Por que o dólar encareceu após a eleição do mito?

Talvez os gringos não estejam ainda sentindo muita firmeza com relação à pegada reformista do novo governo, Tomara que estejam errados

Quando comparamos as oscilações do real com as de outras moedas é possível isolar a parte das mudanças devidas às influências globais da parte originada pelo noticiário doméstico. A ideia é trivial. Se o real e um conjunto representativo de moedas perdem simultaneamente valor contra o dólar, a alavanca é o fortalecimento da moeda americana no mercado global. No entanto, quando o real sacode sozinho, a origem do movimento é provavelmente interna.

Para que o exercício seja informativo é essencial escolher um conjunto adequado de moedas para fazer a comparação. Um critério razoável é contrapor os movimentos do real aos de moedas que normalmente balançam de forma semelhante no dia a dia. Os vaivéns do dólar australiano, por exemplo, são capazes de “explicar” quase 90% das mudanças do real contra o dólar. Trata-se, portanto, de um bom candidato a entrar na cesta.

Nossa pauta de exportações é parecida com a dos australianos, que também vendem metais e carne. Como eles são desenvolvidos e nós nem tanto, as moedas flutuam juntas, mas o real é mais nervoso. A África do Sul é outro exemplo, pois, além de exportar commodities, o país tem estágio de desenvolvimento e desafios domésticos parecidos com os nossos. O ponto relevante é que é possível juntar um grupo de moedas capaz de registrar adequadamente as influências do cenário global sobre economias com estrutura semelhante à da economia brasileira.

No momento de redação desse texto o dólar custava R$ 3,90, quase 60 centavos mais caro do que há um ano. Pelas minhas contas, o efeito da valorização internacional do dólar explica mais ou menos a metade desse movimento. De fato, as viagens à Disney não ficaram mais caras apenas para os brasileiros. Os australianos e os sul-africanos também estão desembolsando mais para comprar na Terra do Tio Sam. A outra metade deve-se às novidades do noticiário doméstico, pois, para nós, as viagens para Sydney e para a Cidade do Cabo também ficaram mais caras.

A explicação de cunho doméstico para o real ter perdido brilho na cena global tem a ver com o nervosismo crescente dos estrangeiros com relação à dinâmica da dívida pública. O governo precisa encontrar poupadores dispostos a comprar seus títulos a algum preço para financiar os déficits orçamentários de forma não inflacionária. Para isso, é preciso que haja um mínimo de segurança de que o dinheiro retornará. Se a confiança desaparecer, não há juro capaz de convencer o mercado a financiar o governo e, nesse caso, a única opção de financiamento é rodar a impressora, fazendo a inflação subir e o dinheiro se desvalorizar. Estamos ainda distantes desse final triste, mas o poupador, que não é tonto, tenta se antecipar buscando sinais para a verdadeira disposição do governo de cumprir o que promete.

Por exemplo, ao aprovar a “Lei do Teto”, Michel Temer sinalizou ao mercado que o Brasil passaria a gerir o orçamento como um país civilizado. O avanço provocou fortalecimento do real frente à maioria das moedas, pois é simples ver que o cumprimento à risca da “Lei do Teto” equaciona o orçamento. O próximo problema é que não basta redigir uma lei exigindo responsabilidade se o governo não tiver meios para agir responsavelmente.

Em particular, a “Lei do Teto” requer a reforma da previdência para evitar o arrocho dos investimentos públicos ou o “fechamento” do governo (por falta de papel higiênico nos ministérios, por exemplo). Temer chegou perto de emplacar a reforma, mas a marcha civilizatória foi interrompida após as gravações dos irmãos Batista. O suporte político encolheu, a retomada da economia – que ganhava força – sofreu um abalo, a confiança murchou e a incerteza do cenário eleitoral aumentou. Não demorou a cair a ficha de que a candidatura economicamente mais previsível boiava como um paralelepípedo e, nesse diapasão, o preço do dólar disparou.

Após oscilar acima de R$ 4,00 no final de agosto e durante todo o mês de setembro, no entanto, a moeda americana barateou quase 40 centavos até a véspera das eleições. A ascensão de Bolsonaro e a expectativa de que a política econômica seria gerida de forma convencional pela equipe de Paulo Guedes explicam a queda. Afinal, o guru do presidente tem ideias mais ortodoxas que o rótulo do “Chocolate do Padre”. O mercado teria gostado mais se o eleito fosse alguém moderado, mas diante da possibilidade de vitória do PT, comemorou Bolsonaro com o mesmo entusiasmo de quem descobre que o antibiótico não será injetado no braço – tudo é relativo.

Nesse ponto deu-se o inusitado. É curioso observar que a distensão observada no período imediatamente anterior à eleição não teve prosseguimento após. Na verdade, deu-se o oposto, pois o dólar voltou a encarecer após a vitória do capitão até chegar aos atuais R$ 3,90. Nosso barômetro diz que essa alta não ocorreu porque a verdinha ganhou de todos, pelo contrário. Na verdade, se o valor do real tivesse acompanhado o da cesta poderíamos hoje abraçar o Mickey e o Pateta pagando apenas R$ 3,60 pelo dólar – menos do que na véspera das eleições.

Nasce aí a pergunta incômoda. Não seria razoável supor que o real voltasse a operar na faixa de “normalidade” em relação às moedas que são nossas irmãs após a vitória do mito? Segundo as minhas contas, o preço justo do dólar para um governo reformista deveria ser algo mais próximo de R$ 3,50 – chego a esse valor computando o valor médio do real em relação à cesta ajustando-o para levar em conta a força atual do dólar dada pelas incertezas globais.

Antes de abraçar a explicação de conotação mais pessimista, é preciso reconhecer que parte da resposta deve-se à heterogeneidade dos países que uso nas comparações. Em particular, como a aversão ao risco aumentou no mundo nas últimas semanas, é natural que as moedas de países emergentes tenham sofrido mais do que as de países desenvolvidos. Não surpreende, portanto, que o real tenha perdido para os dólares da Austrália, Nova Zelândia e Canadá, por exemplo.

Mas isso não explica tudo. O peso chileno, por exemplo, ganhou do dólar americano desde outubro. Ok, eles são economicamente melhores do que nós, mas as moedas de Colômbia, Índia, Filipinas, África do Sul e Turquia também ganharam e alguns desses países estão até mais próximos do bico do corvo do que nós. O cético procurará e talvez encontre razões para explicar os movimentos de cada uma das moedas presente em minha cesta favorita, mas não dá para negar que o Brasil empobreceu relativamente a nações que surfam como nós as ondas globais e isso se deu após a materialização de uma notícia que em tese é boa para as nossas perspectivas.

Por que tem sido assim? Difícil saber com certeza, mas talvez os gringos não estejam ainda sentindo muita firmeza com relação à pegada reformista do novo governo. Tomara que essa primeira impressão esteja errada e que, no final, tudo dê certo. A boa notícia é que o futuro melhor depende, por enquanto, apenas de nós mesmos.

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