São Paulo - Quando criança, o bancário Márlon Jatahy tinha pesadelos frequentes. Em noites turbulentas, eram perseguições e mortes, numa rotina que durou dos 7 aos 10 anos. Certa vez, notou que seus pesadelos eram apenas sonhos e, melhor ainda, que poderiam ser controlados. “Sonhei que havia um assaltante me perseguindo em casa. Fugi para o sótão, acuado. Quando ele chegou, percebi que era um sonho. Virei o Hulk e com um murro fiz o bandido atravessar a janela”, diz Jatahy.

Hoje com 36 anos, Jatahy é o que os cientistas chamam de sonhador lúcido, nome dado às pessoas capazes de ter algum nível de consciência durante o sonho.

Além de entender que não estão acordadas, elas são capazes de atuar e até de mudar o roteiro de um sonho. Atentos a essa capacidade, neurocientistas e pesquisadores dedicados ao entendimento do cérebro humano veem nos sonhos lúcidos uma ferramenta para compreender em detalhes como atua a consciência.

O estudo desse tipo de sonho já aponta que é possível, por exemplo, encontrar respostas para problemas, superar pesadelos, depressão e até lidar melhor com memórias ruins, como as causadas por situações traumáticas.

A maior parte das pessoas tem pelo menos um rápido momento de lucidez em sonhos. Normalmente a reação natural é despertar. Um pequeno grupo tem sonhos lúcidos com mais frequência, até mais de uma vez por semana, de forma espontânea ou não.

Mas é possível aprender técnicas que podem aumentar a ocorrência, por meio de sugestões antes de dormir ou por um método de incubação, usado, por exemplo, para a resolução de problemas.

Antes de dominar os sonhos é preciso entender o que acontece com nosso corpo quando dormimos. O sono humano tem vários estágios e representa, em média, entre 25% e 33% do tempo de vida. Duas das principais fases são o sono profundo e o sono REM (sigla em inglês para Movimento Rápido dos Olhos).

É principalmente na fase REM que sonhamos. Ela acumula entre 20% e 25% do tempo que passamos dormindo. No sono profundo, os músculos relaxam, a temperatura corporal cai e a frequência cardiorrespiratória diminui. É o estágio de sono reparador.

Na fase REM, registrada após a sexta hora de sono, o cérebro trabalha em ritmo intenso, como quando estamos acordados. “Os sonhos são uma forma de atividade mental”, diz Rosa Hasan, neurofisiologista do Laboratório do Sono do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

Rosa explica que durante o sono profundo a área frontal do cérebro, responsável pela razão e pelo julgamento, realiza menos atividades. Por isso podemos fazer o que quisermos nos sonhos, já que há menos censura.

Um estudo recente feito na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, mostrou que os sonhos podem ajudar a apagar memórias dolorosas. Foram recrutadas 34 pessoas com idades entre 18 e 30 anos e divididas em dois grupos. Todas viram 150 imagens impactantes duas vezes, com intervalo de 12 horas, e foram submetidas a exames de ressonância magnética funcional enquanto observavam as fotos.

Esses exames são usados em estudos científicos para monitorar quais partes do cérebro são ativadas quando realiza uma determinada ação. O primeiro grupo, com 18 pessoas, dormiu entre as visualizações e teve seu sono monitorado por um eletroencefalograma. O segundo ficou acordado.

Os resultados mostraram que o grupo que dormiu sofreu menos com o impacto das imagens. Realizado pela equipe do neurocientista Matthew Walker, o estudo destaca que “a fisiologia do sono REM está associada a uma dissipação noturna da atividade da amígdala em resposta a uma experiência emocional prévia. Isso altera a conectividade funcional e reduz a emoção subjetiva no dia seguinte”. A amígdala é a parte do cérebro que controla as emoções. A pesquisa mostrou que os sonhos, no período REM, contribuem para a consolidação da memória e funcionam como uma terapia, especialmente para quem passou por situações traumáticas.

O conceito de sonhos lúcidos é antigo. Foi criado em 1917 pelo psiquiatra holandês Frederik van Eeden e por várias décadas as pesquisas foram escassas. Mas nos últimos anos elas se intensificaram e têm chegado a conclusões importantes.

Uma razão para o aumento está no uso de computadores potentes, essenciais para a análise de um grande volume de dados. “Antes os estudos sobre sonhos eram subjetivos, baseados no que o sonhador descrevia.

Com os sonhos lúcidos, eles se tornaram objetivos”, diz Sérgio Rolim, pesquisador do Instituto do Cérebro e do hospital da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, principal centro nacional de estudos de sonhos.

