Bolsonaro e a diferença entre um líder e um demagogo

A situação do Brasil é tão crítica que o novo governo exigirá do novo presidente, desde o início, a postura de um líder capaz de priorizar o bem comum

O poder, sempre e em todos os casos, depende do apoio dos governados, que pode ser maior ou menor. O verdadeiro líder é aquele capaz de tomar decisões pelo bem da população mesmo que isso contrarie seus desejos. E a habilidade política está em fazer isso e mesmo assim permanecer no poder.

Bolsonaro iniciará seu governo com a oportunidade de se mostrar um verdadeiro líder ou apenas um demagogo. Goza de imensa popularidade, o Congresso lhe é relativamente favorável e ideologicamente alinhado. Resta agora saber como ele se utilizará desse capital político.

Bolsonaro tem prometido governar sem fazer “toma lá dá cá”. Quando o Congresso se mostrar recalcitrante, é a pressão popular que despertará nos parlamentares seu senso de dever cívico (ou, vá lá, o medo da punição das urnas). O uso da pressão popular pode funcionar com pautas que efetivamente tenham amplo apoio popular. É o caso, por exemplo, do pacote de reformas de Sergio Moro, que possivelmente encontrará alguma resistência no Congresso (qual político quererá reduzir as defesas de sua classe contra investigações e processos?). Mas qualquer reação que não a adesão irrestrita à agenda de Moro por parte de deputados e senadores pegará muito mal junto à opinião pública. Por isso, é possível que repensem, engulam suas ressalvas e aprovem.

O mesmo não vale para reformas econômicas que Paulo Guedes gostaria de levar adiante. As privatizações têm hoje alguma aceitação entre o público, mas reforma trabalhista e reforma da previdência dificilmente serão capazes de levar os cidadãos às ruas. Quem, afinal, se vestirá de verde e amarelo e entoará gritos de guerra para empurrar para mais longe sua data de aposentadoria? O Congresso será igualmente resistente, ciente do custo político de se aprovar a reforma.

E, no entanto, é aquilo de que o Brasil mais precisa. Sem reforma da previdência, o Estado brasileiro seguirá no rumo inevitável do abismo, acelerando para a falência. Não está claro qual é a estratégia que Bolsonaro adotará e nem qual a natureza da reforma que ele proporá. A ideia de fatiar é perigosa, primeiro porque colocaria em primeiro lugar justamente a idade de aposentadoria do trabalhador do INSS, em geral mais pobre, deixando para um futuro incerto o ataque aos privilégios obscenos da aposentadoria do setor público.

Caso se mantenha fiel a seu discurso, e não ofereça cargos nem emendas parlamentares, o que sobrará? A boa vontade de início de mandato e uma teórica abertura ao bem comum, à necessidade de impedir o Brasil de quebrar. Não são apostas que passam muita confiança. O otimismo do mercado já esfriou, e o ano que vem deve ser complicado para países emergentes como o nosso. Juros mais altos nos EUA e em outros países ricos – que estarão crescendo – ao mesmo tempo em que o crescimento chinês segue em patamares mais baixos.

Até agora, Bolsonaro tem jogado para a opinião pública, chacoalhando diante dela diversas pautas que gozam de ampla adesão – algumas das quais são francamente inúteis para resolver qualquer problema social ou são até mesmo nocivas, como Escola sem Partido e liberação do porte de armas. Mas a situação do Brasil é tão crítica que o novo governo exigirá dele, desde o início, a postura de um líder capaz de priorizar o bem comum mesmo que a custo de alguma insatisfação popular. Se por acaso se acuar perante esse desafio ou for politicamente inábil, entregará um governo fraco e incapaz de devolver a grandeza ao Brasil. Se for bem-sucedido, até os críticos mais ferrenhos terão que tirar o chapéu.