Austin, Texas - Nas muitas apresentações sobre robótica do South by Southwest Interactive, o maior evento de tecnologia dos Estados Unidos, que acontece em Austin (Texas), inevitavelmente aparece um slide com o andróide assassino dos filmes “O Exterminador do Futuro”.

O comentário que acompanha a imagem costuma ser sempre o mesmo: não, os robôs do futuro não vão tentar dominar a raça humana, e não, eles provavelmente não serão nada parecidos com o que vemos nos filmes de Hollywood.

Eles provavelmente vão executar muitas tarefas hoje desempenhadas por humanos, mas também também criarão novos tipos de empregos.

Quando isso tudo vai acontecer, porém, ninguém se arrisca a dizer.

Apesar da enorme visibilidade dos robôs na fabricação de automóveis, 90% das tarefas da manufatura ainda não foram automatizadas, diz Jim Lawton, executivo responsável pelos produtos e pelo marketing da Rethink Robotics, uma empresa americana que produz robôs para a indústria e que foi fundada no começo da década.

Desafios

Existem três desafios essenciais para que os robôs sejam uma presença importante na indústria além das montadoras, diz Lawton.

Primeiro, os robôs têm se adaptar ao ambiente existente nas fábricas de hoje, e não o contrário. Muitas vezes os projetos de automatização não se justificam economicamente porque as plantas têm de passar por alterações muito custosas.

Segundo, muitos robôs não podem operar perto de humanos. “Os robôs das montadoras ficam dentro de jaulas, pois são perigosos. Precisamos de robôs que se adaptem às imperfeições e variações que acontecem no dia a dia de uma fábrica”, afirma Lawton.

Ele mostrou como exemplo um vídeo recente da Boston Dynamics, empresa comprada pelo Google. O vídeo já foi visto mais de 14 milhões de vezes e, mas redes sociais, costuma ser mencionado como prenúncio de um futuro distópico.

Lawton tem outra opinião. O robô da Boston Dynamics entende onde estão os objetos e responde a estímulos externos – condições necessárias para que eles possam dividir espaço com os humanos com segurança.

O segundo ponto levantado por Lawton foi a inteligência artificial – e, neste caso, há mais avanços do que muitos suspeitam. Ele mostrou a foto de um dos modelos mais recentes da Mercedes Benz.

O carro enxerga objetos nos pontos cegos do motorista, freia sozinho, ajuda o motorista a enxergar à noite e detecta os pedestres próximos. “Isso é também um robô”, disse Lawton.

Essas tecnologias terão impacto profundo na mobilidade e na independência de pessoas mais velhas, por exemplo. E essa “inteligência” vai ser aprimorada constantemente.

Os enormes e complexos sistemas de inteligência artificial estarão na nuvem. Basta conectar o carro ou o robô da fábrica a um sistema do Google, por exemplo, para aumentar o QI da máquina.

O último obstáculo que tem de ser superado pela tecnologia é o da programação, ou talvez do aprendizado.

Os robôs usados pelas montadoras só podem ser programados por pessoas extremamente especializadas. Quem interage com eles no dia-a-dia não tem condições de fazê-lo.

“Quando eu era criança, aprendi a fazer crochê com a minha avó. Ela não me deu um manual nem ficou passando instruções detalhadas: eu apenas observei.” A próxima geração de robôs vai aprender da mesma maneira: observando, tentando e errando até aprender.

Outra caracterísica dos robôs do futuro, diz Lawton, está na cara – bem, no que pode ser chamado de cara. O Baxter, um dos produtos da empresa, tem uma tela com dois olhos desenhados.

A companhia tentou várias possibilidades, desde um rosto de um humano até um modelo em coputação gráfica, mas os olhos desenhados tiveram a melhor resposta das pessoas que convivem com o robô durante o turno de trabalho.

Diminuir a distância e a rejeição que as máquinas suscitam nos humanos não é uma questão trivial, diz Lawton.

Empregos

Não há dúvidas de que os robôs vão roubar empregos, diz Karen Kerr, responsável por investimentos em empresas de robótica da GE Ventures, o braço de capital de risco da empresa americana.

“Eles vão fazer tudo o que chamamos de os 5 ‘Ds’: dirty, dangerous, difficult, dull and distant (sujo, difícil, perigoso, maçante e distante)”, afirma Kerr.

Mas ela tem uma visão bem menos pessimista a respeito do impacto da tecnologia no emprego. Kerr mencionou uma pesquisa da consultoria Deloitte que indica que em 2020 haverá 2 milhões de empregos vagos na manufatura.

“Em algumas fábricas, 25% dos funcionários não passam mais de um mês no emprego”, afirmou Lawton. A idade média de quem trabalha numa fábrica é de 56 anos, e está cada vez mais difícil encontrar jovens dispostos a aceitar esse tipo de ocupação.

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