O Pixel, por quem só usou iPhone

Sérgio Teixeira Jr., de Nova York

Antes de mais nada, uma ressalva:tenho pouca experiência com celulares Android. O pouco contato que tive foi mexendo em aparelhos de amigos. Uso iPhone desde 2007, e agora estou no meu sexto modelo, um iPhone 6 Plus comprado em 2014. Análises técnicas detalhadas você encontra aos montes na internet. Vou falar aqui da minha experiência com o Pixel, o novo celular do Google, da perspectiva de quem não passou nem um dia sequer dos últimos nove anos sem encostar num iPhone. Se estiver com pressa (ou com preguiça, ou faça parte das torcidas organizadas da iPhone ou do Android), adianto a resposta para a pergunta que me coloquei ao fazer este teste: eu trocaria o iPhone pelo Pixel?

Sim. Mas não vou trocar.

OK, não é exatamente uma resposta, admito. Não que eu esteja em cima do muro, então melhor ser um pouco mais claro. Não trocaria o iPhone por nenhum dos celulares Android que já experimentei. Os modelos mais novos da Samsung são bonitos e fazem tudo o que se espera de um smartphone (menos explodir). Mas o sistema operacional não é 100% Android. A Samsung e os outros fabricantes fazem pequenas modificações no sistema desenvolvido pelo Google e cedido livremente para quem quiser adotá-lo em seu hardware. Este é um ponto negativo: essas alterações podem ser pequenas, mas são desnecessárias e introduzem complicações desnecessárias.

Mas o mais importante é a comodidade. Nestes últimos nove anos, trocar de celular sempre foi uma moleza (tirando a parte do preço, é claro). É um conforto saber que, com uma simples atualização, o celular que você acabou de tirar da caixa vai ser absolutamente idêntico ao antigo: os mesmos aplicativos, no mesmo lugar, os mesmo contatos, as mesmas preferências etc. Sem falar nos hábitos condicionados, do movimento dos dedos pela tela às particularidades do seu sistema escolhido. Não é à toa que todas as empresas de tecnologia gostam de falar em “ecossistema”. Poderiam também chamar de prisão. Não tem guardas e os muros nem são tão altos assim, mas dá uma preguiça fugir…

É por pura comodidade que não troco meu iPhone por um Pixel, mesmo que a Apple já tenha lançado dois modelos mais novos. E isso, acredite, é um elogio e tanto. O Pixel, fabricado pela HTC de acordo com especificações do Google, é um celular excelente. Não encontrei nenhum dos pequenos defeitos que eu via nos outros Android. A rolagem da tela é suave como a do iPhone, um detalhe que pode parecer desimportante, mas que me deixava maluco ao mexer num Android. O Pixel responde rápido e a interface é bastante intuitiva. Depois de menos de um dia, já tinha entendido como navegar pelas funções e ajustes do aparelho como se o usasse há meses. Uma das explicações é a versão do Android instalada no Pixel: ela é 100% inalterada. O sistema é o mesmo desenvolvido pelos engenheiros em Mountain View, sem tirar nem por. Isso faz diferença na elegância e na performance.

De frente, o Pixel (estou testando a versão grande, o Pixel XL) é praticamente idêntico ao iPhone. A principal diferença visual é o sensor de digitais, que fica na parte de trás do smartphone do Google. Colocar o sensor nas costas do aparelho é uma ótima ideia. O indicador naturalmente procura o botão (que não verdade não é um botão, mas você me entende) e o celular acende imediatamente. Outra diferença são os controles de volume, que estão do lado direito. E, é claro, o Pixel ainda tem entrada para fone de ouvidos, ao contrário do iPhone 7, que usa o conector proprietário da Apple. Meu iPhone 6 também tem entrada para fone de ouvido, e sou um dos que choraram sua morte nos novos iPhones. Sei que existem adaptadores e que o futuro é sem fio, mas tenho uma coleção razoável de fones e a ideia de usar um adaptador não me agrada. De qualquer jeito, é assunto para outro dia.

