O mundo está para entrar em uma nova recessão?

Apesar de toda a parafernália desenvolvida para entender melhor os ciclos econômicos, economistas ainda não são capazes de prever as recessões

Essa é hoje a pergunta que mais aflige os mercados. Vale, portanto, muito dinheiro. Pena que apesar de toda a parafernália desenvolvida para entender melhor os ciclos econômicos, os economistas ainda não sejam capazes de fazer um trabalho decente quando tentam prever as recessões. De fato, um estudo recente do FMI mostrou que fomos incapazes de antecipar 90% dos episódios ocorridos em 63 países, de 1992 a 2014, com menos de um ano (!) de antecedência. Diante do fiasco, o que dá para dizer com alguma segurança?

Recessões são eventos relativamente comuns. Em um ano típico há cerca de 20 economias encolhendo. Ainda assim, o fenômeno é muito raro em escala mundial. Desde o final dos anos 40, a soma dos produtos dos países diminuiu apenas em 2009 por conta da crise financeira e, mesmo assim, a taxa foi negativa quase que por acidente: apenas -0,1%, significando que, na prática, o mundo andou de lado. Sendo assim, é praxe considerar que há uma “recessão” global quando PIB agregado cresce menos do que 3%. Eventos como esse não são tão raros, mas foram observados apenas em seis períodos desde o final dos anos 40, sempre após 1970.

Para que o mundo entre em recessão é preciso haver um “choque” que afete negativamente um número grande de economias. Alternativamente, a causa pode ser o início de recessão em um país sistemicamente relevante que acaba arrastando os demais. As duas primeiras ressacas mundiais do pós-guerra estiveram associadas a elevações bruscas do preço do petróleo. Já as recessões observadas nos inícios dos anos 90, 2000 e a crise financeira de 2008 nasceram na terra do Tio Sam. O único imbróglio originado em economias periféricas, sem comprometimento da economia americana, ocorreu no final dos anos 90 com a crise asiática.

Pensar em uma recessão mundial implica, portanto, olhar de perto o que se passa nos EUA. A China tornou-se uma locomotiva do crescimento global desde o início do século e também deve ser monitorada. É claro que um tombo pronunciado na Zona do Euro seria igualmente sentido em todos os cantos e, infelizmente, os problemas estruturais da região parecem aumentar com o passar do tempo – vide a situação da Itália. Dito isso, prever a data do eventual colapso europeu é uma tarefa difícil até para os melhores astrólogos. Sendo assim, a hipótese usual é pressupor a sobrevivência do bloco até onde a vista alcança. Aceita essa premissa, pode-se tratar o dinamismo do mundo como função do que ocorre nos EUA e na China.

Há nos EUA um órgão responsável pela datação dos ciclos econômicos – o conceituado Escritório Nacional de Pesquisa Econômica, NBER na sigla em inglês. De meados do século 19 até o fim da Segunda Guerra, o país esteve em recessão 42% do tempo, mas a frequência diminuiu para 14% desde então. Sem informações adicionais, essa é a base para avaliar a chance de um tombo no futuro – não chega a ser desprezível, mas também não é uma tragédia. Isso ajuda a entender porque os economistas relutam em prever as contrações. Como o normal é crescer, projeta-se expansão mesmo diante de um acúmulo de sinais sugerindo deterioração da saúde econômica. A má notícia é que esse pode ser o caso no presente momento.

Por incrível que possa parecer, o ciclo de expansão atual já é o segundo maior da história americana, apesar do tom francamente negativo do noticiário econômico dos últimos anos. Considerando a fase de menos instabilidade que se iniciou no final dos anos 40, os períodos de expansão tiveram duração média de algo entre cinco e seis anos. O recorde foi registrado durante o “boom” dos anos 90, que durou dez anos e terminou de forma épica com o estouro da bolha de tecnologia. Se a economia se segurar por mais um semestre a marca será superada. Se Trump fosse um sujeito falastrão e egocêntrico poderia até mesmo atribuir a si a façanha.

