Por que a economia está patinando?

O que incomoda de fato não é a alternativa entre um cenário de crescimento de 2,5% ou de 3,0%, mas ver engasgando uma economia que tinha tudo para crescer aceleradamente no curto prazo

Apostei em meados de fevereiro que as projeções para o crescimento neste ano subiriam. Passados três meses, os dados sugerem que a economia está patinando e o cenário de crescimento de 3,0% que parecia provável no início do ano ficou mais distante.

O prognóstico aparentou estar certo por um breve período. De meados de fevereiro até o início de março, a projeção consensual para o PIB passou de 2,7% para 2,9%. Desde então uma sequência de frustrações fez com que a projeção central voltasse aos 2,7% sem sinais de estabilização.

Variações modestas como estas em projeções de crescimento com horizonte de um ano dizem pouco, pois os erros efetivamente cometidos são de ordem de grandeza muito superior. Sendo assim, os 3,0% ainda estão no jogo, estatisticamente falando, até porque os números preliminares têm sido revisados para cima pelo IBGE. Só mudarei mesmo o meu chute quando conhecer os dados reais do primeiro trimestre em 15 dias.

Mas isso tudo é perfumaria quando as miudezas são postas de lado e foco migra para o jeitão das coisas. O que incomoda de fato não é a alternativa entre um cenário de crescimento de 2,5% ou de 3,0%, mas ver engasgando uma economia que tinha tudo para crescer aceleradamente no curto prazo. A nuvem escura que está pintando diz mais respeito à perspectiva de continuidade ou não do avanço em curso. O que está ocorrendo?

O motivo principal para esperar um ritmo mais forte de crescimento por uns dois ou três anos após a mudança de governo é o diagnóstico relativamente consensual de que a economia opera com capacidade ociosa abundante. Nesse caso é possível avançar sem a necessidade de expandir a capacidade produtiva. Com crédito e confiança basta contratar gente que foi demitida e ligar máquinas paradas para a economia crescer. Esses requisitos decorrem naturalmente da adoção de uma política econômica convencional.

É claro que a ociosidade pode ser ocupada de forma mais ou menos rápida, produzindo taxas de crescimento maiores ou menores. No entanto, partindo de uma estimativa que podia ser considerada conservadora para o “hiato do produto”, o PIB deveria crescer 3% ou mais mesmo se o preenchimento do buraco ocorresse lentamente, como no caso americano, por exemplo.

Nos Estados Unidos, a recuperação foi demorada porque a recessão teve origem em um colapso financeiro. O governo, as famílias e as empresas precisaram de quase dez anos para organizar suas finanças, reduzindo passivos. A recessão brasileira foi causada por equívocos de política econômica. Uma vez corrigido o rumo, seria razoável esperar uma retomada ligeira, como na saída de um “apagão”.

Desde que a mudança de orientação da política econômica se concretizou, venho tomando o pulso da retomada pelo monitoramento de duas variáveis que “olham para frente”: a fluidez dos mercados de crédito e a confiança dos agentes econômicos. Até a pouco, as coisas pareciam mesmo estar entrando nos eixos. No tocante ao crédito, no entanto, o progresso perdeu força, sobretudo nos empréstimos para empresas. O prêmio cobrado nas concessões de empréstimos ainda está significativamente acima do normal e, no primeiro trimestre, a queda registrada foi apenas um quarto da observada no final do ano passado.

No tocante à confiança dos agentes, o avanço consistente que vinha sendo observado desde julho de 2017 sofreu uma interrupção em abril último, destacando-se o esfriamento das expectativas dos empresários com relação à força da demanda e de seus planos de contratação de mão-de-obra. A incerteza econômica medida pelo indicador da FGV, que diminuiu sensivelmente no segundo semestre do ano passado, parou de cair em 2018, estacionando em patamar ainda relativamente elevado (há até alguns indícios de elevação na margem).

O pior dos mundos seria constatar que essa perda de ímpeto do crescimento estivesse ocorrendo porque a premissa de existência de ociosidade fosse falsa. Felizmente o comportamento benigno da inflação permite descartar essa hipótese mais pessimista. Economias que operam no limite da capacidade costumam exibir uma combinação de pressões inflacionárias e deterioração das contas externas e não há o menor sinal disso, pelo contrário.

Sendo assim, a murchada deve estar associada ao temor de que o país ande para trás a partir do ano que vem. Esse medo tem a ver com o potencial de crescimento no longo prazo e ajuda a entender o preenchimento demorado e inconsistente da ociosidade. É curioso, no entanto, observar a confiança do mercado financeiro com relação à chance de vitória de um candidato moderado, alinhado com as reformas modernizadoras e com um programa previsível.

Uma explicação é que o mercado financeiro trabalha com horizontes mais curtos e pode estar se posicionando para uma provável melhora dos indicadores referentes ao candidato de seus sonhos (afinal de contas, é difícil imaginar uma piora significativa em relação a um retrato tão medíocre). O empresariado, no entanto, toma decisões olhando um pouco mais à frente e, portanto, prefere ter mais clareza sobre quem efetivamente ganhará o pleito. Tende a ser mais cauteloso.

A perspectiva de o Brasil ter a sorte de ser pilotado com responsabilidade a partir do ano que vem é razão para que todos tenham um pouco de esperança. No entanto, os candidatos que parecem ter mais chances têm programas péssimos, ruins ou desconhecidos. A hipótese de escolher entre um ignorante imprevisível e um sujeito excessivamente confiante que promete misturar austeridade, recuo nas reformas, visão estatizante e desenvolvimentismo não é das mais confortáveis, mesmo admitindo como certa a derrota do bolivarianismo explícito.

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