A última gota

Os erros da última edição do ENEM e o comportamento de Weintraub frente ao MEC colocam ainda mais a capacidade do Ministro da Educação em xeque

O fiasco do ENEM é, em si mesmo, algo grave. É a primeira vez que uma falha do ENEM atinge, não uma questão de logística ou de segurança, mas a prova em si: a nota do estudante. O consequente atraso nos calendários do SISU e do Prouni, mais o destrambelho com que notas “não oficiais” foram reveladas apenas agrava todo o ocorrido. Não importa o que faça agora, a credibilidade da última edição do ENEM está manchada e centenas de milhares de estudantes jamais terão certeza de que suas notas publicadas correspondem à nota real, desconhecida.

E, no entanto, da perspectiva dos nove meses de ministério de Abraham Weintraub, o ENEM é uma gota; a gota final que deveria levar mesmo seus apoiadores a concluir que ele não tem condições de permanecer ministro da educação.

Desde o início, Weintraub não tinha um currículo muito afeito à pasta. Fora sua carreira no mercado financeiro, tinha o “mérito” de ser elogiado por Olavo de Carvalho. Tampouco revelou, no cargo, alguma virtude ou conhecimento novos. Pelo contrário, desde o início elegeu as universidades federais como seu inimigo declarado.

Quando o governo federal se viu na necessidade de realizar o contingenciamento de gastos (algo a que qualquer governo está sujeito), Weintraub, aparentemente por desconhecer os motivos do corte temporário que teria que fazer nos recursos das instituições federais de ensino, veio a público quase celebrando uma suposta punição a universidades que tinham feito “balbúrdia”. Na sequência devem ter-lhe informado de que seria ilegal cortar o financiamento de algumas universidades escolhidas a dedo, e ele logo atualizou o discurso.

Seu programa Future-se, que misturava algumas práticas já feitas por diversas universidades e algumas modalidades novas que poderiam trazer mais recursos privados ao ensino superior (embora também tornassem as universidades perigosamente reféns do resultado financeiro), não foi visto como vantajoso pela maioria das instituições. Com baixa adesão, o fracasso foi mais retumbante do que o show bombástico com que ele originalmente apresentara o projeto.

Em um momento, afirmou haver plantações extensivas de maconha e produção profissional de drogas sintéticas nos campi das federais. Tudo mentira, e o que é mais impressionante: mentiras feitas não para destruir um adversário política, mas para sujar a imagem das instituições pelas quais ele próprio deveria zelar.

Nas últimas semanas, nomeou para a presidência da CAPES alguém que não só defende o criacionismo no lugar da teoria da evolução como gostar de levar esse “debate” para as escolas do país. Para completar, a portaria que limita a ida de no máximo um pesquisador de uma mesma universidade para cada congresso científico é tão nefasta que deixa no ar a suspeita de que, mais do que ranço ideológico, o ministro simplesmente desconhece qualquer coisa sobre o ensino superior.

Com o ensino básico, Weintraub tem sido negligente. O plano das escolas cívico-militares, além de carecer de evidências, tem escala pequena demais para ter qualquer impacto. A grande questão que defrontará este governo, contudo, que é o debate acerca do novo Fundeb, está parado. O ministro diz que quer iniciar a discussão do zero (embora já existam propostas feitas por especialistas da área), mas o Fundeb expira este ano e até agora o governo não apresentou nada.

Esses são apenas alguns dos tropeços do ministério sob Weintraub. Isso para não falar da postura pessoal do ministro, uma literal palhaçada e um desrespeito ao cidadão. Com vídeos humorísticos, bloqueios e xingamentos nas redes sociais (não nos esqueçamos que ele xingou a mãe de um cidadão de “égua sarnenta e desdentada”) e os erros cômicos de português, fica claro que o ministro não está à altura do cargo.

Logo antes de iniciar o governo, Bolsonaro sinalizara que o ministro da educação poderia ser alguém oriundo do Instituto Ayrton Senna. Seria um golaço. Esse e outras instituições, como o Todos Pela Educação, têm profissionais especializados no tema e com as melhores experiências do mundo prontos e dispostos a trabalhar. Infelizmente, cedeu à pressão da bancada evangélica e da ala olavista. Deu no que deu. Um ano depois, a educação está escanteada. Se fosse, digamos, no Ministério do Turismo (que também está), seria apenas feio. Numa das pastas mais importantes para o futuro do Brasil, é uma verdadeira tragédia. Bolsonaro tem o dever de corrigir o rumo na Educação.