Sexo, drogas e hipsters australianos

O socialista Pepe Mujica e o liberal Robert Menzies triunfaram usando a arma própria das democracias: o convencimento

Barbas hipster, vestidos vintage, cabelos de todas as cores. Europeus, negros, chineses, indianos. A diversidade reina nas ruas de Melbourne, uma das metrópoles mais fascinantes do planeta. Poucas sociedades são tão abertas, multiculturais e coloridas como a australiana – o país recentemente ultrapassou os Estados Unidos na porcentagem de estrangeiros vivendo em suas fronteiras. Nem sempre foi assim. Na virada do século 19 para o 20, os habitantes do país, em sua maioria de ascendência britânica, não queriam negros nem asiáticos na ilha. O nome sugestivo – e infame – da política de imigração era “White Australia”. Nas olimpíadas de 1956, em Melbourne, evitou-se que aborígenes e descendentes se juntassem à delegação esportiva australiana. Foi um primeiro-ministro de direita, Robert Menzies – um liberal – que quebrou a resistência de seus compatriotas e iniciou um dos projetos de imigração e integração mais bem-sucedidos do planeta.

Nada mais distante do frenesi de Melbourne que a calma de Montevidéu. Com suas praias plácidas e boemia em ritmo cadenciado, a cidade remete ao Rio de Janeiro dos anos 1950 – e, de forma discreta, se tornou referência na América Latina na área dos  direitos individuais. A legislação de interrupção da gravidez é uma das mais avançadas do mundo, o casamento gay já se tornou comum e, na seara das diversões alternativas, os uruguaios vivem “o experimento” – como chamam a política que regula o cultivo e o consumo de maconha. O Uruguai figura com a nota mais alta do continente no quesito instituições democráticas, de acordo com o ranking da Freedom House americana. O debate público – e transformador – sobre aborto, maconha e casamento gay ocorreu durante o mandato de um único presidente: José Mujica, que governou o país entre 2010 e 2015. Pepe Mujica, como é conhecido, é ex-guerrilheiro, define-se como socialista e forma no time da esquerda moderna: ortodoxo na economia, avançado nos costumes e entusiasta de programas sociais.

O liberal Menzies e o socialista Mujica têm muito em comum. Eles são exemplos do que a democracia têm de mais fascinante, algo que a diferencia por definição dos regimes autoritários: o convencimento do eleitorado se dá pela argumentação, não pela força. Na defesa das causas que abraçaram, ambos brandiram as armas dos fatos, dos dados e da lógica. Como escreve o jornalista George Megalogenis no livro “Australia’s Second Chance” (“A Segunda Chance da Australia”), a resistência dos australianos aos imigrantes era enorme nos anos 1950. O país tinha uma população pequena, o que limitava seu crescimento econômico. No cenário desolado do pós-guerra, um contingente de europeus do sul, notadamente gregos e italianos, sonhava em emigrar para a distante ilha de oportunidades. As pesquisas apontavam, no entanto, que os australianos só queriam imigrantes ingleses e alemães, e repudiavam os europeus do sul. Menzies ainda tinha a resistência da esquerda, que temia a concorrência pelos empregos de menor qualificação. Pouco a pouco, Menzies convenceu a população da importância de abrir as fronteiras. A cada ano um contingente de gregos e italianos aportava no continente, e Menzies mostrava, com levantamentos feitos por universidades, que tal imigração movimentava a economia. Mais que isso: enriquecia a cultura e gerava capital humano.

A causa, aos poucos, tornou-se popular. Menzies foi o primeiro ministro mais longevo da história da Austrália. Esteve no poder de 1949 a 1966. Em seu governo, e nas décadas que se seguiram, os imigrantes progrediram, graças ao esplêndido sistema educacional australiano. Hoje Melbourne é a terceira maior cidade grega do mundo, atrás apenas de Atenas e Salônica. Os filhos e netos da primeira leva ostentam a maior média de mestres e doutores entre os descendentes de imigrantes. A família de Megalogenis, autor de “Australia`s Second Chance”, é exemplo vivo dessa progressão virtuosa de gerações – e personagem do livro.

Pepe Mujica também teve que convencer a população uruguaia de suas teses na área das liberdades individuais. Não houve dificuldades para aprovar o casamento gay, já enraizado informalmente na sociedade uruguaia. A história do experimento com a maconha, que envolveu gestões diplomáticas internacionais – contrariava a política de guerra às drogas iniciada na era Bush – é relativamente conhecida. A saga por leis mais liberais no caso do aborto foi a mais difícil num país de maioria católica. Em vez de bravatas e “enfrentamento”, para usar uma palavra da moda, Mujica seguiu a via própria das democracias – a do convencimento. Os projetos de lei sobre o aborto dormiam nas gavetas do parlamento há mais de trinta anos. Mujica os trouxe de volta ao debate público, munido de estatísticas sobre as uruguaias que morriam em cirurgias clandestinas. Não se posicionou a favor do aborto, mas das mulheres. Disse que faria uma experiência com o objetivo de reduzir as estatísticas macabras, e depois a nação poderia ratificar ou rejeitar a lei em plebiscito. Entre 2012 e 2013 o aborto passou a ser oferecido em hospitais públicos. Em 2014 saiu a primeira estatística: 6.676 procedimentos realizados no sistema de saúde – e nenhuma morte registrada. No plebiscito, como narra o jornalista Maurício Rabufetti no livro “La Revolución Tranquila”, menos de 10% dos uruguaios apareceram para votar contra a lei.

Já é clichê a frase de Winston Churchill segundo a qual a democracia é o pior regime, com exceção dos outros. Defensores de ditaduras do passado – que tristemente têm reaparecido nos dias de hoje – argumentam que, nas democracias, as teses impopulares, mesmo quando corretas, nunca triunfam. Os governantes sempre mantêm um olho nas pesquisas e acabam por ceder ao populismo. Menzies e Mujica provam o contrário. Regimes de liberdade não interditam debates e, com argumentos, é possível discutir com a população as questões mais difíceis. Nas democracias, esta é, precisamente, a marca dos grandes líderes.

(apesar desta ser uma coluna dedicada aos políticos estrangeiros, segue abaixo a nossa tradicional tabela com as tendências políticas dos pré-candidatos brasileiros)

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