A eterna lição de casa

Políticos e governos do Brasil deveriam prestar mais atenção nos exemplos e lições dados

Há problemas sociais e políticos novos, que levam as melhores mentes do mundo a quebrar a cabeça em busca de soluções. Será que a automação crescente levará a desemprego massivo? Como proteger a população de informação falsa veiculada maliciosamente pelas redes sociais? Como se combate o terrorismo?

E há os problemas que afligem o Brasil há décadas. Para esses, há respostas bem estabelecidas, que precisariam de um ou outro ajuste à realidade nacional, mas cujo direcionamento básico é claro. Educação básica, saneamento, impostos, organização econômica. Em todos eles, não precisamos reinventar a roda; ela já está aí, funcionando em tantos países. Basta escolher entre dois ou três modelos mais bem-sucedidos e aplicar.

O que nos falta é um Estado – tanto em sua classe política quanto no funcionalismo – minimamente capaz de seguir qualquer ideia de forma consistente; de botar em prática um plano com começo, meio e fim.

O novo relatório do Banco Mundial – ‘Emprego e Crescimento: A Agenda da Produtividade’ – não traz nenhuma novidade. Nada que nossos melhores economistas não venham falando há um bom tempo. Ao mesmo tempo, é uma mensagem necessária, dado que a classe política consegue ignorar esses apelos e o debate público fica completamente tomado por discussões pontuais e noticiário policial.

No longo prazo, a produtividade total dos fatores é um dos maiores determinantes do crescimento e da prosperidade de um país. O Brasil, por incrível que pareça, viu sua produtividade cair nos últimos anos. Para retomar a lenta recuperação que vivemos, é preciso mudar muita coisa.

Acima de tudo, somos pouco competitivos. Resultado de intervenção do Estado na economia e de uma economia fechada ao mercado internacional. Reduzir tarifas e outras barreiras à entrada de produtos estrangeiros teria o excelente benefício de forçar uma alocação mais eficiente dos recursos aqui dentro: botar nossas empresas para concorrer ao invés de protegê-las e oferecer subsídios e isenções a troco de nada.

Em segundo lugar, o mercado de trabalho também é muito engessado. O salário mínimo subiu mesmo diante da redução da produtividade, o que dificulta o acesso dos mais jovens (e dos menos produtivos em geral) ao mercado de trabalho. Além disso, o gasto do governo com desempregados é pouco inteligente: não favorece a capacitação, a atualização do profissional, e nem sua reinserção no mercado. É a velha ajuda estatal que trata o indivíduo como um pobre-coitado. Outras modalidades virtuosas de ajudar os trabalhadores, como facilitar o acesso a crédito para pequenos empreendedores, também permanecem subexploradas.

O relatório é leitura recomendada para todo mundo que gostaria de ver o Brasil crescendo, gerando emprego e com mais qualidade de vida. Os autores são muito cuidadosos, inclusive, em pensar na distribuição dos ganhos econômicos para o Brasil: de pouco adianta um país enriquecer se essa nova riqueza ficar apenas nas mãos dos mais ricos. Esse medo é infundado no caso brasileiro: os mais pobres e menos produtivos são justamente os que mais têm a ganhar com uma economia mais livre e mais integrada ao mundo.

E talvez por isso haja algo de melancólico nessa leitura: medidas sensatas – nada de cartilha ideológica empurrando liberalismo a ferro e fogo -, com resultados econômicos e sociais bem documentados, um caminho já trilhado por tantas outras nações, e que trará benefícios não só para empresários e profissionais altamente qualificados, mas especialmente para aqueles que mais precisam. E, mesmo assim, permanece uma agenda distante.

Os interesses organizados de curto prazo dão as cartas. Alguém realmente espera ver nosso país abrir-se às importações ou adotar um código tributário mais razoável? Alguns ganhos fáceis de alguns membros do sistema teriam que ser postos de lado, e isso já emperra qualquer mudança.

O Brasil pode estar parado no tempo, às voltas com uma agenda óbvia, uma lição de casa que deixamos sempre para depois. Mas o tempo não vai nos esperar. Automação, populismo, terrorismo, fake news, envelhecimento e tantos outros dilemas do mundo contemporâneo já estão batendo à nossa porta. O menino cresceu, tem barba e precisa arranjar um emprego; talvez seja um bom momento para aprender a ler e escrever.

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