Os olavistas e a guerra dentro do governo Bolsonaro

A fonte da maior parte dos problemas do governo Bolsonaro tem sido a ala olavista

Há uma guerra interna instalada no governo Bolsonaro. Em linhas gerais, de um lado está a chamada ala ideológica ou “olavista”, composta de seguidores de Olavo de Carvalho (o que não significa que seja ele quem toma as decisões dentro dela). Neste campo estão o Chanceler, o assessor presidencial Filipe Martins, os filhos Carlos e Eduardo Bolsonaro, o novo Ministro da Educação e, embora mais associada aos evangélicos que a Olavo, a Ministra Damares Alves. Do outro, está a união entre a ala militar e os ministros Sergio Moro e Paulo Guedes.

A fonte da maior parte dos problemas do governo Bolsonaro tem sido justamente a ala olavista. Sua comunicação, baseada no enfrentamento constante de supostos inimigos para mobilizar uma militância virtual raivosa, explica em boa parte a péssima relação do governo com o Congresso. A justificativa olavista é que se Bolsonaro governar para o povo, a pressão popular em cima das demais instituições obriga-las-á a se prostrarem perante o presidente ou serem efetivamente solapadas pela ira do povo.

Olavo e Filipe Martins há tempos falam abertamente no desejo de um revolução no Brasil (leia-se: derrubada violenta do sistema e da ordem jurídica pela força do povo), tendo inclusive tentado insuflar uma durante a greve dos caminhoneiros de 2018. Em um post de Facebook de 24 de maio do ano passado, Olavo incitou aos caminhoneiros a que parassem de pedir uma por uma intervenção militar e que fizessem uma intervenção eles mesmos, finalizando com “todo poder aos caminhoneiros!”

Olavo não está presente no dia a dia do governo. Mas Filipe Martins, Eduardo Bolsonaro e Carlos Bolsonaro operam sob a mesma lógica da revolução por meio do ódio popular a tudo que possa refrear o poder do presidente. Sua grande força é a mobilização da militância online, sempre pronta a atacar alvos selecionados pelos líderes, mas hoje ela já encontra bastante resistência de outros usuários. Uma rápida visita às páginas dos três pode comprová-lo. Mais importante que um exército no Twitter é ter o povo nas ruas, disposto a parar o país e, se necessário, usar a violência para tomar o poder. Isso também está em falta, como os protestos mais recentes têm mostrado.

No plano da competência técnica, os fracassos são reiterados. O Ministério da Educação, inoperante há três meses, e a APEX (mesmo resultado) o mostram com clareza. No Ministério das Relações Exteriores, muita fala e poucos resultados. Seu maior resultado, o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (sobre a Base de Alcântara) é um acordo que já havia sido preparado há décadas ainda no governo FHC. Os governos petistas enterraram o acordo. O governo Temer o ressuscitou e o colocou em negociação. O governo Bolsonaro colhe o fruto de finalmente assiná-lo, mas não é como se o mérito fosse seu. Fora isso, temos discursos grandiloquentes. Via de regra, o modus operandi de Olavo de Carvalho e seus seguidores é promover discórdia e intrigas por onde passam. Nada prospera aí, apenas as paixões exaltadas em defesa ou ataque ao mestre.

Quando olhamos do outro lado, a imagem é diferente: vemos ministros com enorme capacidade de trabalho e apresentando projetos concretos. O Ministério da Economia leva adiante uma agenda ambiciosa em várias frentes. Sergio Moro na Justiça e Tarcísio Gomes de Freita na Infra-estrutura também se mostram profundos conhecedores de suas áreas e com a disposição de avançar pautas importantes. Eles precisam, contudo, de instituições que funcionem: Congresso, Judiciário, Mídia não são vistos como inimigos.

Com tudo isso, seria de se esperar que o Presidente tirasse poder da ala olavista e favorecesse a ala técnica. Contudo, não é o que temos visto. Reiteradamente, quando um conflito emerge, os ideológicos têm levado a melhor na escolha do presidente. Foi assim na hora de determinar se a APEX ficaria no Ministério da Economia ou no das Relações Exteriores. O Chanceler inicialmente nomeou um indivíduo despreparado, que nem falava inglês. Foi rapidamente exonerado e em seu lugar entrou o Embaixador Mário Vilalva. Incapaz de trabalhar com as intrigas constantes causadas pela equipe olavista, ele também foi exonerado. A Agência está há três meses paralisada. O mesmo vale para o MEC. E, no entanto, ao invés de tirá-los de mãos olavistas, Bolsonaro os reconduz para o mesmo grupo.

Da mesma forma, mesmo sentindo na pele o efeito deletério das mensagens agressivas de Carlos Bolsonaro (queda na Bolsa, alta do dólar, insatisfação de Guedes), o Presidente não o afasta da comunicação presidencial. Algo o torna incapaz de contrariar seus filhos. E como o projeto de poder de ambos está em conflito com o sucesso do governo do pai, o Presidente segue se auto-sabotando desnecessariamente.

Mais eloquente de todos é a postura do Presidente com o próprio Olavo. Mesmo tendo o ideólogo xingado o vice-presidente e o General Santos Cruz publicamente, Jair Bolsonaro o colocou à sua direita no jantar presidencial. O sinal é claro.

A estratégia revolucionária dos olavistas tem chance de dar certo? O Brasil vai sucumbir ao levante popular de direitistas fanatizados e cheios de ódio? Duvido muito. Se nem na Internet conseguem manter uma clara superioridade, que dirá nas ruas. O plano vai falhar. Mas se o Presidente Jair Bolsonaro embarcar nesse plano, seu governo falhará junto. E, com esse fracasso, o Brasil sofrerá ainda mais.