Os 30 anos da queda do Muro de Berlim

João Luiz Mauad faz homenagem a alguns dos heróis daquela façanha

“Em nenhum lugar do planeta, em nenhum lugar da história, houve um regime mais cruel, mais sanguinário e, ao mesmo tempo, mais astuto que o bolchevique.”… “O socialismo de qualquer tipo leva a uma destruição total do espírito humano” Alexander Soljenitsin

Existem basicamente dois tipos de muros.  Uns são erguidos para tentar evitar que “visitas” indesejadas adentrem a propriedade particular, enquanto outros pretendem evitar a saída das pessoas.  No primeiro caso estão os muros e cercas construídos para delimitar os terrenos de nossas casas, condomínios, fazendas e outras propriedades em geral.  No segundo, estão os presídios e as jaulas dos animais perigosos.  No primeiro caso, estariam as políticas nacionais de imigração e no segundo as de emigração.  Qualquer muro é ruim, mas sem dúvida os das prisões são os piores.

O Muro de Berlim faz parte daquele tipo de muro que pretende evitar que as pessoas deixem determinado espaço, quer provisória, quer definitivamente.  Foi um muro de prisão, não de limite de propriedade. No fundo, o que o Muro de Berlim representou foi a idéia de que o indivíduo é propriedade (prisioneiro) do Estado.

O economista alemão Wilhem Roepke disse certa vez, com inteira pertinência, que não há meio mais eficiente de reduzir os homens a mera engrenagem da máquina coletivista do que privá-los da liberdade de movimento.  Neste vigésimo aniversário da derrubada do “Muro da Vergonha”, devemos nos lembrar que ele foi o símbolo de uma tirania sob a qual todo indivíduo era marcado com um rótulo: propriedade do estado.

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Enquanto o Muro esteve de pé, não faltaram intelectuais (inclusive ocidentais) engajados na defesa do sistema que ele representava.  Mas houve também alguns poucos sobreviventes do regime que travaram contra aquela aberração uma guerra sem trégua. Destacamos para homenagear aqui três desses personagens.

O primeiro deles é o Papa João Paulo II. A queda do comunismo começou, entre outros fatos, com a eleição do então cardeal polonês Karol Wojtyka, em 1978. Sem dúvida aquela eleição foi surpreendente, não só por escolher um Papa não italiano – o que não acontecia desde Adriano VI (1522-1523) – mas principalmente por ser um Papa que vinha de um país detrás da Cortina de Ferro. “Trata-se de um terremoto psicológico para todo o Leste”, disse o Cardeal Franz konig, Arcebispo de Viena, na época.

Desde o início do seu pontificado, João Paulo II tinha como objetivo conquistar a liberdade civil e religiosa para as nações dominadas pelo comunismo ateu, sob o qual ele tanto sofreu. Mas o Papa desejava uma mudança sem violência e sem sangue, levando os regimes totalitários a se abrirem lentamente à verdade e à liberdade. E, graças a Deus, foi o que aconteceu.

A Europa dividida criminosamente pelo Muro de Berlim, sempre foi para João Paulo II uma ferida insuportável, um rasgão que precisava ser costurado. Assim, em Gniezno (1979), em Paris (1980), em Compostela (1982), em Viena (1983), o Papa denunciou a divisão da Europa e condenou o muro de Berlim.

Em sua primeira visita à Polônia, em 1979, ele percebeu claramente que tinha o apoio do povo polonês. Em 13 de junho de 1987, o então líder polonês, general Wojciech Jaruzelski, foi recebido pelo Papa no Vaticano, e nesse mesmo ano João Paulo II voltou, pela terceira vez, à sua terra.

Em Gdansk, 750.000 pessoas lhe aclamaram. Ali lhes confiou que todos os dias rezava por sua pátria e por seus compatriotas e cumprimentou o Solidariedade, no meio da alegria e euforia coletiva.

Segundo os observadores políticos, a visita de Jaruzelski ao Vaticano e o ato de Gdansk marcaram o começo da derrota do comunismo, primeiro na Polônia e depois em outros países.

O golpe definitivo viria em janeiro de 1989, quando Solidariedade foi legalizado definitivamente e, em agosto desse mesmo ano, quando o católico Tadeusz Mazowiecki, que foi assessor do sindicato, chegou ao poder, derrotando os comunistas. A Polônia foi a primeira ficha do “efeito dominó”. [1]

O segundo personagem é outro polonês: o filósofo Laszek Kolakowski, um ex-marxista regenerado que acabou expulso da Polônia e, posteriormente, desde o exílio no Ocidente, foi um dos mentores do Sindicato Solidariedade.

Kolakowski era, portanto, o melhor tipo de marxista possível – o ex-marxista -, tendo concluído, depois de participar dela, que a experiência soviética foi a “grande fantasia do Século XX”, além de que “nunca houve ou haverá aperfeiçoamento possível [desta ideologia] que não sejam pagos com deterioração, maldade e desgraça”.

Seu mais conhecido e influente trabalho foram os três volumes do “Main Currents of Marxism”, Its Rise, Growth and Dissolution (1976-78).  Escrito no exílio, este foi, e permanece, a mais lúcida e compreensível história sobre a origem, estrutura e desenvolvimento do atroz dominante sistema de pensamento do Século XX.  Aquela foi também uma obra profética, escrita num tempo em que o marxismo ainda fornecia a cola ideológica para o, até então, perene sistema comunista soviético.  Ele descreveu com objetividade e clareza as principais idéias e diversas correntes do pensamento marxista, “que começou num prometido humanismo e culminou na monstruosa tirania de Stalin”.  Não sem razão, Kolakowski não considerava o stalinismo uma aberração, mas, ao contrário, o produto lógico do marxismo.

