Os desafios de mobilidade urbana nas cidades brasileiras

Fundador do blog Caos Planejado analisa os impactos do transporte na economia e na qualidade de vida dos brasileiros

A garantia de uma mobilidade urbana eficaz é fundamental não só para a qualidade de vida da população, como também para a economia de uma cidade. Embora possua tamanha importância, os municípios brasileiros ainda enfrentam grandes desafios nesta questão, sobretudo pela falta de planejamento e políticas públicas que possam melhorar problemas estruturais dessas regiões. Em entrevista ao Instituto Millenium, o urbanista e criador do blog Caos Planejado, Anthony Ling, falou sobre os principais entraves vistos pelo Brasil afora: o trânsito e o déficit habitacional. Ouça o podcast!

Ling salienta que as cidades brasileiras cresceram privilegiando os automóveis que, além de ocupar grande parte do espaço, são responsáveis por 1/3 dos deslocamentos médios feitos em um município. Isso reflete no congestionamento, rotina para quem vive nos grandes centros do país. “Um cidadão médio do Rio de Janeiro ou São Paulo passa cerca de duas horas por dia se deslocando. Caso esse tempo fosse trocado por trabalho, seria um ganho imediato de 25% sobre um turno de oito horas. Só aí dá para ter uma ideia do impacto que isso está gerando na economia de uma cidade”, comenta, acrescentando que o trânsito no Brasil possui ainda outros graves problemas, como o elevado número de mortes e o impacto no meio ambiente.

“O transporte público também enfrenta uma série de desafios, incluindo o próprio trânsito, que acaba prejudicando a qualidade do serviço justamente por causa da imprevisibilidade nas vias. Com o fluxo mais lento, são necessários mais veículos nas ruas. Ling lembra ainda que há uma tarifa definida politicamente, sem opção de flexibilidade para o operador. Com a tarifa mais alta e o serviço ruim, a população que tem opção acaba preferindo outros meios de transporte, prejudicando ainda mais o cenário.
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“Uma questão que coloco como grande recomendação são as taxas de congestionamento. Em Cingapura, por exemplo, que tem o sistema de taxa mais evoluído do mundo, eles conseguem precificar o trânsito nas vias de acordo com o horário e demanda. Dessa forma, o ônibus não tem esse desafio de tabela, e o próprio corredor destinado a eles começa a ser menos necessário, já que você possui um transporte fluindo no dia a dia. Outro ponto que gosto de mencionar, e ainda é um tabu, é o transporte alternativo. As vans, por exemplo, conseguem fazer menos baldeações, mais rotas ponto a ponto, além de ter preços mais acessíveis. Isso é permitir uma concorrência maior em transporte coletivo, com mais opções à população”, aconselha. Nesse contexto, soluções tecnológicas também podem ajudar, já que Uber e outras empresas já experimentam soluções para compartilhar as viagens.

Habitação
A moradia também é um grande entrave da mobilidade urbana das cidades brasileiras. De acordo com Ling, o déficit habitacional do país é imenso, sobretudo nas áreas onde as pessoas realmente querem morar, como nos centros urbanos, que possuem alto custo pela lei da oferta e da demanda. Embora a procura por essas regiões seja grande, há um movimento forte nas grandes capitais brasileiras de restringir a oferta com regulações que impedem novas construções. “A cidade deve permitir que se construa mais, para torná-la mais acessível, além de focar na gestão do espaço publico: no espaço das vias, na infraestrutura, segurança, qualidade de vida, nas praças e parques”.

O urbanista também tem críticas ao Minha Casa, Minha Vida, uma das principais políticas públicas recentes na área de habitação. Na opinião do especialista, o programa oferece soluções para a moradia olhando para a quantidade, independentemente da localização e da qualidade. “Vamos entregar milhões de casas, não importa aonde, se haverá emprego, transporte…Essa é uma abordagem equivocada. Muitos compradores ficaram endividados, empreendimentos foram mal construídos e estão sofrendo com problemas técnicos, em alguns lugares os condomínios são mais caros do que o próprio crédito do proprietário. Muitos são isolados, sem acesso, e em espaços dominados por gangues e pelo tráfico”.

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