Uma distância de 55 passos separa o prédio onde mora Thiago Martins de uma casa de câmbio que negocia dólares e euros, no centro de SãoPaulo. Mas o analista de sistemas de 33 anos não tem interesse em trocar real por essas moedas. Sua obsessão é o bitcoin, um tipo de dinheiro digital produzido por milhares de computadores espalhados pelo planeta, a um ritmo aproximado de 25 unidades a cada dez minutos.

Como um corretor de ações, Martins passa horas de olho em dois monitores, comprando e vendendo a moeda virtual ou negociando com outros entusiastas. Nem sempre dá certo.

Martins investiu boa parte de seus bitcoins em um fundo que não era regulado por nenhum banco ou autoridade monetária, que prometia juros de até 12% ao mês. Tudo parecia bem até que, no fim de março, uma falha no software do fundo teria permitido que criminosos virtuais roubassem tudo.

Alguns dias depois, o valor da moeda bateu em 266 dólares. Martins perdeu pouco mais de 1 milhão de reais, o equivalente a 2,1 mil bitcoins desaparecidos. O responsável pelo fundo prometeu devolver a quantia em dinheiro tradicional, com a cotação do dia do incidente. Se isso acontecer, Martins receberá 378 mil reais e provavelmente converterá tudo em bitcoins novamente.“Até o fim do ano, ganho outro milhão”, afirma Martins.

Engana-se quem imagina que o bitcoin está restrito a um nicho formado por programadores e entusiastas de tecnologia. A moeda vem ganhando popularidade e começou a chamar a atenção de grandes investidores. Entre os que acreditam no seu potencial estão os gêmeos Tyler e Cameron Winklevoss, que ficaram famosos ao processar Mark Zuckerberg, acusando-o de plagiar sua ideia para criar o Facebook.

Os irmãos teriam uma quantia de bitcoins equivalente a 11 milhões de dólares, segundo o jornal The New York Times. Para garantir que não serão roubados, eles guardam as chaves de segurança em pen drives depositados em cofres de três bancos.

Apesar do risco, nenhum prejuízo tira o ânimo de Thiago Martins, que é também um dos principais defensores da moeda digital no Brasil. Ele descobriu o bitcoin em junho de 2011, lendo um artigo sobre o WikiLeaks. A organização começou a aceitar doações na moeda virtual quando teve as contas bloqueadas. Outra reportagem mostrava que esse seria o dinheiro do futuro.

“Não concordo com o sistema em que vivemos. A Casa da Moeda imprime dinheiro como fazem os americanos, que jogam dólares na economia e aumentam o teto da dívida. Sinto que isso está errado. O bitcoin não é controlado por nenhum governo ou banco. É um sistema paralelo, extremament avançado e sólido, diz.

Mas, afinal, como está estruturada essa moeda virtual? Como ela funciona? A estrutura do bitcoin está descentralizada em uma vasta rede de computadores mantidos por entusiastas, que produzem novas moedas e também verificam e regis­ tram todas as transações financeiras, que são criptografadas e anônimas.

O modelo é similar ao das redes P2P, usadas para compartilhamento de arquivos na internet. Por isso, controlar a moeda virtual, como fazem os bancos centrais com a moeda real, é muito difícil. Há uma teoria que prevê que, quando mais de 50% do poder computacional da rede estiver nas mãos de uma mesma organização, o bitcoin poderá ser manipulado. Como o número de computadores cresce sempre, essa possibilidade é bastante remota.

Os que não querem que seu dinheiro seja controlado pelo governo ou por bancos veem na moeda virtual uma alternativa e uma proteção. O bitcoin foi criado por um desenvolvedor misterioso, chamado Satoshi Nakamoto, em 2008, logo depois da crise financeira que atingiu os Estados Unidos.

Sua ideia era montar um sistema que permitisse transferências, depó­ sitos e pagamentos online entre pontos diferentes do planeta, de forma rápida, descomplicada e anônima, sem intermediários. A moeda precisaria adotar um altíssimo padrão de segurança e uma estrutura capaz de resistir a turbulências econômicas ou à quebra de instituições financeiras.

