O Brasil poderá se dar bem se o mundo for mal?

A diferença entre uma esfriada paulatina e uma parada brusca é importante para o cenário brasileiro

Depende de quão mal o mundo vá, pois dificilmente ele irá bem. Ele pode ir mal, ou muito mal – beirando o péssimo. Se for só mal, mas não muito, o Brasil pode se sair bem. Caso contrário será difícil escapar sem arranhões e daí poderemos nos dar mal. Peço desculpas pela introdução com o estilo literário da ex-presidente, mas a história é essa mesmo. Se não, vejamos.

Que o mundo já não vai bem não é novidade. Na primavera de 2018, o FMI esperava crescimento global de quase 4% para 2019. Em julho passado limou a projeção para 3,2%, ajuste equivalente a apagar a Suécia do mapa. Para 2020, a revisão foi de 3,8% para 3,5%. Mantidas as tendências atuais, a produção industrial global crescerá pifiamente, menos de 1%.

A inflação vem perdendo força desde o último trimestre do ano passado e pelas minhas contas registra atualmente o menor patamar em três anos. Os preços aos produtores exibem tendência de deflação. E não falta liquidez: o estoque de dívida pública e privada pagando juros negativos é de USD 17 trilhões, ou 20% de tudo que se produz no planeta.

Apesar de estar murchando, a confiança dos americanos se manteve acima da linha d’água até agosto. Isso mudou no mês passado e o viés tornou-se claramente negativo, acendendo uma luz amarela nos “indicadores de medo”. Estima-se que a chance de uma recessão no ano que vem esteja entre 30% e 40%, como foi o caso na véspera da crise financeira.

Ao contrário do que se viu quando houve ameaça de uma “recessão industrial” em 2014/15, a China não está dessa vez ajudando a reanimar o enfermo – seja porque não pode, seja porque não quer, ou um misto dos dois. A expansão industrial chinesa nos três meses encerrados em agosto foi a menor desde meados de 2015. A economia vem perdendo gás desde abril a julgar pela flutuação de uma cesta de indicadores financeiros tipicamente associados ao seu dinamismo.

As coisas não estão melhores na Europa e no Japão, que dirá no mundo emergente.

Em tempos normais esse enredo seria suficiente para declarar “game over”. Mas os tempos não são normais. As recessões do passado surgiram após algum “choque” nas condições monetárias ou no preço do petróleo. Houve também episódios originados em crises financeiras ou de mercados emergentes. Hoje não há nada disso. A verdade é que diante das circunstâncias o crescimento pode ser considerado razoável. Os “otimistas” ganharam muito mais que os “pessimistas” nos últimos anos porque o colapso vem sendo cantado há bastante tempo.

A origem da perda de dinamismo da economia global é o aumento do protecionismo, cuja faceta mais saliente, mas não única, é a disputa entre EUA e China. Como proporção do PIB Global, o fluxo total de comércio nesse ano será tão baixo quanto foi no “fundo do poço” da crise financeira, em 2009. O encolhimento dos mercados bate nos segmentos industriais que, de resto, apanham também por razões estruturais, pois as pessoas estão consumindo mais serviços.

Ou seja, o jeitão é de queda de potencial de crescimento, mas não necessariamente de um baque repentino. Chama atenção, por exemplo, que apesar da retração industrial, os setores de serviços estejam indo relativamente bem. Com exceção do Reino Unido, onde o caso é psiquiátrico, em todas as regiões relevantes os setores não industriais crescem normalmente.

O fato econômico marcante é que com o protecionismo correndo solto, Brexit, tensões no Golfo e em Hong Kong, impeachment de Trump, FED mais perdido que cego em tiroteio e o diabo a quatro, o mundo tem aos trancos e barrancos evitado um tombo violento e súbito e, aos poucos, este vai se consolidando como um dos ciclos de expansão mais longevos.

Como a desaceleração do crescimento vem ocorrendo gradualmente, as más notícias têm sido incorporadas aos preços com naturalidade, a menos de alguns sustos aqui e acolá sem maiores consequências. Há os que estejam um pouco mais otimistas ou pessimistas, mas poucos colocam todas as fichas em um cenário de ruptura de gente grande, sertanejo, que envolveria, digamos, quedas da ordem de 30% a 40% nos preços das ações. Ao menos por enquanto. O risco está aí, evidentemente, mas por ser um risco pode não se materializar.

Tanto isso é verdade que, apesar tudo, o consenso para a taxa de crescimento do PIB mundial ainda supera os 3%, linha que normalmente define o que seria uma “recessão” em escala planetária. Não pretendo sugerir aqui que o leitor deva levar muito a sério as previsões de economistas, mas são elas que dão base à maioria das decisões, por incrível que isso possa parecer. O clima não está para a queima de rojões, é claro, mas a diferença entre uma esfriada paulatina e uma parada brusca é importante para o cenário brasileiro.

Se o atual compasso andante moderato migrar para, quem sabe, um andantino ou até mesmo um adagietto, nada impedirá que o Brasil continue recuperando o terreno perdido, pois aqui o grosso da crise teve origem nas barbeiragens domésticas perpetradas durante a tragédia da “Nova Matriz Econômica”. O noticiário é dominado pelo festival de bobagens que, convenhamos, é muito mais interessante, mas, acredite se quiser, há vida na economia, apesar da “nova política”. Um cínico até poderia dizer que já se pode respirar com alívio agora que o combate à corrupção foi devidamente escanteado por ter chegado onde não devia.

Os juros estão baixos como nunca estiveram; o mercado de trabalho melhora; o crédito e o consumo avançam. É lógico que a economia está sendo segurada pela retração fiscal, mas esta é a parte boa da história. A parte ruim é que o setor privado está demorando a engatar a primeira porque ainda está ressabiado – pudera! Não compro a história de que uma coisa causa a outra, mas posso estar errado, vai saber. O erro que não quero cometer de jeito nenhum é o de achar que sou o único que vê o crescimento mundial perder força e a estrutura a termo das taxas de juros ficar de ponta-cabeça. A vaca pode ir para o brejo, mas ainda não foi.