Organizações estrangeiras investem no esporte eletrônico brasileiro

Alta oferta de talentos individuais e torneios estruturados atraem as atenções de grandes marcas dos esports para o Brasil

Algumas das maiores organizações de esports do mundo passaram a olhar para o cenário brasileiro nos últimos anos com o intuito de investirem em equipes compostas por atletas do país. Além das habilidades individuais de alguns jogadores daqui, outros fatores – como calendário de competições estruturado, ampla base de fãs e audiências expressivas, fizeram com que o Brasil se tornasse atrativo para investimentos estrangeiros no setor de esportes eletrônicos.

É um fato que o Brasil possui nomes de destaque mundial em diversas modalidades competitivas do universo dos games, mas o interesse de times do exterior em adquirirem o direito de participarem de campeonatos locais é um fenômeno curioso. Se faz possível um comparativo com futebol: quando os atletas se destacam em torneios brasileiros, são contratados por grandes equipes de outros países para atuarem nas respectivas competições nacionais. Já nos esports, a lógica vem se invertendo em alguns casos. É como se o Barcelona, por exemplo, resolvesse adquirir um time de futebol em terras tupiniquins para disputar o Brasileirão e a Copa do Brasil.

No cenário competitivo brasileiro do game Rainbow Six Siege, as organizações estrangeiras já contam com os elencos mais fortes e de destaque do país na atualidade, e são maioria também nas duas competições que preenchem a maior parte da temporada desses times: Brasileirão e Pro League. Team Liquid, FaZe Clan, Ninjas in Pyjamas, Elevate e MiBR são alguns exemplos de clubes de fora do país que participam dos torneios locais da modalidade.

Para Marcio Canosa, Diretor de Esports da Ubisoft para América Latina, empresa que criou o jogo, a entrada dessas marcas é boa para o cenário: “A presença de grandes organizações aumenta a visibilidade dos nossos torneios para o mundo. Quando um fã estrangeiro de Rainbow Six Siege olha a tabela do Brasileirão, por exemplo, e vê nomes como Team Liquid, FaZe Clan e Ninjas in Pyjamas, percebe que aquele campeonato tem marcas famosas, sente-se atraído a assistir as partidas, e assim percebe que as organizações brasileiras também são fortes. O mesmo acontece com possíveis parceiros e investidores, ao perceberem a credibilidade e a estrutura da competição. É como se Juventus, Real Madrid e Liverpool viessem jogar o Brasileirão de futebol e, com isso, os fãs conhecessem outras grandes equipes locais, como Flamengo, Corinthians e São Paulo”.

Uma das preocupações era exatamente a disparidade que poderia acontecer entre equipes internacionais e brasileiras. Sobre isso, o diretor comenta: “No competitivo de Rainbow Six Siege, a entrada dessas organizações também mexeu com os times nacionais. Por conta das estrangeiras oferecerem uma estrutura de alto nível aos atletas, com Gaming Houses, equipamentos de ponta e todo o auxílio possível, as brasileiras precisaram também aprimorar ainda mais suas estruturas para competirem de igual para igual com elas. De um modo geral, essa movimentação é benéfica para todos os envolvidos, já que aumenta os investimentos no setor, agrega valor ao cenário e eleva o padrão dos clubes”.

O MiBR, que chegou ao Brasil recentemente ao adquirir uma line-up de Rainbow Six Siege, teve algumas das conquistas mais importantes de sua história no game CS:GO quando contava com uma line-up totalmente brasileira. O atleta Gabriel “FalleN” Toledo é um dos mais famosos do mundo na modalidade. Este exemplo, no entanto, é um caso de interesse apenas no talento nato dos brasileiros, já que a MiBR joga os campeonatos de Counter Strike dos Estados Unidos e os players foram levados para disputarem os torneios de CS:GO de lá, um fenômeno diferente do que este que vem acontecendo no Rainbow Six Siege. Alguns brasileiros profissionais de FIFA também foram contratados por clubes de fora do país.

Marcio opina sobre os motivos que fizeram essas organizações desejarem participar das competições nacionais e latino-americanas de Rainbow Six: “Acredito que tenha sido principalmente por identificarem que o Brasil conta com um calendário estruturado, que mantém as equipes em atividade durante quase todo o ano. Além disso, a região latino-americana conta com vagas para os principais torneios mundiais da modalidade, então faz sentido investir em line-ups qualificadas, como temos em nosso país, para chegar nesses campeonatos internacionais como fortes candidatas ao título”.

Esportes eletrônicos como negócio

“O Brasil definitivamente está entrando na rota do capital estrangeiro no tocante a aquisição de participações societárias em equipes de esports. É um movimento que ainda está em seus primeiros estágios, mas, pelo potencial do mercado nacional, tem grande capacidade de evolução”, afirma Eduardo Carlezzo, advogado especializado em direito desportivo e sócio do escritório Carlezzo Advogados. Bruno Maia, CEO da Agência de Conteúdo 14, no Rio de Janeiro, e especialista em negócios e novas tecnologias no esporte, destaca os benefícios de apostar no setor: “O investimento em esports é de extrema importância para organizações tradicionais criarem um canal com novos consumidores, pensando em fidelizá-los e transformá-los em torcedores. Isso vale para clubes de futebol como para entidades de outras áreas e até empresas. Em breve, acredito que as receitas provenientes de esportes eletrônicos vão interferir bastante na capacidade financeira até mesmo de organizações que tradicionalmente não são deste universo”.

A Newzoo, consultoria especializada no setor de games e de mobile, divulgou, em fevereiro, um estudo que mostra que o mercado de esports global deve gerar quase US$ 1 bilhão em receitas ao longo de 2019. Segundo a empresa, os brasileiros representam o terceiro maior público de esportes eletrônicos do mundo, atrás apenas de EUA e China. O país é também o terceiro em número de entusiastas de esports, que são aqueles que assistem torneios profissionais mais de uma vez por mês. No geral, o Brasil tem uma audiência de esports de 21,1 milhões de pessoas, o equivalente a cerca de 10% de sua população. Além dos 9,2 milhões de entusiastas, existem cerca de 12 milhões de “espectadores ocasionais” (pessoas que assistem a esports uma vez por mês). É o líder absoluto em público na América Latina, seguido por México e Argentina.

Ainda com base no estudo realizado pela Newzoo, o público global do segmento deve alcançar mais de 450 milhões de pessoas neste ano, acima dos 395 milhões de 2018. O número expressivo de fãs faz com que grandes marcas queiram marcar presença no setor, como destaca Carlezzo: “Existem atualmente, no cenário internacional, fundos e empresas especializadas na aquisição de equipes de esports mundo afora. Se os clubes de futebol no Brasil, por exemplo, ainda estão por dar seus primeiros passos nestas transações, os de esportes eletrônicos têm potencial para tomarem a dianteira e criarem um ambiente de investimentos extremamente amigável”.