Austin (Texas, EUA) — Barack Obama subiu ao palco sem gravata, sorrindo e fazendo piadas sobre os tacos que tinha acabado de comer, antes de falar na abertura do South by Southwest Interactive.

Obama sabia que todo seu charme e carisma seriam necessários no maior evento do setor de tecnologia dos Estados Unidos, afinal de contas um dos assuntos mais quentes no mundo da tecnologia é a disputa entre o FBI e a Apple – a polícia federal americana quer que a empresa mude seu software para ter acesso ao iPhone de um dos suspeitos dos atentados, o que a Apple se recusa a fazer.

Embora tenha tentado apresentar uma posição matizada, Obama na prática defendeu o acesso a informações protegidas por criptografia. “Estamos fetichizando nossos telefones em detrimento de outros valores”, disse Obama.

Obama não se referiu diretamente à queda de braço com a Apple, mas falou em termos genéricos sobre o conflito entre liberdades individuais e segurança nacional.

“Se criarmos um sistema [de segurança] impenetrável, sem chaves, sem portas, como vamos prender [quem distribui] pornografia infantil, como vamos frustrar ataques terroristas? Que mecanismos temos até mesmo para garantir o recolhimento de impostos? Se não há como violar [a criptografia], se o governo não puder entrar, então todo mundo anda por aí com uma conta de banco suíço no bolso, certo? Tem de haver algum tipo de concessão.”

Obama lembrou a platéia do auditório, escolhida por sorteio entre os mais de 35 000 inscritos do evento, que, com mandados judiciais, a polícia pode fazer buscas nas casas de suspeitos e “fuçar na gaveta de roupas íntimas em busca de provas de crimes” e que isso já era permitido muito antes da invenção dos smartphones.

O presidente também fez duas outras ressalvas. Primeiro, afirmou que as denúncias do ex-funcionário terceirizado da Agência de Segurança Nacional Edward Snowden, aumentaram as suspeitas das pessoas, mas que o governo americano sempre teve muito cuidado ao investigar seus próprios cidadãos.

O presidente americano também afirmou que não é engenheiro de software e que o governo está trabalhando com especialistas em busca de uma solução. Obama defendeu a criação de um sistema de criptografia “robusto, que seja acessível para o menor número de pessoas possível para um pequeno número de situações que concordemos que sejam importantes”.

“Não podemos ter uma visão absolutista a esse respeito”, disse Obama. “Se você acredita que a criptografia deva ser robusta [e impenetrável], que podemos e devemos criar caixas-pretas, isso não é o equilíbrio com o qual convivemos há 200 ou 300 anos.”

Mas esse é exatamente o problema: as empresas de tecnologia afirmam que qualquer tipo de “porta de entrada”, mesmo que chave esteja nas mãos de poucas pessoas de confiança, cria brechas de segurança que podem vir a ser exploradas por hackers, governos inimigos. E, é claro, governos amigos.

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