Por que seu filho (não) deve levar o celular pra escola?

As tecnologias digitais têm o potencial de trazer um novo olhar para o processo educacional, permitindo que crie situações inusitadas de aprendizagem.

Estava começando a escrever este artigo quando li a notícia de que a França proibiu crianças e adolescentes de até 15 anos de levarem seus celulares e tablets para a escola sob alegação de proteger os estudantes da dependência das telas.

A decisão dos legisladores franceses não me parece muito racional frente aos desafios da educação contemporânea. É não olhar quais são os reais benefícios que as tecnologias digitais podem trazer para aprimorar os processos de aprendizagem da geração nativa digital, mas sim enxergá-las como inimigas, um recurso que não agrega valor pedagógico e apenas serve para distrair a atenção dos alunos durante as aulas.

Não é bem assim. Quando aprendemos matemática na infância o professor não nos autoriza, faz sentido, a usar a calculadora, já que almeja o desenvolvimento do raciocínio lógico. Mas isso não quer dizer que no futuro jamais usaremos uma ferramenta para nos apoiar na hora de fazer cálculos. Sendo assim, é preciso pensar como estes recursos podem agregar valor ao processo educacional, permitindo que o aluno aprenda de uma forma que ele nunca aprendeu e que não seria possível sem este recurso

Não basta usar os recursos tecnológicos para projetar em uma tela a equação “2 + 2 = 4”. A questão é como ensinar a matemática de uma maneira que só é possível por meio das tecnologias digitais, visto que elas fornecem possibilidades de construção do conhecimento que o quadro negro e o giz não permitem.

As tecnologias digitais têm o potencial de trazer um novo olhar para o processo educacional, permitindo que crie situações inusitadas de aprendizagem com estímulo a curiosidade, ao questionamento e a criatividade. Fazer boas perguntas é provavelmente uma das ferramentas mais importantes que temos para o entendimento e a aprendizagem, diz Warren Berger, autor do livro “A more beautiful question: the power of inquiry to spark breakthrough ideas”.

Concordo plenamente com ele. Na era digital, questionar é um ponto de partida crucial para criar oportunidades de aprendizagem significativa quando falamos em desenvolver o pensamento crítico e as habilidades para resolver problemas.

Confirmando este entendimento, como palestrante convidada em diversos eventos para explorar o tema inovação no contexto educacional tive a oportunidade de organizar uma pesquisa de opinião(1) com professores de vários Estados do País para traçar um cenário acerca da visão dos docentes sobre o futuro da educação. Até o dia que conclui este artigo, 781 educadores haviam participado desta enquete. Os resultados dão uma boa mostra de quais caminhos deveremos seguir para desenvolver as competências necessárias ao Século XXI.

Nada menos que 93,2% dos docentes acreditam que estamos entrando em uma Nova Era onde nossas atitudes e valores são influenciados pela interação que estabelecemos com o computador. Se reconhecem este forte impacto da tecnologia, não há razão para que excluam as ferramentas digitais da rotina escolar. Em contrapartida, apenas 1/3 (32,2%) entendem que a escola de hoje está preparando os alunos para viverem de forma plena daqui a 10 anos, o que inclui constituir família, gerar renda e exercer sua cidadania.

Os que não consideram a escola da atualidade como ideal para construir o futuro dos alunos representam 30,7% dos entrevistados, um universo considerável que nos revela a urgência de revisitar os modelos antiquados de ensino vigentes, desafio apoiado por 82,6% dos professores favoráveis a conceber uma escola totalmente diferente da que temos hoje.

Quando perguntados sobre a sobrevivência da instituição escolar, 88% responderam que não acreditam no seu fim e 86,4% também não vislumbram que a profissão de professor deixará de existir. O fato de não desaparecer não quer dizer que não é necessário se reinventar. É um novo professor, com outras competências, sendo capaz de instigar os nativos digitais, fazendo com que tenham um olhar crítico para toda a complexidade que envolve estar neste mundo hoje e no futuro, onde muitas das profissões que irão existir ainda não existem e onde as pessoas terão que se reinventar muitas vezes. As competências cognitivas básicas não são mais suficientes para garantir seu lugar ao sol. Junto a elas devem estar presentes as competências socioemocionais e digitais, garantindo assim a formação do ser integral preparado para a Era Digital.

