Doutorado em má-fé por Harvard

"Pesquisa realizada no ano passado e publicada na plataforma Udemy mostra que um em cada dez brasileiros mente em seu currículo"

Por Leandro Bortolassi*

Ética, compliance, governança. Nunca se discutiu tanto esses valores como nos últimos anos. Logo, uma derivação do dilema darwiniano, aquele que questiona o que vem primeiro (o ovo ou a galinha?) pode surgir e nos lança uma nova questão: por quê temos discutido ética, compliance e governança? Talvez, pela profusão de escândalos em todos os níveis de nossa história recente. Ou, talvez, por estarmos mais intolerantes à falta de ética.

Se voltarmos alguns anos no tempo, mais precisamente na Grécia, veremos que ética já era uma das disciplinas de estudo da filosofia clássica, a mesma de Sócrates, Platão e Aristóteles. Em sua definição, ética, ou ethos, é o conjunto de valores morais de um indivíduo ou uma sociedade. Inclusive, um dos princípios elementares do Direito foi construído sobre o alicerce da ética: a boa-fé, que preconiza e lealdade e a confiança recíproca.

Logo, ética é um princípio de justeza, portanto inflexível. Ética é integridade, transparência e verdade.

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Mas, e quando a ética se torna relativa? Acontece. Um exemplo é quando se cobra da esfera pública e do mercado o que não se pratica na vida pessoal. Uma pesquisa realizada no ano passado e publicada na plataforma Udemy, mostra que um em cada dez brasileiros mente em seu currículo. Mas, com puro eufemismo, parte da imprensa diz que, ao lado dos franceses, somos uma nação com menos mentirosos, principalmente quando comparados com mexicanos e espanhóis, que estão no topo dessa lista. Mundialmente, fluência em algum idioma é uma das mentiras mais recorrentes nos currículos, e que são facilmente identificadas nos processos de seleção. Estar no pé da lista não exclui o fato de que o brasileiro tem o hábito de mentir como forma de obter algum tipo de vantagem.

Dois casos recentes de fraudes curriculares têm gerado repercussão interessante. No primeiro deles, o da professora Joana D’Arc Félix de Sousa, que constituiu sua carreira acadêmica na área de química pela Unicamp, da graduação ao doutorado. Com uma história de superação, a trajetória da professora estava bem perto de ser retratada no cinema. Assim como a militar francesa Joana D’Arc, a professora do interior de São Paulo também enfrentou a tragédia da miséria e do preconceito até se tornar vitoriosa. No entanto, ao contrário da heroína francesa, que fora traída pelo seu próprio exército por inveja, a nossa Joana D’Arc caiu por terra graças a uma rede de mentiras criada por ela própria, na qual incluía desde um suposto pós-doutorado em Harvard, a detenção de patentes que o INPI (Instituto Nacional de Propriedade Intelectual) desconhece, e até mesmo uma confusão relacionada com sua idade. Essa segunda parte da história também daria um filme.

Do outro lado, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, que, coincidentemente, também incluiu uma titulação e intercâmbio em Harvard em seu currículo na plataforma Lattes. Antes de se tornar governador, Witzel, de acordo com seu perfil, atualizado em 2016, era juiz federal com graduação em Processamento de Dados, bacharelado em Direito, pós-gradução em Docência para Ensino Superior e em Direito Empresarial e mestrado em Processo Civil. Era também doutorando em Ciência Política, pela Universidade Federal Fluminense, e Judicialização da Política, pela Harvard University. Detalhe: o curso em Harvard nunca foi frequentado. Após questionamento, o governador afirmou que estava concluindo seu doutorado no Brasil e que haveria a possibilidade de realizar um intercâmbio na universidade norte-americana, mas que a decisão foi adiada em função da disputa eleitoral. A universidade pela qual o governador cursava seu doutorado disse que ele não chegou a se inscrever para a bolsa em Harvard.

Mentir em uma plataforma como a Lattes é violar um termo assinado em que o usuário se responsabiliza pela veracidade das informações ali inseridas. Tanto o governador quanto a professora, embora justifiquem, relataram informações improcedentes. Para
ficar num jargão de mercado, turbinaram seus currículos.

No entanto, o que se observa é uma certa relativização do fato cometido por ambos. De um lado, um homem, branco, político e de direita. Do outro, uma mulher, negra, com histórico de dificuldades e exclusão social, mas que foram contornados através da educação.

Independentemente de gênero, perfil socioeconômico e racial, são dois casos que podem ser interpretados como má-fé. Ambas figuras foram projetadas em parte por sua vivência acadêmica, seja como docente ou como magistrado, e agora governador. No entanto, obviamente há quem critique um dos lados e ignore o outro. Obviamente, há quem enxergue cinismo em apenas um dos lados e feche os olhos para o que vê no outro. Obviamente, há quem tome conhecimento apenas sobre um dos fatos para poder ignorar o outro.

Relativização é comportamento sintomático de qualquer base ideológica com viés radical. É antirrepublicano. É ir contra o Estado de Direito. É ignorar, por crenças pessoais, o artigo 5º da Constituição Federal, que expressa o princípio constitucional da igualdade, a ser exercido independentemente de raça, cor, sexo, classe social, situação econômica, convicções políticas e religiosas.

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Duas situações praticamente idênticas, duas fraudes, duas mentiras, mas que repercutem de formas distintas. Num modelo de Estado de Direito, discutir-se-ia o impacto que ambas as situações lançam sobre a sociedade. Porém, no Brasil de hoje, o debate fomentado é sobre o nível de gravidade de cada uma delas, levando em conta os perfis de seus protagonistas. No mínimo, é uma grande contradição e uma tentativa de manipulação da opinião pública. É má-fé.

*Sócio-fundador e CEO da Eight. Jornalista, com MBA em Gestão Empresarial (FGV) e Marketing (SP Business School), atuou durante 14 anos em posições de liderança e estratégia nas principais agências de comunicação do país, além de companhias multinacionais nos setores de TI e Educação.