Atual líder no mercado de placas de vídeo, a Nvidia conta com um pequeno escritório no Brasil. Mas isso pode mudar em breve, segundo o diretor sênior de engenharia da empresa Rev Lebaredian. No país pela primeira vez, o norte-americano – que também é o responsável por mediar o relacionamento da companhia com desenvolvedores de jogos – concedeu entrevista a INFO.

No bate-papo, falou não só das expectativas da fabricante de hardware em relação ao mercado brasileiro de games, como também do futuro da Nvidia e da próxima geração de consoles de mesa – que para ele, pode ser a última. Acompanhe.

Como você vê o desenvolvimento de games no Brasil?

Bem, eu ainda não tenho certeza, e é justamente por isso que estou aqui. Eu quero ver como está o desenvolvimento de games no Brasil. É a primeira vez que todo o nosso grupo responsável por criação de conteúdo e tecnologia visita o país. Já estávamos observando de longe há alguns poucos anos, mas parece que agora as coisas estão começando a acontecer por aqui.

Então, talvez nós possamos vir e colaborar com algo para a cena de desenvolvedores, para ajudá-los a crescer. Parece o ponto certo para uma atuação mais forte da Nvidia na região. Já temos um escritório no país há cerca de um ano, e ele crescerá – e não só para englobar nossos negócios em games, que são o “núcleo” da empresa.

E quais as suas expectativas para o mercado brasileiro de jogos?

Eu gostaria de ver, assim como vimos em algumas outras regiões, como a China, games desenvolvidos no Brasil e para o Brasil. A cultura daqui é muito única, e faz sentido que um desenvolvedor brasileiro seja capaz de focar nos aspectos que seus conterrâneos gostam e crie algo único para eles, e potencialmente o exporte. O país aqui me lembra de outras regiões, talvez de dez anos atrás. Mas calma! Isso não significa que vocês demorarão dez anos para alcançá-las. Se partes suficientes estiverem interessadas o bastante, com a ajuda das tecnologias disponíveis hoje, creio que será muito mais fácil “chegar” no resto mundo do que era algum tempo atrás.

E de que forma vocês esperam contribuir com o desenvolvimento de games por aqui?

A ideia é usar a política já usada pelo meu grupo, de Content & Technology (conteúdo e tecnologia). Ele é formado por centenas de pessoas, e, na prática, não fazemos nenhum dinheiro – apenas custamos muito para a Nvidia. Nosso trabalho é lidar com desenvolvedores de games, para ajudá-los a melhorar a experiência para o usuário final, empurrando a tecnologia para frente – de forma que as pessoas queiram comprá-la no fim das contas. Mas isso custa muito. Ainda assim, demos sorte com o que fazemos – criamos um bom relacionamento com muitos desenvolvedores ao redor do mundo, que nos ajudam na medida que nós os ajudamos.

Nós colaboramos para o crescimento deles, tornando os games que fazem melhores, fazendo com que mais jogadores os queiram – e esses mesmos jogadores vão querer jogar com nosso hardware, para obter a melhor experiência possível. É um “círculo vicioso”, e nós queremos fazê-lo acontecer no Brasil, aproveitando o crescimento do mercado brasileiro, mas também o ajudando a crescer.

Falando na relação de vocês com os desenvolvedores, como você vê o fato de que todos os consoles da próxima geração serão equipados com chips da AMD? De que forma isso vai afetar a Nvidia?

Bem, nós conversamos com os todos os produtores mais de uma vez, mas a oferta que eles fizeram não tinha muito sentido, financeiramente falando. A AMD estava mais disposta a aceitar um acordo pouco favorável do que nós. A isso, soma-se o fato de que nós temos não apenas nosso negócio com GPUs (unidades de processamento gráfico), mas também o mobile. Nós enxergamos os games expandindo para bem além do que eles eram no passado.

Os consoles serão uma parte uma parte do futuro, mas nós já temos os PCs no topo e o mobile no fim da fila, com os “videogames de mesa” sendo espremidos pelos dois agora. Fora que não está tão claro hoje se teremos uma próxima geração de consoles, e nem se esta atual [do PS4 e do Xbox One] vai durar tanto quanto a anterior [do PS3 e do X360]. Daqui oito anos, um PS4 vai parecer bem decepcionante frente a um computador – e já está até nascendo em desvantagem, com duas vezes e meia menos “poder de fogo” que um PC “top” de hoje em dia. E o ponto positivo dos consoles, que são os títulos first-party, exclusivos, é limitado. Assim como há franquias que hoje são exclusivas dos aparelhos de mesa, existem outras enormes que são voltadas para os computadores.

Já que estamos falando de futuro, como você vê a iniciativa da Valve, com uma mistura de console de “sala de estar” e PCs inicialmente baseados em GPUs da Nvidia? Estariam vocês preparados para um computador todo baseado em Linux?

