Não mexam com a floresta

Pesquisa de opinião mostra que os brasileiros de todas as regiões defendem a integridade – e até a expansão – das áreas de preservação da Amazônia

O país pode estar polarizado. Mas, quaisquer que sejam as diferenças ideológicas, de visão política ou de região onde moram, os cidadãos têm em comum sua visão de orgulho pela riqueza natural do Brasil. Uma sondagem feita pela organização de defesa do consumidor ReclameAqui, a pedido do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e da agência de causas O Mundo Que Queremos, mostra isso de forma contundente.

Não apenas os brasileiros de todas as regiões apoiam a conservação da Amazônia, eles defendem a existência – e até a ampliação – de áreas protegidas. Também condenam os ataques recentes às áreas de conservação. O ReclameAqui convidou os cerca de 20 milhões de usuários cadastrados a responderem um questionário com oito perguntas. Entre 26 de outubro e 4 de novembro, foram recolhidos 4.294 questionários pela internet. As pesquisas foram feitas por região do país, para entender como a visão ambiental varia de um lugar para o outro. Os resultados mostraram que, embora os brasileiros em geral apoiem a conservação da Amazônia, quem mora na própria região Norte tem uma perspectiva diferente.

Cerca de metade dos brasileiros dizem que conhecem e usam os parques em todas as regiões. Já visitou algum parque nacional ou estadual? Cerca de 50% dizem que sim no Sudeste, a maior proporção do país. Quem menos diz conhecer os parques são os nordestinos, com 40% de respostas afirmativas. Poucos tiveram oportunidade de visitar um parque na Amazônia, como era de esperar. Cerca de 4% (Sudeste), 6% (Sul e Centro-Oeste) e 7% (Nordeste). Entre os respondentes do Norte, 51% dizem que já foram a um parque na Amazônia.

Os entrevistados apoiam a existência das Unidades de Conservação. Não acham que o Brasil protege mais do que deve nem acreditam que falta terra para produção. Até o contrário. Sobre as áreas preservadas na Amazônia, a maioria fora da região Norte (83% no Centro-Oeste, 87% no Nordeste, 88% no Sudeste e 82% no Sul) acha que a região não está devidamente protegida e precisaria de mais áreas de conservação. Entre os que acham que a Amazônia tem área protegia demais e falta terra para produção, a maior proporção está no Centro-Oeste, com 5%, e a menor no Sudeste, com 4%. A resposta é diferente na própria região Norte, onde 65% acham que é preciso proteger mais, 18% dizem que há área suficiente protegida e para produção e 17% acreditam que falta terra para produção. Considerando tudo, a maioria em todas as regiões acha que é preciso preservar mais.

O valor dos parques é elevado. Na região Norte, 88% acham que os parques da Amazônia são “patrimônio público que conserva a floresta, os rios, a biodiversidade, as chuvas e têm potencial para o turismo”. Apenas 12% dizem que são “terra improdutiva que poderia ser usada para agricultura, pecuária, gerando empregos e alimentos”. Nas outras regiões, o apoio é ainda maior. Cerca de 95% acham que os parques são patrimônio público que conserva as florestas. E só 5% dizem que é terra improdutiva.

Sobre os invasores das Unidades de Conservação, 62% no Norte e 66% no resto do país acham que são “latifundiários que querem se apropriar do patrimônio público para enriquecer mais”. Apenas 9% no Norte, 7% no Sudeste e Nordeste, 4% no Sul e Centro-Oeste dizem que as pessoas “fazem isso porque precisam de terra para produzir e alimentar sua família”.

Quando um grupo de pessoas ocupa terras públicas protegidas na Amazônia para tirar madeira ou criar bois, eles estão se apropriando de um bem do povo brasileiro para 95% de quem responde na região Norte e de 97% a 98% de quem responde nas outras regiões. Só 5% na região Norte e 2% a 3% nas outras regiões acham que essas ocupações são justiça social, para usar uma terra improdutiva.

Quem representa a maior ameaça para a preservação? “Grandes latifundiários gananciosos” são os culpados para a maioria: 55% no Norte, 62% no Sul, 64% no Nordeste e Sudeste e 68% no Centro-Oeste. Os “interesses estrangeiros” levam a culpa para 22% no Centro-Oeste, 25% no Sul e Sudeste, 27% no Nordeste e 30% no Norte. “Populações pobres com falta de opção para produzir” levam a responsabilidade para 6% no Centro-Oeste, 7% no Nordeste, 8% no Sul e Norte, 9% no Sudeste. É curioso notar o tamanho do fantasma do interesse estrangeiro, quando se considera que os grandes grileiros (ladrões de terra pública), traficantes de madeira e especuladores denunciados pelo Ministério Público ou flagrados pela polícia são brasileiros. Em geral, as grandes empresas estrangeiras têm receio de entrar na terra sem lei da Amazônia. Isso reduz oportunidades de investimento para um desenvolvimento sadio na região.

Ao contrário do que muita gente pensa, a maior parte da Amazônia é terra pública. Pesquisadores do Imazon (que coletam dados federais e estaduais) estimam que 18% das terras são privadas, 30% estão indefinidas (podem ou não ter títulos válidos), e os outros 52% definitivamente são patrimônio público. A maioria da população acha que essas áreas públicas devem continuar com florestas. Entre os entrevistados de todas as regiões, de 1% a 2% acham que essas terras devem ser “loteadas e vendidas para produtores rurais”. Cerca de 17% na região Norte e 7% no resto do país acreditam que essas terras devem ser “usadas para geração de renda a partir de produtos da floresta”. O resto dos entrevistados – a maioria em todas as regiões – acha que essas florestas devem ser mantidas intocadas ou apenas para uso turístico.

Sinal para empresários e políticos

O sinal é bem claro para o setor produtivo e para o poder público. As empresas que desejam manter boa reputação diante dos consumidores, fornecedores e investidores devem manter distância de grupos envolvidos em invasões de terras públicas ou de grupos mobilizados para reduzir Unidades de Conservação. Não pega bem. Isso é especialmente crítico para negócios com cadeia de valor na Amazônia – como pecuária, madeira ou soja. Também é mais seguro garantir que não há ilegalidade na cadeia de suprimento. Principalmente uso irregular de recursos em terras públicas de conservação, como madeira roubada de terra indígena ou carne de bois criados ilegalmente em alguma Unidade de Conservação imprópria para esse fim. Para o poder público, o recado é que a população quer ajuda para proteger – e até expandir – as áreas preservadas. Existem várias formas de gerar riqueza e empregos de forma sustentável na Amazônia, inclusive com agricultura e pecuária, de forma regrada e dentro da lei. Os brasileiros apoiam entusiasticamente esse caminho.

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