Crivella e a política da má fé no Brasil

O caso do prefeito carioca revela como os políticos nos fazem acreditar que lutam por ideias quando na verdade se articulam por pessoas

A reunião de Marcelo Crivella com lideranças evangélicas é o bastante para gelar a espinha de qualquer um que valorize o Estado laico. Não está claro se o que foi gravado é o bastante para configurar o impeachment, conforme pediram os vereadores do PSOL. Seja como for, em uma sociedade minimamente séria, um homem público ser pego expondo de forma tão explícita sua intenção de usar a máquina pública para favorecer seu grupo seria motivo para sua renúncia imediata.

Claro que ninguém espera que essa seja a reação de um político no Brasil. Sacrificar qualquer mérito que a administração poderia ter (por exemplo, exonerando o secretário César Benjamin) e articular o apoio político mesmo perante a desmoralização completa para com o público é a saída mais normal. Há até uma honra em fazê-lo.

Afora isso, o caso mostra bem como se dá tantas vezes a relação entre público e privado – e mais, entre Estado e religião – no Brasil. No que consistia a ajuda de Crivella aos demais evangélicos? Em tratamento preferencial – seja na prestação de serviços, seja na cobrança de impostos – para os membros do grupo. A religião constitui o grupo de pessoas que se ajuda mutuamente a chegar no poder e se beneficiar dele.

Isso é muito diferente daquilo que em geral se costuma ter em mente ao falar da influência ilegítima da religião na política. Os evangélicos não estavam fazendo planos de aumentar as restrições ao aborto, proibir o casamento gay ou acabar com o ensino de educação sexual nas escolas. Isso tudo existe, mas como fica claro é apenas uma parte do problema. O que a reunião de Crivella escancarou não é o uso ideológico da religião, mas o uso fisiológico dela.

Quando a gravação veio ao ar, aí sim Crivella adotou o discurso ideológico. Tudo aquilo fora uma armação da Globo, que teria uma agenda nefasta, contra a família, defendendo o aborto e outros males. Fica parecendo até que o conteúdo ideológico da fé (aquelas medidas e leis motivadas especificamente pela religião e que em geral movimentam os fiéis) servem apenas como distração para que não se olhe para o jogo de interesses e de poder que realmente movimenta as lideranças.

Não é só impressão. Todos sabemos como lideranças evangélicas podem ser intolerantes. Ao mesmo tempo, muitos demonstram enorme flexibilidade. O líder máximo da Igreja Universal do Reino de Deus (na qual Crivella é bispo), Edir Macedo, já se declarou abertamente favorável à descriminalização do aborto. Tanto ele quanto Crivella já se aliaram a políticos de esquerda, como a de Dilma Rousseff (de quem, vale lembrar, Crivella foi Ministro da Pesca), que mais tarde podem ser com a mesma facilidade acusadas de nefastas e de militarem contra a família.

Ou seja, as bandeiras que movem a opinião pública e a militância evangélica vêm depois, muito depois dos interesses práticos que movem as lideranças religiosas. E quando vêm, é como cortina de fumaça, mascarando o que realmente está em jogo para um público que se quer sempre mais fanatizado, acreditando que participa de uma grande cruzada contra as forças do mal.

Neste caso, é uma religião desempenhando esse papel. Mas a relação entre ideologia e fisiologia vale para diversas forças do espectro político, inclusive aquelas sem uma gota de espiritualidade. Quando votar em Dilma era vendido como um ato de coragem em prol das mulheres, usava-se uma ideologia polarizadora (o feminismo em sua versão atual) para mascarar uma candidatura que, na prática, não tinha nada a ver com ele. E a crença de tantos eleitores na obrigação moral de defender sua candidatura acabou servindo para acobertar e justificar os piores desvios.

Direita, esquerda, centro; evangélicos, católicos, ateus. Todos são campo aberto para o jogo em que os políticos são especialistas: fazer-nos acreditar que lutam por ideias quando na verdade se articulam por pessoas.

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