Quem quer dinheiro?

Qualquer novo caminho que se proponha a reinventar a forma como uma empresa se organiza tem sempre a ver com dinheiro, sim, dinheiro.

Empresas ágeis, organizações em rede, gestão horizontal, holocracia, economia criativa, economia colaborativa, sistema B, capitalismo consciente. Melhor você ir se acostumando com esse vocabulário, pois, mais do que palavras, ele é uma resposta criativa à crise dos atuais sistemas econômicos e de gestão e já começa a dar frutos tanto para criar novas empresas quanto para evoluir empresas historicamente bem sucedidas e que não têm mais conseguido prosperar a partir de modelos ainda muito apegados ao clássico comando e controle. Só assim para entender por que um dos maiores bancos privados brasileiros estaria adotando mudanças tão profundas em seu sistema de desempenho, que, iniciando pela área de tecnologia, acostumada a se orientar por metas individuais, ampliou para 70% o peso dos indicadores coletivos, em um sinal claro na direção da valorização da colaboração e do aprendizado*.

 

Falem o que for, mas o grande teste para qualquer novo caminho que se proponha a reinventar a forma como uma empresa se organiza tem sempre a ver com dinheiro, sim, dinheiro. O novo modelo permite que a empresa fique de pé, ou seja, consiga obter recursos financeiros para se bancar e prosperar? E, ao fazer isso, promove maior equilíbrio e abundância que os sistemas vigentes quando o assunto é remuneração? Sem, no mínimo, um potencial sim para essas perguntas, sem chances se seguir adiante com a experiência – e é bom mesmo entender a inovação como uma experiência, o que facilita aprender e evoluir ao longo do caminho e até, se necessário, partir sem dó para o desapego, caso ela simplesmente não funcione, uma vez que cada empresa é um organismo altamente complexo e que, portanto, responde a novos estímulos de maneira não previsível. Ou seja, não é por que deu certo na empresa x, que vai dar certo em qualquer empresa, né?

 

E é uma dessas experiências fora da caixa que resolvi trazer para esse espaço, honrando o título de nosso blog, que em breve estará fazendo quatro anos no ar.

A experiência é chamada de “Money Pile” (Pilha de Dinheiro) e o Google é farto em referências sobre o tema, algumas, inclusive, em português. Mas não espere encontrar nada muito parecido ao relato abaixo, porque, quando resolvemos colocar o “Money Pile” em prática, queríamos criar algo que se encaixasse como uma luva às nossas necessidade e não nos preocupamos muito com bibliografias e benchmarking. Tanto é que até a apelidamos com outro nome: “Dinâmica de Partilha”.

 

O biólogo Humberto Maturana, com quem aprendi quase tudo o que sei sobre pensamento sistêmico e complexo, costumava repetir em suas aulas que a descrição da experiência não é a mesma coisa que a experiência –  o que equivale a dizer que o que você viveu e a história que você conta sobre o que viveu são situações distintas, na medida em que nosso cérebro mistura ficção e realidade de uma maneira tão natural que nós mesmos acabamos nos enganando, o que só reforça meu descompromisso com qualquer tentativa de produzir algo que pareça “científico”.

 

Não tenho, igualmente, a menor pretensão de fazer deste relato um guia de aplicação prática ou sequer um material de referência sobre o tema. Minha intenção é meramente compartilhar – e na primeira pessoa – uma experiência que vivi e que pode muito bem evoluir para novos modelos de remuneração mais aderentes à nova economia, mas que por enquanto não passa mesmo de uma mera experiência.

 

A experiência de compartilhar dinheiro em uma organização de gestão horizontal

A Corall Comm* é uma organização em rede aberta que nasceu como uma start-up da Corall, consultoria que vem atuando há pouco mais de 5 anos no segmento de transformação organizacional. Sou um dos 12 sócios da Corall Consultoria e o primeiro iniciador – aquele sujeito que fica dançando sozinho na rave até que aparece o primeiro seguidor* – da Corall Comm. Somos basicamente uma rede de empreendedores das áreas de consultoria e agência que vêm se juntando desde o início de 2017 com o objetivo de combinar forças e talentos para transformar a comunicação organizacional e, por meio dela, acelerar a transformação das organizações.

 

Como uma organização em rede adepta de um modelo de gestão horizontal, qualquer um pode liderar projetos e convidar outros para atuar como seus sócios. Todos são convidados a participar da gestão da empresa, colocando suas competências a serviço de tudo o que for necessário para “tocar a firma” – do marketing e da metodologia ao financeiro, entre outras atividades que toda empresa deve cuidar para poder existir. Todos que participam dos projetos são remunerados pelos próprios projetos a partir do princípio da transparência radical – todos sabem quanto cada um ganha e têm liberdade para negociar sua remuneração com os demais. Já as atividades que ajudam a empresa a existir são voluntárias, o que significa que, se você não estiver participando de nenhum projeto para um cliente, pode estar em desequilíbrio entre o dar e o receber. Foi então para equilibrar esse princípio que, em nossa opinião, é crucial para manter a organização saudável, é que criamos a “Dinâmica da Partilha”.