Para conduzir seus estudos, Rolim tem a ajuda de um programador, que cuida também da análise das estatísticas. Sem tecnologia seria impossível chegar a conclusões a partir de dados recolhidos por cerca de 30 eletrodos fixados principalmente na cabeça de voluntários. “Demoramos dois anos para chegar à versão final do nosso software”, diz Rolim. Para as análises, dois PCs parrudos rodam durante toda a noite.

Rolim está estudando as diferenças no padrão de ativação cerebral entre os sonhos lúcidos e os comuns. Os resultados preliminares da pesquisa indicaram que no sonho lúcido há uma ativação no lobo frontal do cérebro, o que explicaria a maior autoconsciência e o aumento do controle do tema do sonho. O lobo occipital também é ativado, o que poderia ser uma explicação para o fato de os sonhos lúcidos serem mais vívidos.

Os pesquisadores enfrentam algumas dificuldades. A primeira é a baixa quantidade de pessoas com alta freqüência de sonhos lúcidos. Os voluntários precisam se dispor a dormir algumas noites no laboratório, com eletrodos que registram o movimento das ondas cerebrais.

Outro problema comum é a identificação de que a pessoa está tendo um sonho lúcido. O método usado hoje foi criado pelo psicólogo americano Stephen LaBerge, em 1978. Pela técnica, pesquisadores e voluntários combinam movimentos com os olhos para marcar a ocorrência de um sonho lúcido. Isso porque no sono REM o olho faz pequenos movimentos involuntários.

Sérgio Rolim usa uma sequência de três movimentos do olho, para a direita e para a esquerda. “Colocamos eletrodos próximos ao olho, mas em alguns casos é difícil diferenciar o movimento pré-combinado”, diz. Ele espera alguns minutos no sono REM e acorda a pessoa. Se ela confirmar que estava num sonho lúcido e que fez os movimentos, os dados são computados.

Além dos motivos terapêuticos e científicos, os pesquisadores estão interessados em outras razões para os estudos. Uma delas é a realização de uma espécie de terapia em que os sonhadores podem fazer o que quiserem, como voar, ter relações sexuais, encontrar pessoas. Outras são o estímulo ao autoconhecimento e a simulação de ações num ambiente seguro.

“A lucidez nos sonhos traz um nível de meditação e outro ponto de vista sobre a vida. Aplico isso desde meu primeiro sonho lúcido”, diz Felipe Santos, 22 anos, promotor de vendas, que tem esse tipo de sonho há um ano e meio.

Enquanto alguns pesquisadores tentam mostrar de forma objetiva o que se passa em nossos sonhos, outros usam a psicanálise para interpretá-los, ajudando em processos de terapia. Sigmund Freud, o pai da psicanálise, defendia que os sonhos expressam desejos reprimidos e impulsos agressivos, atribuindo a eles um caráter simbólico.

O psiquiatra Victor Dias, professor da Universidade de São Paulo e fundador da Escola Paulista de Psicodrama, trabalha com a decodificação dos sonhos de seus pacientes. Segundo ele, as pessoas formam um baú mental de emoções reprimidas, lugar de onde saem os sonhos.

Entre os vários tipos de sonhos estão os de reparação, que ajudam a consertar uma situação. O psiquiatra cita como exemplo o caso de uma paciente fumante, que deixou o cigarro algumas semanas depois de um sonho em que pedia para uma moça não fumar dentro de um elevador lotado.

Mas como uma reparação no sonho surte efeito na vida real? “Isso vem sendo explicado por descobertas da neurociência com os neurônios-espelho”, afirma Dias. Esses neurônios são conhecidos por imitar uma determinada atitude. Eles seriam capazes de replicar até mesmo o que se passa em nossos sonhos.

O próximo passo dos estudos de Sérgio Rolim no Instituto de Cérebro em Natal será a tentativa de induzir sonhos lúcidos em laboratório, usando duas técnicas: a estimulação magnética transcraniana (TMS) e a estimulação transcraniana por corrente direta (tDCS). Ele quer colocar pequenos eletrodos na região frontal da cabeça dos sonhadores voluntários para comprovar se é possível induzir os sonhos lúcidos durante o sono REM.

Enquanto essa indução ainda é projeto, o bancário Márlon Jatahy, que mantém um blog sobre o tema, faz planos para seus próximos sonhos lúcidos: “Quero testar minha memória, voltando até a casa onde morei quando tinha 3 anos”. Imaginação é algo que não falta.

Tópicos: Ciência, Neurociência, Pesquisas