelevância pornográfica

Com mais de 60 dias de mandato, e findo o Carnaval, não era hora de começar a trabalhar?

Com apenas dois tweets na quarta-feira de cinzas, o presidente Jair Bolsonaro conseguiu rebaixar o cargo que ocupa e nos jogar em mais uma nuvem de irrelevância que nos toma dias de discussão e desgasta seu capital político e sua popularidade. Para os bolsonaristas fanatizados que povoam as redes sociais, toda palavra que sai da boca ou do teclado do presidente é uma sabedoria divina, mas os apoiadores mais independentes e razoáveis do governo começam a dar mostras de preocupação: com mais de 60 dias de mandato, e findo o carnaval, não era hora de começar a trabalhar?

Uma rápida avaliação dos fatos. Preocupado com o escárnio generalizado de que foi alvo no carnaval (escárnio que é das mais belas tradições brasileiras), Bolsonaro resolve reagir contra a própria instituição da festa. Selecionou um caso aberrante de uma performance feita para chocar e, usando-a para desonestamente caracterizar a festa inteira (eu fui a diversos blocos e não vi pornografia nenhuma), o presidente difamou seu próprio país aos olhos do mundo. Além disso, embora se diga preocupado com a obscenidade do ato, ele próprio disseminou a cena obscena para muito além de seu alcance espontâneo.

Evidentemente, o escândalo presidencial era da boca para fora. Ele quer justamente promover a histeria moral do público, tal qual um apresentador de programa de auditório de baixo calão, para acirrar os ânimos e surfar na indignação estimulada. Para essa estratégia, quanto mais cenas obscenas circularem, melhor.

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O segundo tweet, no qual o presidente indaga “o que é golden shower?” é ainda mais baixo. Qualquer pessoa que tem uma dúvida sincera recorre a um site de buscas ou outro meio para saná-la. O presidente foi às redes, portanto, não para descobrir o que não sabia, mas apenas para poluir intencionalmente o debate público. Sim, temos um presidente da república que discute práticas sexuais em público. Um presidente pornográfico.

Dentro da câmara de eco que o aplaude constantemente, tudo está uma maravilha. Fora dela, mesmo defensores e colaboradores do governo começam a mostrar seu descontentamento. O Brasil tem um enorme desafio pela frente, que exigirá construir consensos no Congresso e na sociedade; mas o presidente parece mais preocupado em acirrar divisões. Ainda goza de um certo capital de popularidade, mas insiste em corroê-lo pouco a pouco, desnecessariamente.

No primeiro front, o Congresso, o governo já abriu as torneiras do “toma lá dá cá” e basicamente entregou a responsabilidade de negociar a reforma da previdência nas mãos de Rodrigo Maia. A cereja no bolo foi Bolsonaro se prontificar a ceder pontos da reforma antes mesmo da negociação começar. A estratégia, da parte do governo, é zero, o que explica a perda de otimismo do mercado. O que sair dependerá exclusivamente da boa vontade do Congresso, que tem a faca e o queijo na mão.

Para a sociedade, o tema da previdência nem sequer aparece. O presidente conseguiu antagonizar, além de professores, artistas, jornalistas, homossexuais e “a esquerda”, agora também o próprio carnaval. E o pior é saber que estamos num ciclo vicioso: quanto menos boas notícias reais – avanços concretos – o governo tiver, mais ele terá que apostar na guerra de palavras vazias contra as imoralidades do mundo, da esquerda, dos comunistas. “Ah, mas a moral é mais importante que a economia…”. E como o governo está trabalhando para edificar moralmente nossa sociedade corrompida? Falando sobre práticas sexuais aberrantes nas redes sociais. Grande dia! #SQN