O segredo é planejar

Os smartphones já são como uma extensão da nossa existência e estão integrados ao universo profissional. Ensinar os alunos a tirar o melhor proveito de seus aplicativos é, este sim, o desafio da escola do futuro. É preciso partir do princípio de que os alunos já são heavy users das tecnologias digitais, um caminho sem volta e que, por isso mesmo, demanda o estabelecimento de regras de conduta para seu uso.

Celulares e tablets já fazem parte da rotina dos estudantes, permitindo que tenham acesso à informação, se comuniquem uns com os outros e se divirtam. No entanto, para que o uso seja eficaz, repito, é importante ter um bom planejamento, com objetivos claros e compartilhados com os alunos, que tragam desafios, com tempo determinado para as tarefas e um processo de avaliação bem estruturado.

Como pontuei, as crianças e adolescentes que estão hoje na escola fazem parte de uma nova geração que já nasceu com as tecnologias digitais à disposição. Pesquisas da neurociência mostram que eles possuem novas estruturas mentais que exigem novas estratégias de ensino. São o tempo todo expostos a novas informações, em diferentes formatos, se comunicam utilizando diversos recursos e produzem novos conhecimentos para compartilhar com sua rede de contatos.

Professores que inserem as novas tecnologias no dia a dia da sala de aula aproximam-se do universo destes estudantes, estabelecem uma comunicação mais eficaz e conseguem envolvê-los em atividades importantes para o desenvolvimento de suas competências cognitivas básicas, digitais e socioemocionais necessárias ao cidadão do século XXI. Portanto, proibir o uso do celular ou qualquer tecnologia para aprimorar as metodologias de ensino não é, definitivamente, o caminho a ser seguido.

Um novo cidadão para um novo futuro

A Teoria dos Big Five aponta quais são as 5 principais habilidades necessárias ao profissional do Século XXI – abertura a novas experiências (estéticas, culturais e intelectuais, engajamento e resiliência); consciência (esforço, organização, responsabilidade, autoconhecimento e autogestão); extroversão (interesse pelo mundo externo, comunicação intrapessoal e interpessoal); amabilidade (agir de forma colaborativa, ter compaixão, respeito ao próximo e senso de justiça); e estabilidade emocional (consciência nas reações emocionais, coerência, autocontrole e autoconfiança).

 (Wikipedia/Abril)

Fonte da Imagem: Wikipedia

Para darmos conta dos desafios do futuro, é necessário formar um novo cidadão, com perfil social e profissional muito distinto do que conhecemos até hoje. Muito mais do que conhecimento técnico, serão exigidos atitude, pró-atividade, resiliência, pensar fora da caixa, ou seja, criatividade, inovação e inteligência emocional serão essenciais para sobreviver em qualquer contexto. Se esta é a realidade, precisamos então de uma nova escola que colabore para que os alunos desenvolvam todas estas competências e estejam preparados para um mundo em plena transformação.

Cada vez mais as tecnologias digitais terão que estar à disposição dos alunos, os espaços escolares deverão ser repensados para apoiar estratégias de ensino que têm como foco a aprendizagem personalizada, baseada em problemas do mundo real, com tempo determinado para execução das tarefas e que oportunizem o protagonismo juvenil, a experimentação, a colaboração e a produção de novos conhecimentos em prol de um bem comum. Pesquisa, autonomia, colaboração, empatia, autoria e metacognição devem ser conceitos-chave que, apoiados pelas tecnologias digitais e metodologias ativas, definirão a concepção de uma Nova Educação.

Muito mais do que uma questão de tecnologia, o desafio está centrado, isto sim, na redefinição das práticas pedagógicas e dos processos de avaliação. Se todos estes aspectos não forem levados em consideração é bem provável que os investimentos se percam, já que os alunos não se sentirão motivados a se envolver efetivamente com os processos de aprendizagem propostos. E aí estaremos perdendo a oportunidade de edificar nossas escolas alinhadas com os anseios da nova geração, a geração C, que já nasceu conectada.

(1) Pesquisa de opinião realizada com 781 docentes dos Estados de Amazonas, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Sergipe, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Bahia, Ceará, Maranhão e Tocantins.

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