E agora? Há um candidato claramente melhor para a economia?

Entre Haddad e Bolsonaro, o cenário certamente piorou em relação ao que poderia ter sido, mas é possível vislumbrar versões relativamente mais ou menos desfavoráveis em qualquer um dos dois casos

O brasileiro decidiu que o próximo presidente virá de um dos extremos. Olhando as perspectivas para a economia, dá para afirmar com grau razoável de confiança qual das duas alternativas sobre a mesa é melhor? A meu ver não. A saída pelo centro teria gerado um cenário econômico superior, mas com ela descartada não há informações suficientes para ordenar de antemão as opções que restaram. Palpites não faltarão, mas é preciso consumi-los com muita cautela, mais do que a normalmente recomendada às previsões do dia-a-dia.

Seguindo o argumento da semana passada, a mera existência de dúvidas consideráveis com relação à capacidade de entrega e visão de mundo do próximo presidente prejudica o cenário porque a falta de clareza torna os agentes econômicos mais cautelosos. Diga-se, a única razão para a economia crescer pouco neste exato momento é a incerteza eleitoral. Não fosse por isso, o país estaria ocupando mais rapidamente a ociosidade existente e surfando a onda internacional relativamente favorável. A eliminação das plataformas mais previsíveis prolonga a incerteza.

A polarização é também deletéria porque as instituições provavelmente sofrerão novas lesões, comprometendo o potencial de crescimento do país no longo prazo. Um dos candidatos angariou boa parte dos votos menosprezando abertamente os valores democráticos, avivando a compreensível aversão da população aos poderes constituídos, que custam muito e entregam pouco, além de caçoarem sistematicamente de quem paga impostos. Já o desdém democrático do PT, tão enraizado quanto o de Bolsonaro, mas sub-reptício, é representado por um projeto de poder que envolve a captura paulatina das instituições para benefício dos companheiros.

Seja pela direita, seja pela esquerda, o ideal de uma democracia pluralista, tolerante, liberal e cosmopolita, que parecia ser um objetivo consolidado há não muito tempo, ficará mais distante. O desrespeito descarado às normas que deveriam pautar um debate civilizado baseado em fatos marcou essa corrida em que Bolsonaro e Haddad disputarão a presidência, transformando a oportunidade de recomeçar em uma escolha de Sofia. As alternativas pelo centro nunca chegaram a ser a oitava maravilha, mas a vitória de um dos integrantes do quinteto fantástico arejaria Brasília e tenderia a trazer equilíbrio após o desastroso período da dobradinha Dilma-Temer.

Nesse sentido, o Brasil sairá menor do que entrou nessas eleições.

No tocante à economia, o cenário certamente piorou em relação ao que poderia ter sido, mas é possível vislumbrar versões relativamente mais ou menos desfavoráveis em qualquer um dos dois casos. O progresso dependerá da capacidade do próximo presidente de alavancar o mandato a partir de suas vantagens comparativas, controlando os pontos fracos. O “mercado” é pragmático e não veste camisa. Se o governo mandar bem ele embarcará no bonde e vice-versa. Até o desfecho da eleição a torcida será por Bolsonaro. Olhando mais à frente, no entanto, não dá para saber previamente qual Bolsonaro se sobressairá nos próximos quatro anos e, portanto, é impossível afirmar que seu mandato será melhor do que o de Haddad para a economia ou vice-versa.

A extrema direita tem o seus prós. Um deles é convidar a esquerda a fazer a autocrítica que deve há muito tempo ao país pela instituição do caos econômico e, por extensão, a polarização que viabilizou o extremismo oposto – se isso ocorrer, o país evoluirá, criando-se a chance de aglutinação dos segmentos moderados para reconstruir o país no longo prazo. Além disso, o capitão parece ter um alinhamento maior com o congressista mediano, vantagem que pode ser usada para montar uma coalizão capaz de dar continuidade à agenda reformista. Por fim, ele conta com a boa vontade dos mercados na fase inicial do governo e esta é uma bela vantagem. A economia melhorará no ano que vem se esses aspectos sobrepujarem os pontos fracos.

Há, contudo, a possibilidade de o governo ser marcado pelas fraquezas do militar. Seu viés autoritário e o desprezo pela política podem comprometer a atração de bons quadros e a formação de uma base congressual estável. É difícil imaginar alívio na polarização da sociedade após sua vitória. Além disso, um dos papeis do presidente é arbitrar conflitos e, para isso, é preciso ter visão e preparo. Um presidente muito confiante e convicto é ruim, mas um com horizonte intelectual curto e sem opinião pode ser pior, sobretudo diante da tarefa de controlar um entorno macabro como o que circunda Bolsonaro. Finalmente, será difícil para ele elevar a carga tributária se isso for necessário e é bem provável que seja.

