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Ronaldinho, Bolsonaro, o acerto do Barcelona e a política no Esporte

O apoio de Ronaldinho Gaúcho ao candidato à presidência do Brasil Jair Bolsonaro continua causando controversa mundo afora. Ronaldinho declarou seu voto no candidato do PSL duas semanas atrás, ainda antes do primeiro turno das eleições brasileiras. R10 fez um post no Twitter vestindo a camisa 17 (número do candidato do PSL) e elogiando Bolsonaro.

O jornal esportivo Sport, um dos veículos esportivos mais lidos e respeitados na Europa, noticiou que “altas esferas” do Barcelona acreditam que o apoio dado por Ronaldinho Gaúcho à Bolsonaro é incompatível com os valores do clube espanhol. Por isso, cogitam diminuir a presença de Ronaldinho em eventos do Barcelona, já que o brasileiro tem um acordo comercial vigente com o time de Lionel Messi e é um dos embaixadores do clube pelo mundo.

Agora, após o incômodo no clube catalão ter sido exposto pela imprensa, veio a confirmação. O Barcelona se posicionou oficialmente e seu porta-voz, Josep Vives, deu uma declaração assertiva: “Nossos valores não coincidem com as palavras que temos escutado desse candidato. De todas as formas, respeitamos a liberdade de expressão, inclusive as palavras de Ronaldinho”. O clube quis deixar claro que não compactua com o que diz Bolsonaro, mas deixou igualmente claro o respeito à manifestação de Ronaldinho.

O Sport, no entanto, garante que a repercussão interna no clube é mais profunda. “A questão é que o clube viu com preocupação não o fato de Ronaldinho se posicionar, mas sim as posições totalitárias de Bolsonaro”, acrescentou o diário, que relatou ainda que Rivaldo, outro ídolo brasileiro do Barça a apoiar o candidato do PSL, também deve perder espaço em eventos do clube.

A publicação espanhola chegou a afirmar que Ronaldinho poderia ser punido pelo clube por conta de seu posicionamento político. Sobre essa hipótese, o porta-voz do clube afirmou que o assunto ainda não tinha sido discutido. “Não tomamos uma decisão a respeito. Veremos mais adiante. Vamos observar cuidadosamente a evolução do caso porque nos preocupamos sobre como isso pode afetar a imagem do clube”, finalizou. Ou seja, o assunto não foi encerrado pelo clube, ainda em alerta.

Vale lembrar que no último mês o atleta Lucas Moura, do Tottenham da Inglaterra, também apoiou Bolsonaro e viu o clube, conhecido por seu trabalho de inclusão social diante de sua comunidade composta por minorias no norte de Londres, correr para abafar a crise com seus torcedores. Também porque (lamentavelmente) ao contrário do que acontece no Brasil, a homossexualidade não é tabu na Inglaterra e alguns clubes, como o Tottenham, apoiam a causa abertamente.

(Reprodução/Reprodução)

O ponto é: deve um atleta se envolver com questões políticas? Primeiramente é necessário se diferenciar política de política partidária. Sobre questões políticas, mesmo as mais complexas, o envolvimento é bem-vindo. Fácil lembrar que recentemente os jogadores de futebol americano se ajoelharam em protesto contra violência policial nos EUA durante a execução do hino nacional – e causaram a fúria de Trump-, ou ainda a campanha das ‘Diretas Já’ que teve jogadores do Corinthians como líderes populares. Temos ainda os 50 anos completos nesta semana da cerimônia de premiação dos 200 metros nos Jogos Olímpicos do México, quando os norte-americanos Tommie Smith e John Carlos, vencedores do ouro e do bronze, respectivamente, se impuseram de punhos cerrados e com luvas pretas, ema saudação ligada ao movimento Black Power. Estavam ainda descalços, com roupas símbolos em prol dos direitos humanos. O esporte tem sua função social e seus protagonistas não podem estar alienados da própria sociedade.

Já sobre as questões partidárias, o envolvimento é muito mais delicado. Claro que, no limite da civilidade, todos são completamente livres para expor suas preferências. No entanto, é preciso conhecer a história da marca que se representa. O ponto é que um atleta, ou mesmo ex-atleta contratado por um clube para iniciativas não oficiais, como Ronaldinho, não pode navegar em mares diversos daqueles honrados por suas marcas.

Defender uma ideia que é contrária à história do clube que representa é demonstrar não entender a própria marca que carrega no peito. Reitera-se aqui que tanto faz o atleta, o clube ou o candidato. O ponto é a incompatibilidade de identidade. Aos jogadores, desde que não o façam em ambiente de trabalho (estádios ou centros de treinamento) – como fez recentemente Felipe Mello – ou com os uniformes dos clubes que representam, a liberdade para exercer sua cidadania.

É necessário, contudo, cuidado. O jogador não é apenas sua própria marca. Ele defende – e é remunerado para isso – marcas que, não raramente, são maiores que as deles. E se os atletas ou ex-atletas não cuidam rigorosamente de sua identidade e marca, os clubes com história o fazem. Ronaldinho não cuidou da história que representa. O Barcelona está, conforme suas convicções, cuidando da sua.