Cortes na educação afastam investidores estrangeiros do Brasil

Disponibilidade de mão de obra qualificada é um requisito fundamental para a atração de capital de longo prazo

Para a analistas de mercado, a reforma da Previdência é fundamental para reconstruir a confiança do investidor estrangeiro no Brasil. A premissa é correta, mas em se tratando de investimentos produtivos – capazes de gerar empregos no médio prazo –, outros indicadores são tão importantes quanto as condições macroeconômicas e a estabilidade das contas públicas.

Quando uma empresa estrangeira está prestes a escolher em qual país instalar ou ampliar uma planta industrial, variáveis como ambiente de negócios, demanda potencial, sistema tributário, infraestrutura e disponibilidade de matéria-prima são levadas em conta. Outro indicador não menos importante para a tomada de decisão é o capital humano.

A disponibilidade de mão de obra qualificada é um requisito fundamental para o país receber investimentos, sobretudo para atividades de alta concentração tecnológica – justamente aquelas que mais geram valor agregado para o Produto Interno Bruto (PIB). Empresas buscam capital humano elevado para construir bases que possam se integrar às cadeias globais de valor.

Na América Latina, o Brasil tem disputado investimentos estrangeiros principalmente com Chile, México e Colômbia. São economias que já mais competitivas e produtivas que o Brasil, segundo os dados mais recentes do Índice Global de Competitividade, do Fórum Econômico Mundial (WEF, Tabela 1).

Não por coincidência, o país latino-americano mais produtivo é o Chile (33º posição no ranking global do WEF), que também se destaca por direcionar a maior proporção de gasto público para o ensino superior (5,4%), segundo os dados mais recentes do relatório Education at Glance, da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE, Tabela 2). Segundo a OCDE, entre 2014 e 2016, o Brasil investiu 4,2% do orçamento público no ensino superior e ocupa apenas a 72º posição no ranking de competitividade do WEF.

Sem um sistema de educação de qualidade, não há trabalho qualificado e, como consequência, se espera baixa produtividade e baixo crescimento econômico.

Há outros indicadores que apontam nesta mesma direção. O Índice de Capital Humano do WEF – que mede a qualificação da mão de obra e o nível de qualidade e investimento em educação – aponta que o Brasil está mais que o dobro de posições atrás do Chile, figurando apenas na 94º posição (Tabela 3), atrás também de Colômbia (80º) e México (86º).

Coincidentemente, as posições do Índice do Capital Humano são muito próximas das ocupadas por esses mesmos países no ranking Doing Business, do Banco Mundial, que captura a qualidade do ambiente de negócios das economias (Tabela 4). Novamente, o Brasil figura apenas na 109º posição, enquanto México e Chile se destacam nas posições 54ª e 56ª, respectivamente. Países que menos investem em educação são também aqueles com pior ambiente de negócios para se investir.

Para além das dificuldades estruturais da nossa economia, a falta de investimento em educação arrisca se tornar mais uma desvantagem competitiva a afastar investidores estrangeiros do Brasil.

Neste sentido, o recente anúncio do Ministério da Educação de corte de 30% do orçamento das Universidades Federais – feito de forma discricionária, sem critérios objetivos que poderiam tratar alternativamente a qualidade do gasto público – vai contra os esforços do próprio governo em melhorar o ambiente de negócios para atrair novos investimentos para o Brasil.

Em tempos de crise, deve-se aumentar o investimento em educação, e não o contrário, criando condições materiais para que o país volte a crescer. Investir em educação é nossa única certeza de futuro em meio a tanta incerteza.