Ashkhabad - Quando a turcomena Selbi Dzhafarova quis comprar um carro de brinquedo para dar ao filho de aniversário, ele caiu em prantos. "Ele nos pediu um computador no lugar do carro", contou.

O pedido de Arsan, seu filho de 9 anos, não era muito diferente do de meninos do resto do mundo, exceto pelo fato de que ele vive na hermética ex-república soviética do Turcomenistão, onde o acesso à internet foi banida para a maioria dos usuários privados até alguns poucos anos atrás.

"Tivemos que comprar", contou Dzhafarova à AFP, enquanto fazia compras em um mercado da capital, Ashgabat. A necessidade de um computador "é atualmente uma realidade cotidiana e não o capricho de uma criança", afirmou.

Rico em energia, o Turcomenistão, país da Ásia Central que faz fronteira com o Afeganistão e o Irã, foi por quatro décadas governado pelo ditador Saparmurat Niyazov, mais lembrado pelo culto à sua personalidade bizarra, com estátuas de ouro, um livro próprio de Filosofia e grande suspeita com relação ao ciberespaço.

Sob o regime de Niyazov, que alegava que as novidades do Ocidente eram "alheias à mentalidade do nosso povo", apenas algumas instalações, como empresas ocidentais, algumas universidades e hotéis eram conectadas à internet.

Após a sua morte, em 2007, o país tomou passos cuidadosos para desmontar seu legado. Os dois primeiros cibercafés abriram em Ashgabat dois dias depois da posse do novo presidente, Gurbanguly Berdymukhamedov.

Logo, novos cibercafés abriram também, cada um adornado com uma foto do novo líder, enquanto escolas e universidades começaram a receber computadores.

No próximo 1º de setembro, as crianças que vão começar a estudar no ensino fundamental em todo o país devem receber mais de 190.000 netbooks Lenovo do Ministério da Educação por ordem do presidente.

"Nossa experiência de dar aulas com o uso de assistentes digitais demonstrou aumentar significativamente o interesse dos nossos cidadãos nos estudos", disse Berdymukhamedov em comentários transmitidos pela televisão.

Mas apesar dos preparativos para abraçar a era digital, o governo não pretende abrir mão do controle estrito que exerce na internet tão cedo.

O acesso é regulado pela empresa estatal TurkmenTelekom, que se tornou um monopólio em 2000, quando alguns provedores independentes perderam suas licenças e os poucos cibercafés existentes fecharam as portas.

Conectar-se é caro: a empresa cobra quase US$7.000 (5.300 euros) ao mês para dar acesso ilimitado à internet com velocidade de 2.048 kilobytes por segundo, ou 2 Mega.

Comparativamente, o PIB do Turcomenistão é estimado pela Agência Central de Inteligência (CIA) em seu mais recente anuário, o "World Factbook", em US$8.900.

Os visitantes precisam mostrar o passaporte para acessar a internet nas dezenas de cibercafés do país. Navegar por uma hora custa 6 manats (US$ 2,1).

A banda larga só está disponível em alguns hotéis caros que costumam receber estrangeiros.

Como outros países autoritários, o governo do Turcomenistão controla a internet para manter o controle sobre o dissenso.

A lista anual "Inimigos da Internet", da organização de defesa da liberdade de expressão Repórteres sem Fronteiras, regularmente situa o país ao lado do Irã, da Síria e da Coreia do Norte.

Os sites de grupos da oposição e organizações de mídia crítica são banidos, enquanto plataformas populares de mídia social, como Twitter e Facebook, costumam ser bloqueadas rotineiramente.

"Na nossa universidade, os computadores são conectados à internet, mas ficam todos em um cômodo e os estudantes navegam na web sob a supervisão estrita de seus professores", contou Aigul Yazkuliyeva, estudante de 20 anos.

Internauta apaixonado, Dovran disse que apesar dos esforços do governo para controlar o acesso ao ciberespaço, há formas de se evitar a censura.

"As proibições existem para que possamos contorná-las", disse o jovem de 22 anos à AFP, com um sorriso nos lábios.

"Para mim, a internet é como um feixe de luz na escuridão", disse Dovran, que pediu para que seu sobrenome não fosse publicado.

"A velocidade pode ser baixa e os problemas, constante, mas já não consigo viver sem ela", emendou.

No Turcomenistão, onde o governo parece controlar qualquer bit de informação, não há dados confirmados sobre o número atual de usuários na internet.

De acordo com estimativas, algumas centenas de milhares de pessoas têm acesso à web no país de 6 milhões de habitantes. Comparativamente, não mais de 5.000 pessoas tinham acesso a este 'luxo' sob o governo de Niyazov.

Observadores afirmam que o governo não conseguirá resistir à crescente popularidade da internet por muito mais tempo e que expandir o acesso público à web inevitavelmente levará a uma sociedade mais aberta.

"Quando alguém ganha um doce, vai querer comê-lo todo e não apenas um pedaço", disse à AFP um diplomata ocidental.

"Consegue-se ver o progresso: um grande número de usuários privados da internet apareceram e lojas estão abrindo vendendo computadores, smartphones e iPads", continuou.

"Acho que isto vai levar a uma sociedade mais aberta, mas para que isto aconteça, é preciso dar passos mais decisivos", acrescentou o diplomata, pedindo para ter sua identidade preservada.

Muitos depositam suas esperanças nos planos do país de lançar seu primeiro satélite de comunicações, em 2014.

Um acordo neste sentido foi firmado pelo ministro das Comunicações turcomeno e a companhia franco-italiana Thales Alenia Space em 2011.

"A existência de um satélite nosso vai acelerar o desenvolvimento de redes de comunicação, televisão e internet", disse um porta-voz do ministério das Comunicações.

Tópicos: Afeganistão, Ásia, Computadores, Internet, Apple, iPad, Tablets, iPhone e iPad, Irã, Lenovo, Empresas chinesas, Empresas de tecnologia, Oriente Médio, PIB, Indicadores, Smartphones, Indústria eletroeletrônica, TV, Televisão