Bolsa sobe, dólar cai: quem entende o câmbio?

O preço do dólar (e das moedas de países desenvolvidos) reflete o nosso valor percebido pelos estrangeiros. E é difícil de sentir 100% de confiança no governo

Dólar morro acima ninguém segura. Quando redigi essa linha o câmbio era negociado a mais de R$ 3,85. Perto de R$ 3,80 parece haver um exército de compradores. Refrescando a memória, podíamos visitar a Disney pagando menos de R$ 3,65 por dólar na véspera das eleições que, em tese, marcaram o fim da incerteza com relação ao rumo do país. Enquanto isso, a bolsa valorizou 12% este ano e bateu 100 mil pontos nesta segunda-feira. O que, então, está acontecendo com o dólar?

O mercado de câmbio, que repercute as notícias instantaneamente, é uma das principais referências para quem deseja entender o cenário econômico e não tem tempo, ou paciência, para analisar os dados e ler relatórios. Quando o Brasil vai bem, os gringos vendem dólares e compram reais. Quando vai mal ocorre o inverso. Ou seja, o preço do dólar (e das moedas de países desenvolvidos) reflete o nosso valor percebido pelos estrangeiros.

Há motivos para justificar a depreciação do real. Por exemplo, a economia continua patinando e, convenhamos, é difícil sentir 100% de firmeza no governo. No entanto, nem tudo é negativo. Basta ver o comportamento da bolsa, que também é uma balizadora importante do cenário econômico. De acordo com a Bloomberg, a projeção consensual de crescimento dos lucros por ação das empresas listadas é de cerca de 90% até 2022.

Só Deus sabe se essas projeções se concretizarão ou não, mas usando conservadoramente o passado como guia e considerando uma relação típica entre o preço e o lucro das ações, essa perspectiva para o crescimento do lucro é consistente com o Ibovespa raspando os 150 mil pontos. Consensos como esse não se formam no vácuo. O fato é que, apesar dos inúmeros ruídos, há também uma “narrativa” construtiva correndo em paralelo.

A proposta de reforma previdenciária é boa. O Ministro Tarcísio de Freitas colhe elogios por onde passa, seja pelo conhecimento, seja pela articulação ao expor os projetos. Se ele for bem sucedido em destravar a agenda da infraestrutura produzirá crescimento “na veia”. Além disso, ninguém deseja reinventar a roda o que dá previsibilidade.

A alta da bolsa também está apoiada no patamar reduzido dos juros. Os títulos públicos de longo prazo não pagam tão pouco desde 2013. Dinheiro relativamente barato, inflação controlada e potencial elevado de crescimento (por ocupação de ociosidade) são ingredientes que costumam alavancar os lucros. Some-se que o Brasil é um lugar para profissionais.

Quem aguentou a Nova Matriz Econômica é capaz de caminhar descalço sobre brasa. Diante disso, é difícil, quase impossível, explicar o comportamento dissonante entre a taxa de câmbio e os demais ativos financeiros usando as variáveis usuais. Os indicadores de volatilidade, por exemplo, recuaram do pico observado em dezembro e atualmente se encontram novamente na região de normalidade. As taxas de juros de títulos do tesouro americano caíram e as condições de liquidez de forma geral melhoraram na esteira da acomodação patrocinada pelo FED e acompanhada mundo afora.

Em particular, a China voltou a permitir o fortalecimento de sua moeda, deixando assim de “exportar” deflação, especialmente aos exportadores de commodities. Não é coincidência que os preços das matérias primas estejam subindo em 2019. Ora, quando a volatilidade cai, as condições financeiras se afrouxam e os preços de commodities sobem é normal observar o fortalecimento das moedas dos países que costumam surfar as ondas globais como o real.

Não deu outra. Desde outubro passado as moedas de África do Sul, Chile, Colômbia, Indonésia, Índia, Malásia, México, Peru, Rússia, Turquia e Tailândia ganharam do dólar. Só o real perdeu. Se tivéssemos acompanhado o comportamento médio dessas moedas desde as eleições o dólar deveria estar custando R$ 3,55.

O lado mais curioso do quebra-cabeça é que o diferencial de risco do Brasil em relação a estes países diminuiu. O CDS é um contrato de seguro que paga caso o país aplique um calote em seus títulos. Mede, portanto, a propensão dos investidores a se exporem a riscos em uma determinada moeda. Desde a eleição, a diferença entre o nosso CDS e a média dos países acima caiu quase meio ponto de porcentagem.

Não dá para entender a resistência do dólar. Há quem diga que os juros menores retiram o brilho do real. Adotando uma janela de mais longo prazo isso é verdade. A queda dos juros ajuda a entender, por exemplo, porque o real não esteja tão forte quanto esteve no início de 2017, quando o governo de Temer ainda estava de pé. Mas, desde outubro, os juros menores foram neutralizados pela queda proporcional da percepção de risco.

Tem também uma história de gestores de fundos que não podem operar vendidos em bolsa estarem usando o dólar como proteção (afinal, o custo de fazer isso já não é mais tão proibitivo). De fato, a força da correlação inversa entre bolsa e câmbio tem diminuído em 2019, mas daí para ter certeza que é esse o motivo da resistência da verdinha tem muito chão. Há um componente esquisito no comportamento do dólar.

Quando é assim, as coisas costuma voltar ao normal por uma via ou por outra. Torçamos para que o fortalecimento do real seja mais expressivo do que a queda da bolsa.