Nakamoto conseguiu. Até hoje ninguém falsificou bitcoins. O que mantém o funcionamento da moeda virtual são os “mineradores”, versões modernas das pessoas que garimpavam ouro. Computadores integrados à rede por meio de um software competem entre si, resolvendo complicados problemas matemáticos. Aqueles que encontram a solução primeiro recebem um bloco de bitcoins.

Isso acontece a cada dez minutos, e a dificuldade aumenta com o tempo. Na primeira fase do bitcoin, cada bloco rendia 50 moedas virtuais. A cada 210 mil blocos minerados, a recompensa diminui pela metade. Desde dezembro, caiu para 25 bitcoins. Dentro de quatro anos serão 12,5 bitcoins. E assim sucessivamente, até 2140, quando o último bloco será minerado.

O software definiu que o número de bitcoins em circulação chegará a no máximo 21 milhões de unidades. Como havia pouca gente minerando no início, conseguir a moeda era moleza. A primeira transação feita com a moeda teria sido a compra de duas pizzas, por 10 mil bitcoins, equivalentes na época a pouco mais de 25 dólares. Em valores atuais, seriam as pizzas mais caras do planeta: 2 milhões de dólares, na cotação mais alta.

Até 2010, qualquer um podia colocar o computador de casa para trabalhar e, com isso, conseguir um punhado de dinheiro digital. Isso é impraticável hoje, mesmo com máqui­ nas de última geração. A disputa pelos blocos aumentou tanto que surgiram computadores com hardware dedicado a minerar, como o Avalon ASIC. Competir com eles só vale a pena em lugares em que a energia elétrica é muito barata, o que não é o caso do Brasil, porque é necessário que o computador fique ligado dia e noite.

A rede de mineradores também assegura que ninguém possa gastar o mesmo bitcoin duas vezes. Isso é feito por meio do registro de todas as transações feitas com a moeda. Cada pessoa tem uma carteira digital identificada por um endereço de 34 caracteres, que armazena os bitcoins. Para fazer uma transação, basta indicar o destinatário e definir a quantia a ser enviada.

Uma chave privada de criptografia funciona como senha para liberar os recursos. Ao apertar um botão, os bitcoins são transferidos e a operação fica registrada. Se alguém tentar repeti-la, o programa verá nos registros públicos que os bitcoins já foram usados e impedirá a transação. Os mineradores recebem uma pequena fração de bitcoins como prêmio.

Como os endereços dessas carteiras não contêm dados pessoais, as movimentações ocorrem de forma anônima. Dá para saber que 10 bitcoins saíram do endereço A e foram para o B e o dia e a hora que isso aconteceu, mas não é possível saber quem são os envolvidos. A garantia do anonimato tem a vantagem de permitir que entidades como o WikiLeaks, bloqueadas pelo sistema financeiro, recebam doações.

Também não existe forma de anular uma transação. Essas duas características são responsáveis por boa parte das polêmicas que envolvem a moeda virtual. Um aspecto negativo é o fato de facilitar o uso para lavagem de dinheiro por criminosos ou para a venda de drogas na web, em sites obscuros como o Silk Road. Os defensores do bitcoin argumentam que qualquer moeda pode servir a atividades ilícitas.

O impedimento de reverter transações torna o bitcoin atraente para crackers, que podem invadir um computador, capturar a carteira e enviar seu conteúdo para outro endereço. Como tudo ocorre anonimamente, rastrear o autor do furto é difícil.

“Não recomendo o bitcoin para quem não entende muito de tecnologia. A pessoa está sozinha contra todos os crackers do planeta. Quando cometer um erro, vai ser atacada”, diz o programador Tiago Ruick Caveden, 29 anos, um dos primeiros brasileiros a usar bitcoins. Segundo ele, aumentar a segurança é um passo importante para popularizar a moeda.

A falta de medidas adicionais de proteção não tem impedido o bitcoin de conseguir adeptos. O interesse pela moeda explodiu nos últimos dois meses. No início de fevereiro, 1 bitcoin custava 20 dólares. Um mês depois, a moeda teve alta de 50% e atingiu 30 dólares. O valor continuou a subir até chegar ao recorde de 266 dólares, em 10 de abril. Horas depois, o preço caiu para cerca de 100 dólares.

