Como preparar sua cidade para as chuvas de verão

As mudanças climáticas estão trazendo tempestades cada vez mais destrutivas. Oferecer soluções para evitar esses danos é um campo de negócio promissor

O volume de chuvas que atingiu a região Sudeste do país no início de 2020 deixou um saldo de destruição. Casas e ruas alagadas, veículos arrastados pela água e rodovias interditadas ainda são cenas que fazem moradores das áreas de risco perderem o sono sempre que o tempo fecha. Quem vive em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte sofreu na pele os estragos.

As baixadas santista e fluminense também ficaram em estado de alerta, com casos de soterramento e queda de barragens. Em Santos, Guarujá e São Vicente (no litoral paulista) houve deslizamento de encostas. Foram dezenas de mortos e desaparecidos, além de milhares de desabrigados, nos quatro estados da região que, juntos, somam quase 150 mortos, 70% a mais que no mesmo período de 2019.

Essas tragédias não são inesperadas. As chuvas destrutivas de verão são conhecidas. É normal no verão: chove muito e de forma mal distribuída. E também é sabido que essas tempestades tendem a piorar com as mudanças climáticas. José Marengo, climatologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), diz que as chuvas do início do ano não foram surpresa, mas a quantidade foi mesmo maior que a média, ultrapassando os 100 milímetros em alguns eventos. “Estimamos probabilidades de ocorrência, não de volume”.

O especialista acredita que é possível afirmar, baseado nesses acontecimentos, que o volume de chuvas dificilmente vai diminuir nos próximos verões e que podemos ter outros episódios parecidos ainda este ano. “Há uma tendência a longo prazo, por conta do aquecimento global, de que a incidência de eventos climáticos extremos aumente em todo o mundo.” Verões mais quentes, invernos mais frios e chuvas mais intensas.

Para Pedro Roberto Jacobi, que é professor titular sênior do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), podemos dizer que esses eventos são tragédias anunciadas. “Em Santos a média anual de chuvas é 2.900 milímetros e choveu mil só no mês de fevereiro. É um volume de chuva que se torna absolutamente inadministrável quando temos ocupações em áreas de risco, um número enorme de pessoas morando em áreas inadequadas.”

Ele explica que é urgente melhorar a urbanização nessa áreas, mas que o ideal seria que pessoas não morassem nelas.  “Se chove nessa proporção, a terra se fragiliza e, por mais que a Defesa Civil esteja atenta, desastres vão acontecer. Com esse volume de chuvas, a realidade é que o risco de deslizamentos em morros é muito elevada”.

Qual é a saída? Se adaptar a esse novo normal.

As cidades vão precisar modificar completamente o planejamento, especialmente no que diz respeito ao uso do solo. “Temos que reduzir essa impermeabilização, que é uma loucura, porque as águas não conseguem fluir. Fora a questão mais dramática, que é o saneamento”, afirma Pedro Jacobi.

“Basicamente, se você tem elevados volumes de chuva, precisa ter melhores condições de drenagem. Isso significa que precisamos uma mudança radical na forma como isso é tratado nas nossas cidades”, completa. Ele explica que as cidades também precisam encontrar maneiras de aumentar o volume de arborização urbana, que afeta a absorção de CO2 e a evapotranspiração, além de mudar as formas como tratam seus rios, especialmente nas áreas urbanas.

Nossas cidades não estão preparadas nem para o clima do passado, muito menos para o clima modificado. Isso significa que há muito trabalho pela frente. E necessidade de inovações. “Existe todo um campo de novos negócios que estão começando ou podem surgir levando essas mudanças em consideração”, afirma Gustavo Pinheiro, coordenador do portfólio de Economia de Baixo Carbono do Instituto Clima e Sociedade (ICS).

No Brasil, essa ainda é uma discussão nova porque crescemos acreditando que somos um país livre de desastres naturais, o que, segundo ele, nunca foi verdade. “Mesmo antes da mudança do clima, o Brasil já tinha muitos desastres, enchentes, secas, inundações e deslizamentos, problemas de muito tempo”. Ele acredita que essa formação pode ser uma das causas de estarmos atrasados em relação a outros países, onde já existe uma estrutura bem mais desenvolvida, tanto de prevenção, quanto de resposta e recuperação de desastres.

Quem estiver de olho nisso, terá oportunidades diversas. Um exemplo é o monitoramento e a geração de informações confiáveis, que são o ponto de partida para qualquer ação. É o que faz a startup Pluvi.On ao instalar estações conectadas e de baixo custo, que disponibilizam informações precisas para monitorar riscos de desastres.

As estações são personalizadas para as necessidades de cada negócio e contribuem com a tomada de decisões ao gerar alertas de situações de risco. A empresa oferece, inclusive, uma solução para prefeituras reduzirem os riscos de perdas relacionadas a eventos climáticos extremos, sensorizando as cidades e alertando, antecipadamente, as pessoas certas.

Há oportunidades, ainda, no setor energético com a transição para modelos mais seguros, tais como a instalação de sistemas solares eólicos e de estoque de energia. Essas alternativas podem ser mais confiáveis em caso de desastres.

“Todo sistema de energia tem algum tipo de vulnerabilidade, mas, se há um problema no sistema de distribuição de energia elétrica na casa de alguém, por exemplo, que tem instaladas placas solares, é possível garantir seu abastecimento, caso o próximo dia seja de sol. Tudo depende das condições. Se você tem um aerogerador, pode ter uma complementação com a energia do vento. Estas opções já estão disponíveis em grande escala e também para sistemas domésticos”.

Isso sem falar em empresas que oferecem soluções para infraestrutura urbana e os problemas que as cidades já têm por conta do mal planejamento “Os estragos têm menos a ver com a resistência da construção e mais com a melhoria da infraestrutura urbana em si. Mas isso vem com uma dimensão pública porque não são os empreendedores que planejam as cidades”, explica Gustavo Pinheiro.

Há empreendimentos que incluem suas próprias cisternas a fim de evitar falta de água em caso de interrupção do serviço. Além disso, existem sistemas para reter a água da chuva, que pode ser reaproveitada e, ainda, reduzir o volume despejado na rua, o que sobrecarrega o sistema de drenagem urbana.

Pedro Jacobi, que também é  presidente do Conselho da organização Governos Locais pela Sustentabilidade (em inglês: International Council for Local Environmental Initiatives –  ICLEI) na América do Sul, afirma que as novas gerações vão começar a sentir tudo isso cada vez mais e precisarão tomar decisões inovadoras, de olho na sustentabilidade.

O esforço de adaptação das cidades para as novas chuvas de verão tende a gerar um mercado cada vez maior de soluções. A disposição dos gestores públicos e empresas privadas para contratar esses serviços deve crescer ano a ano nas próximas décadas, na medida em que os estragos reais e potenciais dos eventos extremos também aumentam.

COM ANGÉLICA QUEIROZ