A agricultura é aliada, não inimiga do clima

O setor do agronegócio pode não só preservar as florestas como reduzir o excesso de carbono na atmosfera, estocando nos solos cultivados

É completamente falso o pretenso dilema entre desenvolvimento agrícola e preservação ambiental. Ao contrário, a agricultura brasileira pode ajudar a salvar o clima da Terra. E de várias formas – uma delas, que pouca gente conhece, deve começar a conquistar o interesse dos agricultores e empresas do setor pelo potencial de retorno financeiro.

Para começar, é bom lembrar que o principal movimento da agricultura a favor do clima é fazer sua parte para acabar com o desmatamento ilegal. Nos últimos meses, graças a explosão do desmatamento da Amazônia, o agronegócio do país tem sido associado (em parte pelo apoio dado ao governo) a práticas que estimulam a devastação ambiental. Isso preocupa porque o desmatamento da Amazônia é sozinho a terceira maior fonte global de emissão de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento da Terra. O desmatamento é a maior contribuição do país para a mudança do clima. Por causa da derrubada de florestas, que guardam carbono, o Brasil é um dos cinco maiores emissores dos gases de efeito estufa.

Não precisa ser assim. Primeiro, a agricultura brasileira não precisa de mais desmatamento. Existe o equivalente a três vezes o estado de São Paulo já desmatados e mal utilizados. As florestas derrubadas não dão lugar a cultivos relevantes para o país, mas a uma pastagem pobre que sustenta poucos bois por menos de dez anos antes de se esgotar. A área aberta e desperdiçada no Brasil é mais do que suficiente para atender toda a demanda de produtos que o país pode produzir. Ajudar a interromper esse ciclo de destruição inútil seria a maior contribuição do setor agro do Brasil para nossa economia, nossa sociedade, e também para o resto do mundo.

Mas não é só. A segunda oportunidade para o agro brasileiro ajudar a salvar o mundo é menos badalada mas pode ser bem lucrativa. Os agricultores brasileiros podem ajudar a tirar o excesso de concentração de gás carbônico na atmosfera da Terra. Como? Adotando práticas para guardar carbono no solo. Os solos agricultáveis, em todo o mundo, guardam em sua composição 1% de carbono. Esse é o material orgânico de vegetais, bactérias, fungos ou matéria decomposta. Antes da agricultura industrial esse volume chegou a ser de 3%. É perfeitamente possível fazer a concentração de carbono estocada no solo voltar aos níveis ancestrais com um pacote de boas práticas de manejo como plantio direto (que não deixa o solo descoberto), uso racional de defensivos e fertilizantes ou a rotação de culturas.

Uma startup americana, a Indigo AG, tem a ambição de impulsionar em todo o mundo essas práticas para estocar carbono no solo. A principal iniciativa da empresa é a criação do Indigo Carbon, um mercado global onde os produtores rurais podem vender os créditos pelo carbono guardado sob seus cultivos. O valor pago será determinado pelo mercado, mas a estimativa é seja entre 15 e 20 dólares por tonelada de carbono sequestrado. É um valor menor que o atualmente pago em outros projetos de compensação, mas suficiente para atrair os agricultores, que hoje estão fora desse mercado (com exceção de projetos pontuais ligados à área florestal preservada de algumas grandes propriedades).

Outras iniciativas da empresa são o Terraton Experiment, um laboratório colaborativo global, onde os produtores rurais autorizaram a coleta de dados em suas propriedades para avaliar os efeitos das melhores práticas e seus resultados no sequestro de carbono. E duas outras iniciativas do tipo competição, uma para pesquisadores que apresentam evoluções técnicas (Terraton Challenge), outra para agricultores que conseguem os melhores resultados (Terraton Cup). A Indigo está mirando no mercado brasileiro.

Para aumentar o estoque de carbono no solo, o agricultor precisa mudar suas práticas. “Mudanças significativas não acontecem aos poucos, substituindo um tipo de cultivo por outro”, afirma David Perry, CEO da Indigo. “É preciso mudar todo o sistema de plantio.” O que ele chama de “práticas regenerativas” incluem várias medidas simultâneas. “Os agricultores mais bem sucedidos serão aqueles que fizerem a transição para um sistema mais benéfico, que incorporem um pacote de técnicas: cobrir o cultivo (com árvores ou cobertura artificial), fazer rotação de culturas, não revolver o solo e aumentar a diversidade de plantios. Além disso, no caso da pecuária, fazer um manejo integrado do rebanho com a área plantada, usando os animais para enriquecer o solo. Nesta técnica, além de produzir os grãos que costuma plantar, o produtor também planta alguma gramínea para servir de pasto e inclui o gado em sua cesta de produtos.

Cada tipo de cultivo e cada região do Brasil tem uma solução específica de rotação de cultivos para deixar a terra sempre coberta, e uma camada de palha que protege o solo, afirma João Carlos de Moraes Sá, professor do Departamento de Solos e Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Ponta Grossa. No Cerrado, por exemplo, ele recomenda usar a safrinha de milho, após a soja, com a braquiária ou o milheto para manter o solo permanentemente coberto  e proporcionar o maior sequestro.

Desde o lançamento da iniciativa, no ano passado, vários produtores rurais, principalmente nos Estados Unidos, já se inscreveram. Somam cerca de 2 milhões de hectares.

É claro que para conseguir um crédito pelo estoque de carbono no solo o agricultor precisa estar em dia com as regulações ambientais. Ou seja, precisa respeitar a regra do bioma para manter reserva legal, e manter as áreas de preservação permanente (encostas de morros e margens de rios).