 

Funciona basicamente assim: Todos os sócios são convidados a participar das reuniões quinzenais de governança. Cada um escolhe se quer participar presencialmente ou à distância (sempre transmitimos todas as nossas reuniões por meio de uma plataforma de comunicação em rede). Uma vez por mês, reservamos parte dessa reunião para uma atividade de distribuição de 5% do faturamento bruto, para ajustar o equilíbrio entre o que cada um está dando e recebendo da organização. Como acreditamos que as emoções contribuem para – ou, mais comumente, atrapalham – boas conversas, fazemos toda uma preparação e sustentação do campo emocional.

 

1. Preparo do ambiente

“Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?” Esta frase de Clarice Lispector não poderia ser melhor para descrever que a “Dinâmica da Partilha”  começa com a pessoa que ira fazer a facilitação chegando na sala uns 30 minutos antes do início da dinâmica. E isso é algo tão importante que mereceu uma descrição bem maior do que as demais etapas. Um incenso ajuda a limpar o ambiente, a disposição das cadeiras em círculo favorece o diálogo, uma meditação de 10 a 15 minutos permite que o facilitador se conecte com a intenção mais profunda da dinâmica – a restauração do equilíbrio do sistema -, um vaso de flor colocado no centro do círculo lembra que o que será realizado naquela sala é algo mais natural do que se imagina, e papéis fazendo as vezes de notas de 100 reais são espalhados ao redor do vaso,  para explicitar a materialidade da experiência – ok, amamos abraçar árvores, mas, para que não reste dúvidas sobre isso, a “Dinâmica da Partilha” é para distribuir dinheiro de verdade!

 

2. Centramento

As pessoas vão chegando e, logo de cara, percebem o cuidado com o qual a sala foi preparada. O facilitador convida a todos para fecharem os olhos e conduz um exercício de mindfulness ou centramento de não mais do que 10 minutos, para que todos possam estar 100% presentes e conectados com o propósito que os trouxe até ali, para aquela organização e para a experiência que estão prestes a  construir e irão praticar em conjunto.

 

3. Storytelling

O facilitador então usa da magia do stortytelling para elevar a dimensão da experiência a algo realmente memorável. No caso, como facilitador contei que meu objetivo ao iniciar a Corall Comm tinha a ver com colocar anos de estudos em prática, acreditando no poder da abundância como um novo caminho para as organizações do futuro – história que se tornou mais potente quando  me coloquei vulnerável ao contar as maiores dificuldades que enfrentei para iniciar esse movimento.

 

4. Princípios norteadores

Em seguida, são apresentados os princípios que permitem a organização ser o que é e, ao materializar o seu propósito, devem ser considerados como norteadores para a tomada de decisão: os princípios sistêmicos, com o destaque para o equilíbrio entre dar e receber; os princípios metodológicos, onde o diálogo tem um papel central; e os princípios de gestão, os quais, tratando-se de uma organização em rede adepta de gestão horizontal, implicam em que cada um cultive sua alma empreendedora e se responsabilize por suas próprias escolhas.

 

5. Renúncia

A dinâmica começa com um convite para quem se sentir equilibrado entre dar e receber renunciar à partilha de dinheiro e se juntar ao facilitador no apoio ao diálogo.

 

6. Afirmação

Uma pessoa do círculo dá início, então, ao processo de partilha, manifestando a razão pela qual se sente em desequilíbrio e retirando a quantidade de notas que acredita ser adequada para restaurar novamente o equilíbrio.

 

7. Negociação

Depois de uma ou duas rodadas, pode ocorrer que o dinheiro disponível seja insuficiente para atender às expectativas de todos. Nesse momento, tem início uma espécie de negociação, onde alguns devolvem dinheiro para o centro, enquanto outros retiram.

 

8. Avaliação

A dinâmica termina em cerca de uma hora, quando todos são convidados a avaliar o processo e o resultado. Na primeira vez que a realizamos, contamos com a presença de um designer digital que estava fazendo sua estreia no grupo, tanto é que ele era conhecido apenas pelo sócio que o convidou. Depois da dinâmica, resolvemos abrir para quem quisesse enviar feedbacks e ele escreveu o seguinte: “Nunca havia presenciado um processo destes, com soluções sendo criadas em tempo real e com essa autenticidade, em especial quando se trata de dinheiro.” Concluindo sua avaliação sobre a “Dinâmica da Partlhaä , nosso novo sócio fez uma pergunta que nenhum de nós tem resposta, mas que a gente espera descobrir em algum momento dessa jornada: “A dinâmica fluiu muito bem entre as 15 pessoas envolvidas na Corall Comm, mas me pergunto: como seria se tivéssemos 200 pessoas?”

 

 

*Notas de rodapé:

 

 

 

 

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