Também não sou daqueles que acham que a câmera seja decisiva na hora de escolher o celular, mas aparentemente a câmera do Pixel é excelente. O material promocional da empresa destaca que a câmera recebeu nota 89 (de um total de 100) do site de análises técnicas DxOMark. Aos meus olhos, as fotos são muito boas, especialmente em situações de pouca luz. Certamente são melhores que as do meu iPhone 6 quando o ambiente está escuro, mas não posso comparar com os novos modelos da Apple.

Basta saber que as fotos terão qualidade de sobra para postar no Facebook e no Instagram, que é o que todo mundo faz com fotos de celular, certo? Ah, os vídeos também ficam muito bons, porque o Pixel tem um sistema de estabilização por software que reduz significativamente o tremor das mãos (e o enjôo de quem assiste). Se você exceder a capacidade de armazenagem do celular, o sistema automaticamente vai apagando as fotos e vídeos mais antigos – mas não se desespere. Tudo está copiado na nuvem, e o espaço de armazenamento do Google Photos é ilimitado para os usuários do Pixel. Esta é uma das novidades mais interessantes do aparelho.

A outra é o assistente inteligente do Google, o Google Assistant. Invocando as palavras mágicas “OK Google”, ou apertando o botão virtual na parte inferior da tela, o celular começa a te ouvir. Você pode fazer perguntas, pesquisas no Google ou dar comandos para abrir aplicativos, iniciar timers ou marcar alarmes. O assistente do Google – ou melhor, A assistente, pois a voz é feminina – dá um banho na Siri, da Apple. O Google é o maior coletor de informações do planeta, e isso faz toda a diferença para este tipo de software. Você pode perguntar, por exemplo, quanto tempo vai levar até determinado endereço. A resposta vai dar o tempo estimado de carro (ou de transporte público) e automaticamente abre o caminho no Google Maps. Você também pode perguntar qualquer coisa que perguntaria ao Google, como quantas calorias tem um filé de frango de 150 gramas (358), a idade de Hillary Clinton (69) ou a capital do Uzbequistão (Tashkent). Questões mais complexas em geral trazem um link do próprio Google. O software também está integrado com a agenda (Google Calendar) e permite que você agende ou consulte compromissos. O Google Assistant está em desenvolvimento permanente, e a ideia é que fique cada vez mais inteligente (e personalizado).

Os aplicativos do Google, obviamente, estão em seu habitat natural, e o Pixel vem com dezenas deles pré-instalados. Sou usuário do Gmail há 12 anos, mas preciso confessar que o melhor app de email é o Outlook, ele mesmo, da Microsoft. Funciona bem com os filtros de spam do Gmail e tem uma cara meio old school que me agrada. O Google Photos é excelente (uso também no iPhone), idem para mapas, agenda (calendário) e YouTube. Nem poderia ser diferente.

Quanto aos aplicativos em geral, bem, isso depende da preferência de cada um. A escolha dos apps que vão no celular é única como a impressão digital. Baixei e testei no Pixel cerca de dez dos aplicativos que mais uso. Confirmei o que já esperava: não há nenhuma diferença entre as duas plataformas – mas existem apps exclusivos para cada uma delas, portanto é importante conferir antes de se comprometer a trocar de lado. Também descobri que posso apagar a grande maioria dos apps do meu iPhone, pois a grande maioria só ocupa espaço.

Se você estiver insatisfeito com o iPhone ou quiser fazer um upgrade para o modelo mais novo e avançado que usa Android, não há como errar com o Pixel. Os avaliadores profissionais foram unânimes em afirmar que o Pixel é o melhor smartphone Android já produzido. A questão é que os brasileiros, por enquanto, só podem comprar o aparelho no exterior. O Pixel com 32 GB de armazenamento custa 855 dólares. O modelo maior, o Pixel XL, com 128 GB de armazenamento, sai por 1 140 dólares.