O imposto para quem não sabe matemática

Normalmente as embalagens maiores são consideradas “econômicas”. Mas nem sempre.

Que o Brasil tem impostos demais parece ser um consenso. E olhe que as pessoas nem contam todos os impostos. Não são só os indiretos – aqueles que acabam se refletindo nos produtos e são mais cruéis com os pobres, que proporcionalmente pagam mais. Há também os impostos culturais. E esses são ainda mais cruéis, porque geralmente incidem com mais ênfase nas pessoas com menos condições.

O imposto para quem não sabe matemática, por exemplo. Basta uma visita a um supermercado para ver o imposto em ação. Normalmente as embalagens maiores são consideradas “econômicas”, porque armazenam uma quantidade maior do produto com um acréscimo relativamente pequeno nos custos de embalagem e transporte – que pode ser repassado ao consumidor. Mas nem sempre.

No caso do creme de avelãs da foto acima, a embalagem média custa 5,50 reais a cada 100 gramas (totalizando 19,25 reais por 350g). A embalagem grande, de 650g, era vendida a 5,73 reais por cada 100 gramas. Um imposto de 4,2% para quem não fizer as contas.

O sabão para lavar roupas tem um imposto um pouco mais elevado. A embalagem de 2 litros saía por 18,38 reais o litro. A embalagem de 1,2 litro saía por 17,42 reais o litro. O imposto para quem não faz contas, aqui, era de 5,5%.

O PVC para embrulhar alimentos tinha alíquota ainda maior. Quem comprasse o rolo de 15 metros pagaria 0,52 real por metro. Se optasse por “economizar” levando o rolo de 30 metros, pagaria 0,56 real por metro, um imposto de 8,9%.

Há várias explicações possíveis para uma embalagem com maior quantidade ser proporcionalmente mais cara que outra, com menor quantidade. É possível que uma promoção tenha barateado a embalagem menor, e esqueceram de mexer no preço da maior, de um lote anterior. Ou as pessoas que estabeleceram os preços cometeram um erro. Ou elas simplesmente confiam que ninguém vá fazer contas na hora de comprar – especialmente contas de valores quebrados como esses.

De qualquer forma, não é crime cobrar mais caro do que seria lógico. Não faz sentido instituir uma fiscalização para punir quem faz isso – o custo disso seria alto, bem maior do que o benefício. Em tese, os próprios mecanismos do livre mercado deveriam corrigir essas distorções. As pessoas simplesmente prefeririam levar dois rolos de 15 metros, em vez de pagar mais por um de 30 metros.

O problema é que, para o livre mercado funcionar, é necessário não apenas que as informações circulem, mas que os atores da economia consigam interpretá-las. E isso está em falta no Brasil. Essa deficiência ajuda a explicar algumas características do cenário político: o apoio a reivindicações dos caminhoneiros, mas a oposição a qualquer aumento de taxas; a oposição a reformas como a da previdência, e o desejo de se aposentar cedo e com valor de pensão integral; a ideia de que, em se resolvendo o problema da corrupção, o dinheiro público vai ser suficiente para que o país tenha serviços de Primeiro Mundo.

O Primeiro Mundo não se tornou Primeiro Mundo desafiando a matemática.

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