O pessimismo (com a economia) não teria passado do ponto?

Mesmo com um governo que parece querer facilitar o trabalho da oposição, o Brasil está na beira de emplacar uma reforma previdenciária que tem potencial para destravar o crescimento econômico

As seguidas frustrações com o crescimento econômico têm causado bastante ansiedade. Pudera! O país produziu no trimestre passado o mesmo que há oito anos. A julgar pelo indicador do Banco Central, o segundo trimestre começou ainda pior. Haja paciência.

É verdade que a recuperação iniciada em 2017 não chegou a engrenar. No entanto, um cenário em que se anda para frente, mesmo que a passos de tartaruga, é bem diferente de passear como caranguejo ou crescer como rabo de cavalo – como parece ser o caso.

Mais espantoso é que, em tese, seria simples progredir. Justamente por isso o ânimo andava elevado no início do ano. Quando se tem ociosidade de sobra, basta despertar o otimismo do empresariado para que cedo ou tarde os empregos apareçam. Essa era a expectativa quando venceu um governo prometendo continuar a agenda progressista de Temer.

O que deu errado? Será que o diagnóstico estava furado e a letargia resulta de problemas econômicos mais profundos? Será que chegou a hora de colocar a barba de molho e esperar mais alguns anos de crise?

Recentemente meus colegas demonstraram desassossego ao decidir ajustar para baixo suas projeções de médio prazo. O cenário de crescimento entre 2020 e 2022 vinha girando entre 2,5% e 2,6% ao ano desde 2018. No início de junho, no entanto, a projeção rompeu pela primeira vez o limite inferior, pois um número maior de economistas agora vê a apatia chegando a 2020.

Quem acompanhava a coluna antes da última hibernação sabe que não faço parte da ala otimista. Vide, por exemplo, o cenário que desenhei faz uns dois anos tomando por base o trabalho seminal de Carlo Cipolla sobre a estupidez humana. Não passa um dia sem que a obra do brilhante historiador italiano e, por tabela, meu cenário, sejam vindicados por alguma novidade neste festival de bobagens em que se transformou a internet.

Sinto-me, portanto, à vontade neste momento para arriscar um pitaco um pouco menos soturno para o futuro. É bom frisar que me refiro aqui a um otimismo circunscrito ao domínio econômico, especificamente no que diz respeito às perspectivas de crescimento de médio prazo, tendo em vista as revisões para baixo das estimativas do potencial de crescimento do país.

O argumento tem três partes. Primeiro, estamos perto da aprovação de uma reforma previdenciária relevante. Segundo, é óbvio que ela não resolve todos os problemas, mas será um divisor de águas. Terceiro, há fatores circunstanciais segurando a economia. Senão, vejamos.

As expectativas econômicas murcharam no início do ano porque ninguém sabia no que ia dar a “nova política”. O Congresso Nacional reflete fielmente a sociedade. Odiamos os políticos porque é mais fácil transferir os problemas, pois, no íntimo, sabemos que eles representam as preferências e características do brasileiro mediano. Somos uma nação em que infelizmente há mais renans, paulinhos e gleisis do que tábatas. E isso não mudará tão cedo.

Para avançar nesse caldo, há que se buscar uma forma minimamente republicana de quebrar a resistência dos grupos organizados que lucram com o atraso, sem, é claro, comprometer as bases frágeis da democracia conquistada duramente. Trata-se de caminho tortuoso e às vezes feio.

Sabe-se que não se fará a omelete sem quebrar ovos, mas quando o governo assumiu chutando todos os baldes, pairou a sensação de que tudo degringolaria. Como seria possível aprovar uma reforma impopular proposta por quem trata as instituições e tudo o que está estabelecido a socos e pontapés?

Surpreendentemente, no entanto, a reforma parece ter adquirido vida própria no Congresso. Os nobres repararam que sem ela o país quebrará. E a doutrina dos que repudiam o que é certo apenas para fazer o governo sangrar amoleceu a reboque de outro fato inusitado: a resistência social tem diminuído. A população percebe que a reforma faz sentido, pois ajusta regras caducas para levar em conta o fato de que estamos vivendo mais e elimina privilégios indefensáveis.