A moeda virtual não despencou por causa de ataque de crackers. O serviço mais usado para negociar bitcoins, o Mt.Gox, não suportou a demanda. Como as transações não eram concluídas, muitos venderam o que tinham, temendo o estouro de uma bolha. Entre as hipóteses para o repentino aumento de interesse está a recente crise em Chipre. Com a quebra do segundo maior banco do país europeu, o governo ameaçou confiscar parte do dinheiro dos correntistas. O perigo teria levado à compra de bitcoins.

Na Argentina, o aumento da inflação e a proibição de comprar dólares levou muita gente para o bitcoin. Um dos principais serviços americanos que negociam o dinheiro digital, o TradeHill, quer instalar um escritório no país. A versão portenha do Mercado Livre tem vendedores que aceitam bitcoins. Entre as ofertas está um apartamento em Caseros, na Grande Buenos Aires, avaliado em 815 bitcoins, considerando a cotação de 100 dólares pela unidade da moeda.

Convencido de que a moeda virtual pode se tornar ferramenta de mudança política, Hamilton Rodrigo Amorim aplica toda a sua renda no bitcoin. “O sistema vai ajudar as pessoas a com­ preender a economia e a melhorar a sociedade”, diz Amorim, analista de sistemas e ativista de 34 anos que vive em Belo Horizonte (MG). Amorim transforma o dinheiro digital em real só quando precisa pagar as contas. No mês passado, deu entrada de 4 470 reais em um Fiat Palio, quantia que obteve com o lucro em operações de compra e venda de bitcoins. “Quem entra no bitcoin percebe que a cada dia o dólar ou o real valem menos”, diz.

Como são produzidos em ritmo constante, mas em quantidade limitada e finita, os bitcoins tendem a ganhar va­ lor em relação ao dinheiro tradicional. A evolução histórica da moeda mostra isso. No início, os bitcoins eram vendi­ dos por centavos de dólar. Hoje, o pre­ ço varia de muitas dezenas a algumas centenas de dólares.

Quem investe na moeda tem esperança que o processo continue, com a chegada de mais adeptos. Críticos dizem que pode haver uma bolha prestes a estourar ou que tudo não passa de um grande golpe de Satoshi Nakamoto.

Mas o bitcoin já tem quatro anos e ainda não deu sinais de que vai acabar. Isso não quer dizer que o dinheiro virtual dará certo e se tornará referência mundial. Como se trata de uma moeda deflacionária, o bitcoin pode frear o crescimento da economia sempre que seu valor subir.

Em vez de gastar, as pessoas vão preferir poupar, pois amanhã uma unidade poderá valer muito mais. Isso teria o potencial de provocar recessão em larga escala. Outras moedas criptografadas que trazem aprimoramentos também co­ meçaram a surgir. Nada impede que uma delas tome o lugar do bitcoin.

Mas a moeda virtual ganhou um apoio inesperado em março. A Rede de Combate a Crimes Financeiros (FinCen), do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, publicou regula­ mentação para os serviços que fazem negociações com a moeda. As empre­ sas terão de denunciar operações suspeitas. Isso foi interpretado como uma legalização informal do bitcoin e uma indicação de que as transações não serão proibidas pelo governo.

Isso seria motivo de comemoração para o criador da moeda virtual, Satoshi Nakamoto. Mas ele está desaparecido desde abril de 2011, quando escreveu uma mensagem para Gavin Andresen, um dos principais desenvolvedores do software usado pelo bitcoin, informando que cuidaria de outros assuntos. Nakamoto afirma ser japonês. Fala inglês bem e tem um conhecimento técnico acima da média. Nunca ninguém o viu ou conversou pessoalmente com ele.

O criador do bitcoin tornou­se conhecido em 1º de novembro de 2008, quando publicou o conceito da moeda virtual em uma lista de discussão sobre criptografia. Em ja­neiro de 2009, minerou o primeiro bloco de 50 bitcoins. Em dois anos, escreveu 575 posts no Bitcoin Forum. Depois sumiu. Suspeita­se que Nakamoto seja o pseudônimo de um gênio ou de um grupo que minerou 1 milhão em bitcoins. Se a moeda seguir o destino planejado, seu criador vai se tornar um dos homens mais ricos do mundo.

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