Como, afinal, a vulnerabilidade pode fortalecer você?

Se acredito na minha força, não preciso ter medo de mostrar fragilidades.

Minha filha tem um ano, e em meio à sua fofura tenho me deliciado com suas aventuras no mundo da expressão. Outro dia ela me apontava um cãozinho, e cheia de alegria por sua possibilidade de se comunicar disse: au-au. Logo ela mais uma vez apontou algo e disse: “au-au”. Mas quando olhei, vi um gato. A rotina seguiu por algum tempo e a expressão au-au seguiu sendo utilizada para designar porcos, cavalos ou zebras. Tudo aquilo que tinha quatro patas e pelos foi durante algum tempo referido como au-au. Sim, isso incluía elefantes e ratos. O que isto tem a ver com a vulnerabilidade? Chegaremos lá.

 

A medida que minha filha foi percebendo diferenças entre aquelas figuras, foi percebendo que seu vocabulário era restrito demais para lidar com este mundo. As maiores diferenças ganharam nomes antes. O cavalo virou pocotó, enquanto a pobre zebra virou pocotó junto com o cavalo, e o rato seguiu como au-au. Conforme sua observação se refinou e sua necessidade de lidar com o mundo e com os outros foi se intensificando, ela foi buscando mais vocabulário para lidar com as diferenças que identificava. Em breve surgiu o gatinho, a zeba, o fante, tubaão, tigui e, enfim, o au-au virou cachoinho e o gato, gatinho.

 

Ter um vocabulário mais amplo é consequência de perceber diferenças e ter necessidade de expressá-las, e percebendo e manifestando estas distinções podemos lidar de forma distinta com cada coisa. Podemos alimentar cada animal da maneira correta, aprender sobre eles e ensinar sobre o que aprendemos. Nos permite refletir sobre o que estamos vendo e até expressar quando algo novo que não se enquadra no que conhecemos aparece. Por fim, amplia a nossa capacidade de lidar com o mundo.

 

Quando elementos parecidos são sutis em suas diferenças podemos achar que são a mesma coisa, e aí nossa capacidade de lidar com o mundo se enfraquece. Levar um lobo pra casa e tentar tratá-lo como um cão trará consequências complicas ou mesmo perigosas.

 

Tive uma conversa ótima hoje com um executivo de quem gosto bastante. Líder de uma importante operação da América Latina, tem uma equipe que hoje está a frente de belos desafios. A pergunta que permeou nosso papo tinha a ver com potencializar seu papel como líder, e percebi que algo que ainda diminui a potencia de muitos profissionais tem a ver com uma dessas dificuldades em diferenciar coisas parecidas, mas que ainda assim, são radicalmente diferentes.

 

É preciso entender a gigantesca diferença entre fragilidade a fraqueza. É fundamental perceber que cada termo significa algo distinto, e assim ampliar nosso repertório e nossa capacidade em lidar com o mundo de forma potente.

 

Nos últimos anos o termo vulnerabilidade ganhou o mundo entre as novas frentes de evolução dos profissionais. Brene Brown expressou isto em suas falas no Ted e ganhou o mundo com imenso eco. Ainda assim, tenho visto que muitos tem dificuldade em entender como ser vulnerável e como isto leva alguém a ser mais potente. A distinção entre fragilidade e fraqueza pode ajudar.

 

Somos seres mentais, mas também emocionais, espirituais, biológicos… Como tal, temos medo de morrer. Sim, temos medo de morrer e, portanto, de nos faltar comida, de nos faltar calor, de nos faltar um grupo de pertença ou alguém que nos cuide e ame. Temos medo de perder nosso trabalho ou nossa posição. Desse medo nasce nossa necessidade de nos defender, de sermos fortes para buscar o que necessitamos e para sermos valorizados e aceitos em nossos grupos. Aprendemos que ser forte é bom. E é mesmo, mas aí nasce a confusão.

 

Na ânsia de parecermos forte, temos medo de parecermos fracos, e com medo de parecermos fracos, escondemos e tememos as nossas fragilidades. Mas a força e a fraqueza são estados do ser, enquanto a fragilidade é situacional. Somos frágeis em uma determinada situação, num momento específico ou perante alguém especificamente. Quando vejo alguém que sempre esconde suas fragilidades, não vejo alguém forte, mas alguém amedrontado, que teme não dar conta das dificuldades. Se acredito na minha força, não preciso ter medo de mostrar fragilidades. Saber expressar aquilo em que estou frágil permite que as pessoas se conectem comigo, me ajudem, e, assim, uso minha força e a força da minha rede para superar as dificuldades e ameaças trazidas pela minha fragilidade. Não permito que a fragilidade se torne uma fraqueza justamente quando ao invés de escondê-la, a expresso claramente, sem ir necessariamente para um lugar de fraqueza. Com isto vou me fortalecendo, pois ao mesmo tempo em que percebo que consigo superar o que me ameaça, percebo também que aceitar a fragilidade não me destruiu, e vou perdendo o medo de fazê-lo. Este ciclo de fortalecimento só pode acontecer quando eu perceber a diferença entre a fraqueza e a fragilidade.

 

Se posso reconhecer esta diferença, posso também oferecê-la. Posso ver minha equipe frágil, sem achar que ela ficou fraca. Posso acolher a fraqueza lembrando-os de que são fortes mesmo enquanto estão frágeis.  Sem medo de estar frágil, sentimos menos medo, e com menos medo somos menos violentos em nossas reações. Sem reações violentas conseguimos a escutar sugestões e reflexões e permitimos que os outros sigam próximos de nós, sugerindo e ajudando. Com este ciclo, logo terei superado a fragilidade, sem que nada disso tenha em momento algum me feito mais fraco.

 

Além de tudo isso, uma pessoa que aparentemente nunca tem fragilidades é irreal, torna-se inverossímil e assim, desinteressante, com menos credibilidade e menos confiável para os outros.

 

Por fim, para perceber que um gato não é um cachorro precisamos tomar contato com eles e observar com curiosidade. Se a fragilidade e a fraqueza te parecem a mesma coisa, expresse suas fragilidades, fale delas e deixe que elas apareçam claramente pra você e para os outros. Quando puder olhá-la de frente e com clareza começará a perceber o quão diferente ela é da fraqueza, e sua força seguirá cada vez mais à tua disposição.

 

Aceite ser frágil para seguir forte.

Boa jornada!