Acho que será ótimo para dar aos usuários mais escolhas. É muito melhor do que ter apenas dois ou três consoles. Eu, pessoalmente, prefiro jogar no PC, mas tenho os tais “videogames de sala de estar” também, embora não os jogue muito – especialmente hoje em dia. Gostaria muito de pegar meu computador e usá-lo ligado à TV, mas ao mesmo tempo não quero colocar o PC ao lado da televisão, na sala. Então as Steam Machines são uma boa mistura – você tem o “feeling” de um console, mas pode atualizá-lo. Daqui um ano e meio, posso comprar um novo ou melhorar as configurações na mão, algo que não dá para fazer com um PS4 ou um Xbox One – que serão os mesmos videogames agora e em cinco anos.

E quanto ao nosso preparo, nossos drivers de Linux hoje são os melhores se você comparar com os da concorrência. Mas ainda não conseguimos fazer no OpenGL o mesmo que fazemos com o DirectX, que é otimizar os jogos ao máximo, usando versões pré-lançamento para testar e otimizar o desempenho. Muito disso se deve ao fato de que a maioria dos games ainda está no Windows. Só precisamos de mais games no Linux para tornar a coisa ainda mais equilibrada. E como a Valve está trabalhando para “importar” a biblioteca do Steam para o sistema, creio que isso será ótimo para a comunidade.

Você diz que as Steam Machines serão boas para os usuários, mas e para os desenvolvedores?

Sei que o Steam tem sido ótimo para os desenvolvedores. Falo muito com eles, e muitos que eu sei que também trabalham com consoles têm falado da parcela de dinheiro que vem da plataforma da Valve – em alguns casos, ela supera o que eles ganham com os aparelhos de mesa. Os desenvolvedores gostam das restrições menores impostas ali. Por alguns bons motivos, Microsoft e Sony são bem restritivas quanto ao que pode ser publicado no Xbox e no PlayStation, e você tem que correr atrás de certificados e de qualificações para poder colocar o que quiser nas duas plataformas. No Steam, é mais fácil – se você precisa publicar um update, basta fazê-lo. É muito mais aberto. Se as pessoas adquirirem uma Steam Machine – e há mercado para isso, garanto –, essa facilidade será transportada para a sala de estar. Mas a questão é: será que muitas pessoas de fato comprarão Steam Machines? O mercado será grande o suficiente para que os desenvolvedores possam “mirar” nele?

Você mencionou que o lado mobile também estaria “espremendo” os consoles. Mas o quão grande é ele hoje? E como a Nvidia pretende evoluir dentro dele?

O mercado mobile é atualmente o que cresce mais rápido. Temos investido nele por muitos e muitos anos, e ele não dá sinais de que vai parar tão cedo de crescer. Há algum tempo, fizemos uma grande aposta, que foi “fundir” nosso grupo de mobile com o de desktops. A GPU que está no Tegra 4 é totalmente diferente da que está no PC hoje. As arquiteturas são fundamentalmente diferentes, assim como os recursos. Mas isso só fazia sentido quando o Tegra foi lançado, e os games eram bem mais simples, estilo Angry Birds. Mas o tempo os deixou mais complexos, cada vez mais parecidos com os de consoles.

Então, nosso próximo chip, de codinome Logan, ou Tegra 5, tem um núcleo de GPU idêntico ao das nossos GPUs de PC – Kepler. Será compatível com DirectX 11, OpenGL 4.3. É essencialmente um PC mais fraco, mas já terá 1/16 da força de uma GeForce 680GT e estará próxima a um Xbox 360. Olhando para a curva de crescimento, não levará muito tempo para que os chips de aparelhos móveis superem os consoles e comecem a chegar perto da próxima geração deles. E considerando que você pode conectar os smartphones e tablets na sua TV ou até carregar no bolso, isso abre uma série de novas oportunidades.

A capacidade dos chips para dispositivos mobile então será enorme. Mas fica a velha pergunta: quando começaremos a ver mais títulos AAA nos smartphones?

Não acho que seja possível fazer uma previsão exata disso, mas se você olhar para todos os grandes estúdios, todos têm uma estratégia envolvendo mobile hoje. Há alguns anos, todos eles tinham um grupo separado cuidando dessa área, mas sempre pensando em fazer um novo sucesso como Angry Birds. Atualmente, você tem os grandes nomes dos títulos AAA pensando sobre mobile, mesmo que para a criação de “companion apps” (“apps ajudantes”). Então não acho que levará muito tempo para vermos títulos de grande porte para plataformas móveis, mas dá para fazer uma previsão exata. O que dá para acreditar é que algo como o Tegra 5 – que usa a mesma arquitetura de GPU dos PCs nos smartphones – ajude a acelerar isso, diminuindo as barreiras entre uma plataforma e outra.

Tópicos: Entrevistas, Games, Tecnologia