O predomínio dessas fraquezas poderá fazer com que, após uma breve lua de mel, o governo se veja rapidamente imobilizado e capturado pelos grupos de interesse de sempre. Sua resposta ao imobilismo pode ser truculenta e, se isso ocorrer, o angu pode desandar de vez, como na Turquia. O predomínio dessas características fará as expectativas se deteriorarem rapidamente e os próximos quatro anos durarão uma eternidade. Quem viveu o auge e declínio do “caçador de marajás” na desventurada “República de Alagoas” tem uma base para desenhar o roteiro.

No caso de Haddad, um de seus maiores ativos é destoar da figura do petista fanático que provoca o asco que une pelo menos dois terços da população e que foi mais bem utilizado por Bolsonaro. É claro que Haddad mente como qualquer político, mas parece ser um sujeito a quem a verdade tem alguma importância. Ou seja, ele está no PT, mas não é o petista “raiz” ou um vigarista “frankfurtiano” (ver a coluna do dia 23 de julho). Sem políticos assim não há como consolidar a democracia. Se esta percepção estiver correta, é possível que seu governo seja pautado pela responsabilidade. Guardadas as devidas proporções, ele poderá ganhar pontos tirando o bode que colocou na sala como fez seu criador em 2002 ao “chamar o Meirelles”.

Seu temperamento relativamente mais suave pode propiciar a formação de um governo equilibrado, focado na construção de consensos e capaz de contribuir para a pacificação do país. Tem boas conexões com economistas que pensam diferente, disposição para ouvir e um preparo mínimo para perceber até que ponto a corda pode ser esticada. Ao contrário da antecessora (que, ao que tudo indica, foi agora impedida pelas urnas), ele não se comunica em javanês. Por ser um poste do Lula, que não tem compromisso com nada e ninguém, Haddad pode ser convencido a aplicar o estelionato que se fará necessário para impedir o retrocesso, mesmo que isso envolva contrariar algumas promessas e magoar a “ala progressista”. Vendo as coisas por esse ângulo, é possível imaginar que seu governo não seja necessariamente ruim do ponto de vista econômico. Talvez até surpreenda positivamente.

Essa história relativamente benigna deve ser contraposta à que enfatiza os aspectos negativos do candidato. Primeiro, ele não representa o PT. Se aplicar o estelionato, mesmo com a chancela do ministro lotado temporariamente em Curitiba, enfrentará resistência bem mais pesada do que a que solapou a breve tentativa de Dilma de tocar a economia de acordo com o manual. Além disso, sua visão heterodoxa contém muitos dos elementos do receituário desastroso da “Nova Matriz Econômica”. Por exemplo, ele fala com naturalidade em BC com “mandato dual” e não é muito claro no compromisso em fazer o ajuste das contas públicas, sem o qual o país soçobrará.

Durante a campanha, Haddad fez promessas que, se cumpridas, certamente provocarão retrocesso. Ou seja, o sucesso de seu governo implica bater de frente com sua base eleitoral. O mesmo perfil que felizmente o distancia dos embusteiros prototípicos do PT pode, na pior das hipóteses, jogar contra no momento em que o desafio for descumprir promessas em nome do bom senso para livrar o país da crise. Em outras palavras, enquanto Bolsonaro dá medo por não ter convicções, Haddad preocupa por tê-las. Finalmente, ao contrário de Bolsonaro, começará o governo pressionado pelos mercados financeiros e, assim, terá menos chances de errar.

Se Haddad falhar na estabilização das expectativas logo no início, comprometerá seu governo pelos próximos quatro anos. Com a economia semi-estagnada e enfrentando pressões inflacionárias, terá que adotar medidas que de acordo com a cartilha apregoada pelo PT atendem ao “capital rentista”. Qual decisão ele tomará? Aliviar no curto prazo, arruinando o médio prazo ou chamar para si o custo de colocar o trem nos trilhos, desagradando a tigrada? Se optar pelo primeiro caminho colherá resultados semelhantes ao da presidenta e o povo será feliz novamente apenas no mundo imaginário dos marqueteiros petistas. Os mais humildes pagarão a conta e o mercado financeiro ganhará dinheiro como sempre. Se optar pelo segundo, pode ficar isolado.

Traduzindo em números, imagino a economia crescendo algo entre 2,5% e 3,0% no ano que vem e uns 2% de 2020 a 2022 nas versões mais favoráveis. Nas piores, algo próximo da estagnação em 2019 seguido por média de crescimento entre 1% e 1,5%, com bastante variância. Se tudo der certo, a inflação deverá superar a meta estabelecida atualmente pelo BC, mas não muito. Se der errado, a inflação subirá paulatinamente e tenderá a ser menos previsível, oscilando ao sabor dos breves soluços de crescimento interrompidos por períodos de retrocesso.

Torço para que a chance das versões melhores seja maior, mas não vejo razão para apostar nisso agora, sem mais informações. Chegou a hora de saber se, de fato, Deus é brasileiro.

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