Acompanhei o jogo do Brasil contra a Venezuela na casa de amigos. Em determinada altura, quando todos pareciam babar de tanto tédio, decidimos por consenso que a única forma de salvar a noite seria apelar para algo mais forte, no copo e na tela. Venceu o imperdível “Luciana by Night”. Faltam palavras para descrever o regalo de ver a apresentadora catequizando os ouvintes sobre os benefícios da Nova Previdência. Antes que me esqueça, a reforma foi tema de manifestações populares que levaram milhares de pessoas às ruas no final de maio.

Chegamos à situação insólita em que o Congresso Nacional reage à “Usina de Crises” fazendo o que tem que ser feito. Nesse sentido, a “Nova Política”, seja o que for, está saindo melhor do que a encomenda – por incrível que pareça. É lógico que a vaca pode ir ao brejo a qualquer momento e, para ser justo com meus colegas mais céticos, às vezes o governo parece se esforçar para que a casa caia. Dito isso, não há hoje guru que não aposte na aprovação da reforma. São fenômenos assim que fazem de nosso rincão algo único na terra – que, diga-se, pode ser plana.

Dizem que a reforma previdenciária não é suficiente. Convenhamos, isso é chover no molhado. Ninguém em bom juízo diz que os problemas nacionais terminam porque seremos pressionados a trabalhar o que se trabalha mundo afora. Isso não quer dizer que o projeto seja apenas mais um passo. O Brasil está à beira da bancarrota e a Nova Previdência torna esse desfecho trágico bem menos provável até onde a vista alcança. Não é pouco.

Se o governo conseguir emplacar um projeto parecido com o que saiu da Comissão Especial, o feito será um divisor de águas para os que precisam planejar com horizontes de longo prazo. A reforma dará sustentação à Lei do Teto, que hoje é a principal “âncora fiscal” da economia. Com ela o governo terá até mesmo alguma margem e legitimidade para afrouxar momentaneamente o torniquete fiscal, ajudando a política monetária que (oxalá) será abrandada em breve. Ao equacionar o que comumente se chama de problema de “solvência” das finanças públicas, o governo abrirá as portas para capitais que estão loucos para investir no país – que, pasmem, tem potencial enorme.

Por fim, há razões circunstanciais que contribuem para o desempenho medíocre da economia. Estima-se que os “choques de demanda” se propagam com defasagens e inércia. Sendo assim, uma parte da morosidade de hoje pode refletir o endurecimento das condições financeiras ocorridas no período pré-eleitoral e no final do ano passado. Além disso, a economia mundial vem perdendo vigor com o recrudescimento das disputas comerciais entre EUA e China. O Brasil apanha duplamente, pois a Argentina está mergulhando em uma crise profunda.

A tragédia de Brumadinho, além do custo incomensurável para as famílias diretamente afetadas, teve impacto negativo relevante sobre um setor que é um dos carros chefe da economia brasileira. Deve-se notar também que, ao contrário do que costumeiramente ocorreu desde a estabilização, o governo está apertando o cinto para valer. Este é o remédio amargo necessário para despertar o setor privado, estimulando-o a correr atrás de projetos inovadores que não dependam do dinheiro fácil que no passado fluiu de Brasília. O ajuste em curso compromete o curto prazo para melhorar o longo. O conservadorismo do Banco Central pode durar um pouco mais, mas evidentemente tem prazo para acabar. É óbvio que o juro cairá.

Não se trata aqui de negar o que parece estar errado, e não faltam exemplos. Difícil imaginar um governo mais irritante e sectário, que parece querer facilitar o trabalho da oposição. Além disso, o mundo está esquisito e uma nova recessão pode estar próxima. Tudo isso é certo, mas apesar dos pesares, o Brasil está na beira de emplacar uma reforma revolucionária que tem potencial de tirar do caminho uma pedra colossal. Se for assim, aposto que o crescimento será maior.