Das cores escalafobéticas à pintura de artista

A arte de tornar chamativos carros nem tão exclusivos e outros para lá de exclusivos

— Que cor mais escalafobética!

Talvez você não tenha usado exatamente esse adjetivo, tão estranho quanto a tal cor. Mas certamente se valeu de algo semelhante para se expressar na mesma situação: que coisa mais esquisita, estrambólica, de mau gosto! Afinal, não tem quem não se surpreenda quando vê um modelo tinindo de novo em uma apresentação berrante, chamativa, fora do padrão, algumas fosforescente até. Ainda mais em uma frota tão — chamemos — serena, predominantemente branca-preta-prata, não importa o porte ou a configuração do carro.

Saiba que não tem nada por acaso, nem fora do lugar. O objetivo da marca ao lançar mão dessa estratégia, em especial em produtos de linha, que falam ao grande público, é justamente jogar luz sobre o modelo, marcar sua presença nas ruas. Ato contínuo, no ano seguinte o mesmo carro tende a não ser mais oferecido naquele traje, passando a adotar uma vestimenta mais comportada, digna de um carro de família, digamos…

Tal regra vale para esportivos, superesportivos, transgressores em sua proposta estética e para modelos de marcas top, top, top, com tiragem limitada. Nesses casos, exclusividades pouca é bobagem. Não basta o carro ser único; seu visual também tem que ter RG. E, em alguns casos, que RG…

Talvez o representante mais icônico, midiático e referenciado é a BMW M1, pintada por ninguém menos do que Andy Warhol, o mais cultuado protagonista da Pop Art, um dos maiores artistas visuais do século XX. Warhol precisou de menos de meia hora para criar a obra, com acabamento rústico e irregular, como queria, pouco antes de o bólido conquistar a segunda colocação em sua classe, durante as 24 Horas de Le Mans, em 1979 — feito que, por sinal, faz 40 anos em agosto; parabéns! Contrariando o veredicto do artista, de que, em um futuro próximo, todo mundo teria direito a pelo menos 15 minutos de fama, o M1 estilizado entrou para a história, das artes e automobilística, tornando-se referência no assunto.

Warhol não foi o único a pintar o sete sobre a lataria. Alexandre Calder foi um dos pioneiros na iniciativa, quando ilustrou uma BMW 3.0 CSL, dando origem ao conceito Art Cars, da BMW. Outro bam-bam-bam da Pop Art, Roy Lichtenstein, também aplicou traços no BMW Série 3 E21, assim como Keith Haring, que deixou sua marca no BMW Z1 — para ficarmos em modelos da montadora alemã, a que mais apostou na dobradinha carro e arte. Mas tais exemplos estão longe de serem os únicos. Janis Joplin foi dona de um Porsche 356 (1964) de visual psicodélico, pintado por não sabemos quem, que voltou a ganhar as manchetes lá em 2015, depois de ser leiloado pela Sotheby’s, em Nova York, por quase 2 milhões de dólares.

Até chegarmos aos dias de hoje…Em meados de agosto, a Lamborghini apresentou no badalado Monterey Car Week, na Califórnia, o superesportivo Aventador S, com o shape customizado por Skyler Gray, americano com apenas 19 anos, considerado a estrela em ascensão do mundo arte de rua, comparado a — adivinha quem??? — Andy Warhol e  Keith Haring…, além de outro peso-pesado da dita street art, Jean-Michel Basquiat. Chamado de “Fresh Prince of Street Art”, por sinal, Gray, cujo trabalho também é exposto em museus e feiras de arte internacionais, também apareceu na lista da Forbes, dos artistas mais influentes do mundo.

É…Quando entramos nessa safra de carros-grife assinadas, a expressão de espanto tende a ser mais clara, e nem precisa de sinônimos ou tradução:

— Ma che bella macchina!