Pesquisadores buscam ave desaparecida há 20 anos

Um grupo de pesquisadores do Observatório de Aves, do Instituto Butantan, está em meio a uma busca pela Calyptura cristata, que não é registrada há 20 anos

O tietê-de-coroa, nome popular da espécie Calyptura cristata, é uma ave de pequeno porte com plumagem verde e uma crista avermelhada margeada de preto. Pelo menos é assim que aparece na ilustração do ornitólogo inglês William Swainson (1789 – 1855).

Swainson esteve no Brasil em uma expedição em 1806, quando acompanhou o empresário português Henrique da Costa (1793 – 1820) e pôde admirar a bela ave. Hoje, isso está difícil. Tanto que um grupo de pesquisadores do Observatório de Aves – Instituto Butantan está em meio a uma expedição em busca da espécie, que não é registrada há 20 anos.

O último registro do tietê-de-coroa ocorreu em 27 de outubro de 1996, quando dois indivíduos foram encontrados pelo biólogo Ricardo Parrini e um grupo do Clube de Observadores de Aves (COA-RJ) em uma região conhecida como Garrafão, em Teresópolis.

A espécie é considerada uma das mais raras do mundo. É endêmica da Mata Atlântica, no Sudeste do Brasil, e está desde 1994 na lista de animais criticamente ameaçados de extinção da União Internacional para a Conservação da Natureza.

“Muitos acreditam que a Calyptura cristata esteja extinta e estamos dedicando esforços para procurá-la na área mais provável em que poderia ainda sobreviver na natureza”, disse Erika Hingst-Zaher, pesquisadora do Instituto Butantan e coordenadora do Observatório de Aves, à Agência FAPESP.

O roteiro de busca é baseado em duas expedições de 12 dias, sendo uma até 20 de outubro e outra no primeiro semestre de 2017. A ideia é fazer em diferentes estações do ano para aumentar as possibilidades de encontrar a ave.

“A Expedição Calyptura está sendo conduzida na região de Duas Barras, no Rio de Janeiro”, disse Hingst-Zaher. A análise dos dados levantados pelos pesquisadores indica que a região localizada entre a vertente interiorana da Serra do Mar e o rio Paraíba do Sul seria o local mais provável de ocorrência do pássaro. A região é uma das menos visitadas pelos ornitólogos e observadores de aves no Estado do Rio de Janeiro.

“No momento, são três equipes no campo e temos uma casa aberta para receber novos ornitólogos ou observadores que queiram se juntar à busca. Como resultado, estamos tendo uma enorme mobilização de pessoal, com novas adesões o tempo todo, já que a ideia é envolver muitas pessoas na busca e tornar a questão de conservação da avifauna ameaçada no Brasil mais presente na comunicação com o público”, disse Hingst-Zaher.

A expedição conta com o apoio da American Bird Conservancy, especialista em conservação de aves e dos seus habitats nas Américas, e do Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro. O projeto visa chamar a atenção para as espécies brasileiras ameaçadas de extinção, que representam 12% dos animais do mundo nessa categoria.

“O Brasil está entre os países com a maior riqueza de espécies do planeta. No entanto, esse patrimônio natural não vem sendo cuidado. O país é o líder mundial em aves ameaçadas de extinção, com 164 espécies, e 23 criticamente ameaçadas”, disse Luciano Lima, ornitólogo do Observatório de Aves e idealizador do projeto de busca do tietê-de-coroa.

Onda de extinção

Hingst-Zaher destaca que o principal objetivo do projeto vai além da busca da Calyptura cristata em particular.

“Em 2014, o governo brasileiro declarou extintas três espécies de aves, todas endêmicas da Floresta Atlântica. Esse fato não causou nenhuma repercussão na mídia, na comunidade científica ou no público geral. A busca pelo tietê-de-coroa é uma forma de lembrar as pessoas de que uma verdadeira onda está exterminando as espécies da Mata Atlântica, pois esquecer também é uma forma de extinção”, disse.

Segundo os pesquisadores do Butantan, a Calyptura cristata é considerada uma das espécies mais raras e enigmáticas do planeta por ornitólogos do mundo todo. A dificuldade para encontrá-la está relacionada à extensa perda e fragmentação de seu habitat.

“A criação de áreas protegidas visando resguardar os últimos refúgios onde habitam essas espécies é uma das ações básicas capazes de ajudar a evitar a sua extinção. Para algumas delas, no entanto, o desconhecimento é uma ameaça ainda maior. Existem espécies tão raras que nem sequer sabemos se ainda temos exemplares vivos ou se já estão extintas”, disse Lima.

Todas as espécies de aves encontradas durante a procura pela Calyptura cristata serão registradas no portal eBird, para produzir um panorama da fauna da região e de sua conservação.

O Observatório de Aves organiza o Encontro Brasileiro de Observação de Aves – Avistar Brasil, evento que foi realizado pela décima primeira vez em maio, com apoio da FAPESP.