Não há lei econômica que estabeleça um limite às fases de expansão. Sabe-se apenas que os soluços fazem parte da dinâmica capitalista. Desse modo é de se esperar que cedo ou tarde haja um novo tropeço. Em outras palavras, é razoável atribuir probabilidade maior do que a usual para a ocorrência de uma nova recessão, digamos, daqui a um ou dois anos, sobretudo quando se têm em vista alguns sinais que costumam anteceder as mudanças.

De acordo com uma pesquisa publicada pelo Wall Street Journal em janeiro, os economistas atualmente percebem chance de 25% de um incidente nos próximos 12 meses, o maior valor desde 2011. Para o FED de Nova Iorque, a probabilidade é de 22%. Ao valor de face, esses números não parecem ser suficientemente elevados para eriçar o cabelo de ninguém, mas é errado interpretá-los como indício de que tudo esteja bem. Apesar de relativamente baixas, elas sugerem que a possibilidade de um sururu está aumentando. O estudo do FMI citado no início revela que os economistas relutam em prever recessões, mas tipicamente sentem o cheiro de enxofre e ficam mais pessimistas antes delas ocorrerem.

Antes do colapso financeiro de 2008, por exemplo, o modelo do FED nova-iorquino chegou a atribuir chance de pouco mais de 40% para uma recessão no horizonte de 12 meses. Com o benefício de saber o que de fato ocorreu, essa avaliação parece ter subestimado grosseiramente o risco. No entanto, a favor do FED contam dois fatos. Primeiro, a probabilidade vinha crescendo quase que monotonicamente desde o início de 2005. Segundo, não existe o contrafatual – talvez a chance fosse mesmo 40% pois, como se sabe, coisas que têm 40% de chance de ocorrer ocorrem com uma frequência razoável, não por acaso … 40%! A instituição percebia que a possibilidade de haver um revés era crescente e bem maior do que a usual, quase equivalente a um jogo de cara ou coroa. O universo jogou os dados e “deu ruim”, mas o fantasma poderia ter demorado mais um ou dois anos para sair da tumba, vai saber?

Hoje há uma série de sinais que podem indicar problemas à frente. A economia americana parece crescer na marra, com o governo pisando no acelerador apesar do dinamismo relativamente morno da produtividade, bem menor do que em ciclos passados. As empresas lucram, mas investem relativamente pouco. A taxa de desemprego é a menor desde o final dos anos 60 e isso deveria ser acompanhado de uma política econômica mais cautelosa – até para poupar munição para o período de vacas magras. A inflação está baixa, é verdade, mas o custo do trabalho aumenta em ritmo cada vez maior – quase 4% de acordo com o FED de Atlanta. A confiança que andava alta despencou há dois meses e a volatilidade dos preços de ativos entrou na faixa em que se acende um sinal amarelo, como comentei aqui na semana passada. Não é de se admirar, portanto, que os economistas estejam ficando com a pulga atrás da orelha, mas no estilo usual: raios, ventania e trovões de um lado e alertas de que a chance de chuva aumentou do outro.

É de certa forma reconfortante observar que o FED acusou o golpe e abrandou o discurso em um dos cavalos de pau mais espetaculares da história monetária americana. Os mercados agradeceram a injeção de adrenalina, especialmente após a última reunião do FOMC (o Copom americano) na quarta-feira da semana passada. Mas não nos iludamos: se a autoridade monetária foi surpreendida a ponto de ter que mudar de orientação da água para o vinho de repente, é possível que seja já tarde demais. Pois a capacidade que eles têm de prever o futuro não é diferente da nossa, como sugere o estudo do FMI.

Além de tudo isso, é preciso levar em conta a possibilidade de que as negociações entre EUA e China não avancem e há uma chance de desfecho traumático do Brexit. Tudo pode dar certo em 2019 e, quem sabe, até em 2020 e essa é ainda a opinião consensual. Mas é importante não superestimar o valor dessa e de qualquer opinião do gênero.