Uma ambição inteligente para o Brasil

Ideias importadas para “fazer o Brasil grande” contrariam os pilares republicanos da nossa política externa

A carta no lugar da mensagem instantânea, o navio transatlântico no lugar do bilhete aéreo low-cost e uma confortável percepção de viver protegido das turbulências que vinham de fora. Quando o tempo era outro, as distâncias maiores e o mundo menos integrado, os assuntos internacionais eram restritos aos círculos diplomáticos e pouco afetavam o dia a dia dos cidadãos.

Em 1950, o tempo que passava mais devagar permitiu ao diplomata e poeta brasileiro Vinícius de Moraes nascer amanhã e andar onde havia espaço. Os versos de Poética – “Meu tempo é quando”, hoje inscritos numa placa em sua homenagem no Palácio Itamaraty, no Rio de Janeiro, é a lembrança de um mundo que já não existe mais.

Mais de meio século depois, o mundo gira mais rápido. Submetidas à centrífuga das novas tecnologias, as fronteiras geopolíticas e econômicas se tornaram mais líquidas – entre os países, entre as pessoas e entre as empresas.

A política internacional – das negociações de comércio aos temas de segurança – tem hoje um impacto muito maior sobre como (e se) vivemos, produzimos e consumimos.

A decisão de um país de fechar ou não suas fronteiras pode selar a vida ou a morte de uma família de refugiados. Elevar determinada tarifa de importação influenciará na definição do local de investimento de uma nova fábrica, afetando o futuro de milhares de trabalhadores. Um acordo de paz no Oriente Médio pode levar indústrias armamentistas a fecharem suas portas.

Basta abrirmos os jornais e lermos as principais manchetes para entendermos que a política internacional é cada vez mais senhora dos nossos destinos. Neste mundo em que as cadeias de causalidade são cada vez mais interligadas, ganha relevância a política externa. E para o Brasil não é diferente.

A política externa brasileira é política de Estado cujos princípios estão inscritos na própria Constituição da República. Seja quem for eleito, a chancelaria do próximo governo deverá trabalhar em prol dos direitos humanos, garantir a soberania nacional e promover a cooperação e autodeterminação dos povos.

Junto ao sólido bloco republicano que permeia a diplomacia brasileira, é possível (e preciso) acoplar um novo bloco de ambição para reposicionar o Brasil no mundo que vem aí. Essa ambição deve ser inteligente e inserida no quadro dos valores democráticos.

As mudanças geopolíticas em curso – inclusive por conta da perspectiva de guerras comerciais – abrem uma série de oportunidades para o país se reposicionar e inserir de forma mais vigorosa nas cadeias globais de valor. Há uma janela de oportunidade única para transformarmos o comércio internacional na nova plataforma para geração de crescimento e desenvolvimento econômico.

Maior abertura e integração com o mundo devem estar no centro da agenda econômica internacional, mas também no campo dos valores sociais. Estudo recente publicado pelo Fórum Econômico Mundial aponta que países democráticos e mais abertos no campo dos valores sociais são os que mais tem potencial de crescer economicamente. Ou seja, há relação clara entre liberdades civis, diversidade e crescimento econômico, o que precisa ser reconhecido por empresários e governos. Apenas uma sociedade aberta é capaz de ser criativa e, por consequência, empreendedora, produzindo ideias e produtos que sejam atraentes para o resto do mundo.

É preciso, portanto, que nosso novo reposicionamento internacional afaste ideias importadas como a de “fazer o Brasil grande” – embebidas numa falsa noção de autossuficiência. O neopopulismo no campo internacional levaria o Brasil ao isolamento e não à integração com o mundo, que é o caminho necessário para voltarmos a crescer.

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