Bolsonaro não surpreendeu na ONU

Em seu discurso na Assembleia Geral na terça-feira 24, o presidente confirmou que o único Bolsonaro que existe é o da campanha eleitoral

Não havia nada na fala de Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU que já não estivesse contratado, precificado. Nada ali surpreendeu; exceto, talvez, o fato de ser mais uma refutação da esperança que alguns insistem em nutrir: de que, em algum momento, o presidente irá deixar a retórica das redes sociais de lado (com suas doses generosas de teorias da conspiração, picuinhas pessoais e fake news) e passar a portar-se segundo o padrão antigo do que significava ser o presidente da República. Bolsonaro deu mais uma confirmação de que sim, o Bolsonaro da campanha eleitoral é o único que existe; nenhuma transformação está a caminho.

Feita essa qualificação, volto ao ponto: não há nada de novo no discurso do presidente da ONU. Foi o que esperávamos: horrível. Bolsonaro deu voz a teorias da conspiração (Foro de São Paulo comanda um esquema de tornar o continente socialista, Cuba patrocinou um golpe comunista no Brasil que só foi impedido graças ao golpe militar), fez referências gratuitas a Deus e mostrou muita agressividade contra seus inimigos de sempre: a esquerda, os índios, a preservação do meio ambiente, os gays, as ONGs, a ordem global.

Se teve um tema que colocou o Brasil no centro das atenções globais recentemente foi o meio ambiente e a devastação da floresta amazônica em decorrência da política de desmonte deliberado da estrutura de preservação ambiental. Em reação um tanto oportunista, a França se lançou numa campanha midiática que incluiu até chamar a Amazônia brasileira como “patrimônio mundial”. O Brasil, com razão, tem que afirmar sua soberania.

O discurso da ONU era um bom momento para o presidente se colocar de uma maneira nova sobre a questão: mostrar que soberania e proteção ambiental caminham juntas. Apenas o Brasil pode cuidar de sua floresta, e isso é o que já estamos fazendo e queremos fazer mais, inclusive com a ajuda de outros países se possível.

Ao contrário disso, ele manteve a dicotomia: nós queremos a soberania, portanto rejeitamos as demandas de preservação. Negar a piora nos números, questionar os institutos de medem a devastação, atribuir tudo a causas naturais e cíclicas, citar números irrelevantes (como a parcela de floresta ainda não desmatada, como se isso fosse um argumento que contrariasse a piora atual); tudo isso equivale a dizer, em alto e bom som, que a política do Estado brasileiro com relação à Amazônia seguirá sendo a de promover sua predação irrestrita.

Enquanto isso, Eduardo Bolsonaro, possível embaixador em Washington e príncipe real, fez post para ridicularizar Greta Thunberg, ativista de 16 anos, espalhando foto falsa e informação mentirosa (a de que ela seria financiada por George Soros). Além disso, tirou foto na frente da famosa escultura Não-Violência, um pedido de paz feito em homenagem a John Lennon – morto em Nova York –, fazendo o símbolo da arminha com a mão.

O Brasil caminha rapidamente para destruir toda a possível boa vontade das demais nações. Ao mesmo tempo, nossas grandes apostas na hora de se aliar a governantes de outros países têm dado errado: Netanyahu perdeu as eleições em Israel, Macri provavelmente perderá na Argentina. Se Trump – a quem Bolsonaro declarou agora “I love you” – perder em 2020, seremos párias completos. O acordo com a UE segue sendo a grande vitória diplomática do governo até agora, mas ele ainda precisa ser ratificado em cada país, e esses showzinhos do presidente e de seus filhinhos não ajudam em nada.

A última linha de defesa dos apoiadores do governo é dizer que nossas relações estão melhores do que na era PT, quando nos aliamos com o bolivarianismo latino-americano e até mesmo, em certo momento, com o Irã. Sim, é um alívio não ter mais essa política externa. Só que não é preciso escolher entre as duas. Um Brasil altivo, aliado do mundo democrático e capitalista, sem teorias da conspiração, sem bravatas auto-sabotadoras e sem fake news é perfeitamente possível. Basta escolher não tratar nossa política externa como a continuação da militância de redes sociais. Para este governo, é pedir demais.