Em 2020, eleições de novo!

Nosso mercado deve colher, basicamente, a volatilidade e a incerteza causadas num ano de eleições

Não se espantem com o título. Não estou chamando a atenção para eleições municipais e tampouco me confundi ou antecipo a temática foco para 2022. Mas nesta primeira coluna no ano, acho que vale darmos atenção à eleição mais importante do planeta Terra: a eleição presidencial nos EUA, que acontece no segundo semestre de 2020 – vejam, sempre digo que temos que aceitar nosso papel de país emergente e reconhecer que o que ocorre lá na América ecoa de forma importante por aqui.

Começando pelo final, de acordo com os especialistas em EUA, historicamente, os presidentes são reeleitos na América e, portanto, parece pouco provável um cenário de não reeleição de Donald Trump. Mesmo porque a economia por lá está em pleno emprego e esse deverá ser o principal mote da propaganda eleitoral do republicano, enquanto os democratas ainda definem se adotarão um candidato simplesmente anti Trump ou um jogo mais “centrista”.

Porém temos que lembrar que há um processo de impeachment “rolando” por lá. Uma breve explicação do tema é que segundo a Constituição norte-americana, “o presidente pode ser destituído do cargo por traição, suborno ou outros crimes e contravenções graves”. Em dezembro, a Câmara dos Deputados decidiu pelo impeachment do presidente por pressionar a Ucrânia a investigar o ex-vice-presidente Joe Biden, um potencial rival nas eleições presidenciais deste ano.

Mas vale destacar que, desde 2018, a Câmara dos Deputados é de maioria democrata e, portanto, extremante contra a política do atual presidente republicano. Assim, esse cenário já era esperado pelos mercados e pela população, afetando pouco a dinâmica mundial. Acontece que o processo precisa também passar pelo Senado – daí o pulo do gato. O Senado é de maioria republicana, o que deve barrar o pedido.

Dessa forma, o que o processo de impeachment deve trazer para as eleições é uma condição maior de análise. Se o Senado é republicano, é importante notar o quão republicano é; assim a medição do “não” na votação do Senado pode sugerir quais estados que estão a favor ou contra uma reeleição do Trump. Sacaram? E isso sim, pode mexer em preços e dinâmicas internacionais dos mercados no mundo, inclusive, no nosso.

Por falar nisso, em seu primeiro ano de mandato, Jair Bolsonaro se declarou um admirador de Donald Trump, falando, explicitamente, em apoio para sua reeleição – situação pouquíssima usual entre presidentes, e ignorando que nosso apoio também tem pouca serventia ao gigante norte-americano, mas enfim…

De fato essa simpatia tem se mostrado, inclusive, não-recíproca. Lembrem-se de que a promessa de apoio dos EUA para o Brasil entrar na OCDE não se concretizou e a abertura comercial para consumo de carnes brasileiras pelos EUA também não aconteceu. Isso sem falar do latente risco de os EUA “passarem a mão” na demanda chinesa por soja, conforme o acordo entre EUA e China evolua. Mas a paixão é cega e segundo o Itamaraty, essa ponte Brasil-EUA está sendo gradualmente construída e já houve estreitamento na relação.

Diante das poucas conquistas a partir desse relacionamento, me pergunto: num ano de eleição de um candidato que diz, claramente, que sua política é voltada para o mercado interno (American First), como ficarão suas relações internacionais? Não vejo muitos frutos para o Brasil, e na verdade, o que acredito é que nosso mercado deve colher, basicamente, a volatilidade e a incerteza causadas num ano de eleições.

Adicionalmente, se os especialistas em EUA estiverem corretos, teremos uma reeleição do Sr Trump. Por isso, não é de se estranhar um cenário de recuo de cooperação internacional por parte dos EUA, que está inflamado por sua política interna e que até momento, mesmo que efêmera, está vitoriosa.

*Economista-chefe e estrategista de câmbio do banco Ourinvest