Segundo o polonês, o socialismo podia ser descrito como “uma sociedade na qual um homem está encrencado por dizer o que pensa, enquanto outro obtém privilégios por não dizer o que tem em mente; uma sociedade na qual se vive melhor quando não se tem idéias próprias; um Estado que tem mais espiões do que enfermeiras e mais pessoas nas prisões do que nos hospitais; um Estado onde filósofos e escritores sempre dizem as mesmas coisas que os generais e os ministros – mas sempre depois que estes últimos já se pronunciaram”.

Num artigo publicado em 1975, Kolakowski observou que a experiência comunista mostrou que o único remédio (marxista) universal para todos os males sociais – a propriedade do Estado dos meios de produção – é não somente compatível com todos os problemas do mundo capitalista – exploração, imperialismo, poluição, miséria, desperdício … – como acrescenta a eles uma série de outros desastres só seus: ineficiência, falta de incentivos econômicos e, acima de tudo, normas irrestritas da burocracia onipresente, uma concentração de poder jamais vista na história humana.

Kolakowski era particularmente severo com os apologistas ocidentais (Sartre, o pessoal da Escola de Frankfuet et caterva) dos regimes marxistas, os quais sugeriam que os progressos econômicos e sociais eventualmente alcançados pelos países comunistas, de alguma forma justificavam as atrocidades cometidas: “A falta de liberdade é apresentada como se fosse temporária.  Os reportes nessa linha dão a impressão de que são fatos não prejudiciais.  Na verdade, eles não são simplesmente falsos, mas absolutamente corrompidos.  Não que nada tenha mudado nesses países, nem que não tenha havido progressos econômicos, mas porque a escravidão política foi instalada no tecido social como a mais absoluta condição de sobrevivência”.  Ele desmistificou a idéia de socialismo democrático como algo contraditório (uma “bola de fogo gelada”), e os modernos marxistas como “meros repositórios de slogans, cujo objetivo é organizar interesses diversos”.

Outro grande intelectual que ousou nadar contra a maré da época foi Alexander Soljenítsin, um matemático, romancista, filósofo, dramaturgo e historiador russo cujas obras construíram e celebrizaram a imagem que o mundo tem a respeito dos gulags, sistema prisional baseado em trabalhos forçados existente na antiga União Soviética.

A sua postura crítica sobre o que considerava o esmagamento da liberdade individual pelo Estado onipresente e totalitário implicou sua expulsão do país natal e a retirada da respectiva nacionalidade, em 1974. Do exílio, Soljenítsin continuou sua batalha sem tréguas contra o comunismo, esgrimindo sua pena com maestria e profundidade ímpares.

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Soljenítsin foi um crítico inclemente da mídia e da intelectualidade ocidentais, cuja ideologia os fazia esconder os crimes praticados atrás da Cortina de Ferro: “O bolchevismo cometeu o maior massacre humano de todos os tempos. O fato de que a maioria do mundo seja ignorante e indiferente sobre este enorme crime é a prova de que a mídia global está nas mãos dos agressores”, escreveu ele com certo rancor.

Mas Soljenitsin também descreveu como poucos a psicologia por trás do regime: “Os mesmos velhos sentimentos do homem das cavernas – ganância, inveja, violência e ódio mútuo, que ao longo do caminho assumiram respeitáveis pseudônimos como luta de classes, luta racial, luta de massas, luta sindical – estão dilacerando nosso mundo.” O russo tinha plena consciência de que a degradação de certos valores superiores e o indefectível relativismo moral exerceram papéis fundamentais na eclosão da barbárie:

“Rejeitar essa ideologia comunista desumana é simplesmente ser um ser humano. Tal rejeição é mais que um ato político. É um protesto de nossas almas contra aqueles que querem nos fazer esquecer os conceitos de bem e mal.. “A “Revolução de Outubro” é um mito gerado pelos vencedores, os bolcheviques, e engolido por círculos progressistas no Ocidente.”

Soljenitsin preocupava-se muito também com a memória fraca das massas ocidentais, que apenas pouco tempo depois da queda do Muro de Berlim já se mostravam enfeitiçadas pela quimera socialista, especialmente em determinados bastiões do capitalismo, como os Estados Unidos: “Coexistir com o comunismo no mesmo planeta é impossível. Ou ele se espalhará, como o câncer, para destruir a humanidade, ou então a humanidade terá que se livrar do comunismo.” “Para nós, na Rússia, o comunismo é um cachorro morto, enquanto, para muitas pessoas no Ocidente, ainda é um leão vivo.”

De fato, é surpreendente (e incompreensível) que um modelo que empobreceu inúmeras nações mundo afora e matou centenas de milhões de pessoas seja ainda percebido como benemerente e desejável, enquanto o capitalismo, que libertou bilhões da pobreza e salvou bilhões de vidas humanas seja retratado como um câncer a ser extirpado.

[1] “Sua Santidade: o Papa João Paulo II e a história oculta de nosso tempo” – Carl Bernstein e Marco Politi (Editora Objetiva Ltda, Rio de Janeiro)