Botafogo-SP x Figueirense: o abismo na gestão de clube-empresa

Adversários na disputa desta terça-feira mostram que simplesmente ser clube-empresa nõ resolve. É questão de gestão qualificada.

Botafogo-SP e Figueirense se enfrentam nesta terça-feira (8), em Ribeirão Preto, pela 27ª rodada do Campeonato Brasileiro da Série B, e algo em comum marca a gestão dos dois clubes: o fato de terem sido constituídos em clube-empresa. Essa semelhança, no entanto, nunca foi comprovada na prática. Enquanto o time do interior paulista caminha de forma consistente, o fracasso dos catarinenses é cada vez mais nítido. As diferenças escancaram que, sem uma administração transparente e eficiente, nem mesmo a transformação em S/A pode servir como salvação para determinadas agremiações.

No Botafogo-SP, os sócios do clube aprovaram por unanimidade, em maio de 2018, a transferência do futebol e da gestão do Botafogo-SP para Botafogo Futebol S/A, empresa constituída em forma de sociedade anônima com dois sócios, o Botafogo Futebol Clube e a Trexx Holding. Já o Figueirense, em meados de 2017, optou pela criação de uma empresa limitada para administrar seu futebol, o Figueirense Ltda, e vendeu 95% de sua participação para um investidor privado, a Elephant. Neste modelo, a associação Figueirense transferiu todos os ativos da equipe profissional para a empresa Figueirense, com o objetivo de profissionalizar todo o departamento de futebol -algo que, na prática, não aconteceu. O clube se afundou em dívidas e os investidores não pagaram funcionários e jogadores, fato este que fez o acordo com ser rompido no mês passado.

“A transformação institucional é importante para separar o futebol do ambiente político, o que proporciona melhores condições de gestão e planejamento. Se não fizer gestão, não há benefícios em ser empresa. Sem gestão, voltam os mesmos problemas do clube associativo. Gestão é a palavra principal”, afirma, categoricamente, Gustavo Vieira de Oliveira, membro do Conselho de Administração do Botafogo S/A. “Nosso projeto de clube-empresa é diferente, pois acontece de fora para dentro, e não em forma de associação. Acredito ser um caminho sem volta. Os clubes vão precisar seguir esse modelo”, acrescenta Adalberto Baptista, presidente do Conselho da S/A e principal investidor do negócio.

O reflexo das gestões pode ser visto dentro de campo. Neste ano, o Botafogo-SP continua na briga pela volta à elite do futebol nacional. Já o Figueira proporcionou algo inédito no país: pela primeira vez na história das duas principais divisões do Brasileiro, um jogo não foi realizado por greve de seus atletas, no caso, do Figueirense diante do Cuiabá, em agosto deste ano. A equipe de Santa Catarina é a lanterna da competição. A gestão empresarial também trouxe resultados em outros setores do clube do interior de São Paulo. Exemplo disso é o número de sócios-torcedores que quadruplicou em menos de seis meses. O programa, que em dezembro de 2018 tinha dois mil sócios, atualmente já conta com mais de oito mil.

A idealização desta mudança no Botafogo foi apresentada ao clube por Gustavo Vieira de Oliveira e Adalberto Baptista. Os dois ex-diretores do São Paulo levaram cerca de cinco meses para concluir todos os trâmites nos bastidores do Pantera, convencendo a comunidade botafoguense de que era o melhor para o clube. “Não é fácil implementar o novo modelo, justamente por ser muito diferente do que estamos acostumados no Brasil. Sofremos muita resistência, pois nosso caminho é contra a cultura do futebol brasileiro. Alguns não entendem, outros não querem entender. Mas, com o tempo, as vantagens aparecem e dão sustentação para o crescimento do clube a longo prazo”, completa Gustavo Vieira.