Os idosos são mais vulneráveis aos sucessivos recordes de temperatura registrados em diferentes partes do mundo nos últimos anos, que induzem, por exemplo, a alterações no mecanismo de controle da temperatura corpórea, conforme apontam especialistas da área de geriatria.

Um estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina e do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmoféricas (IAG), da Universidade de São Paulo (USP), constatou, contudo, que idosos saudáveis são capazer de tolerar um calor de 32 ºC, por exemplo – temperatura que representa um dia quente de verão em São Paulo –, mantendo um bom desempenho cognitivo.

Resultado de um projeto realizado no âmbito do Instituto Nacional de Análise Integrada de Risco Ambiental – um dos INCTs apoiados pela FAPESP e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no Estado de São Paulo –, o estudo foi descrito em um artigo publicado na revista Age, da Associação Americana de Envelhecimento.

“Observamos que o desempenho cognitivo de idosos com boa funcionalidade não sofreu efeitos nocivos da exposição ao calor”, disse Beatriz Maria Trezza, geriatra do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP e primeira autora do estudo, à Agência FAPESP.

Os pesquisadores avaliaram os efeitos do estresse térmico sobre o desempenho cognitivo de 68 idosos com idade média de 73,3 anos, com bom desempenho físico e cognitivo – caracterizado pela boa saúde mental e caminhar de modo independente, entre outros aspectos. Os idosos são pacientes do serviço de geriatria do HC-FMUSP ou participantes do programa “Universidade aberta à terceira idade”, da USP.

Para realizar o estudo, os pesquisadores fizeram um ensaio clínico em que submeteram os idosos a uma bateria de cinco testes neuropsicológicos computadorizados realizados sucessivamente em salas com temperatura controlada de 24 ºC – considerada confortável para atividade leve – e de 32 ºC.

Selecionados da Bateria Neuropsicológica Automatizada de Testes de Cambridge (Cantab, em inglês) – um software desenvolvido pela Cambridge University, do Reino Unido –, os cinco testes avaliaram diferentes aspectos do desempenho cognitivo dos idosos, como memória, atenção, tempo de reação a um estímulo visual e aprendizado.

Os resultados dos testes indicaram que não houve diferenças significativas no desempenho cognitivo dos idosos no ambiente com temperatura de 32 ºC em comparação com o de 24 ºC.

“As análises dos testes, como um todo, mostraram que o desempenho cognitivo dos idosos foi mantido no ambiente com 32 ºC”, afirmou Trezza. “A população de idosos que avaliamos, entretanto, é bastante específica e talvez por isso seja menos vulnerável ao estresse térmico”, avaliou.

Umidade e atividade física

Os pesquisadores também fizeram uma análise de interação dos resultados dos testes: dividiram os idosos em diferentes grupos – só de homens, mulheres (que representaram 69% dos participantes), mais velhos e mais ativos ou sedentários – com o objetivo de verificar se algum deles era mais suscetível aos efeitos do calor.

Ao dividir os idosos em dois grupos, submetidos a uma mesma temperatura, de 32 ºC, mas com umidades relativas do ar diferentes – um grupo com umidade relativa menor ou igual a 57,8% (a média da umidade calculada nos testes de variação de calor) e outro com umidade superior a essa –, os pesquisadores observaram que o grupo exposto à temperatura de 32 ºC com umidade relativa do ar acima de 57,8% sofreu os efeitos deletérios desse calor mais úmido em seu desempenho nos testes cognitivos.

Em contrapartida, não foram observadas diferenças significativas no desempenho cognitivo do grupo de 33 idosos expostos a um calor mais seco, com umidade menor ou igual a 57,8%.

“Durante os testes, a temperatura de calor, de 32 ºC, foi muito bem controlada, mas não tivemos como controlar a umidade relativa do ar”, explicou Trezza.

Por meio de um Projeto Temático, realizado com apoio da FAPESP, os pesquisadores estão realizando uma nova bateria de testes com o mesmo perfil de idosos em que pretendem comparar o desempenho cognitivo deles sob uma temperatura de 32 ºC, com diferentes níveis de umidade relativa do ar.

“Pretendemos certificar se a umidade relativa do ar realmente é um fator que afeta o desempenho cognitivo dos idosos, porque só sob efeito do calor não houve diferença”, disse Fábio Luiz Teixeira Gonçalves, professor do IAG-USP e coordenador do projeto.

Os pesquisadores ainda não sabem exatamente porque o nível de umidade relativa do ar influencia o desempenho cognitivo dos idosos.

Uma das hipóteses é que, quanto maior a umidade relativa do ar em altas temperaturas, maior o estresse do calor sobre o corpo humano.

Isso porque um dos principais mecanismos do corpo humano para perder calor em um dia quente – com temperatura acima dos 30 ºC – é a transpiração.

Com o nível de umidade relativa do ar mais alto em um dia quente, menor é a possibilidade de transpirar e é mais difícil regular a temperatura corpórea, principalmente pelos idosos, explicou Trezza.

“O estresse na regulação da temperatura corpórea acaba competindo com o funcionamento do cérebro. A rede neural, que está tentando manter a temperatura estável do corpo, tem que se preocupar com outra função ao mesmo tempo”, detalhou.

Os pesquisadores também constataram que a frequência de atividade física influencia o efeito do calor no desempenho cognitivo dos idosos.

Os idosos que declararam fazer atividade física com frequência menor do que quatro vezes por semana apresentaram pior desempenho cognitivo sob o calor do que aqueles que afirmaram fazer atividade física com frequência maior do que quatro dias.

“O controle térmico do corpo de pessoas que fazem mais atividade física é melhor do que o dos sedentários”, explicou Trezza. “Quando se faz atividade física, a temperatura do corpo aumenta e ele vai aprendendo a dissipar calor”, disse.

Estudo pioneiro

De acordo com a pesquisadora, o estudo sobre o efeito do calor no desempenho cognitivo de idosos é pioneiro.

Isso porque já têm sido realizados estudos nessa linha com militares, trabalhadores expostos a ambientes extremos e jovens. Mas, até então, ainda não tinha sido feito nenhum estudo específico com idosos.

“Paralelamente às mudanças climáticas globais, também está ocorrendo um processo de envelhecimento populacional. Um dos objetivos do estudo foi tentar entender como uma população que está envelhecendo e que sofrerá mudanças no controle da temperatura corpórea irá conviver com um clima que está esquentando”, disse Trezza.

Juntamente com os recém-nascidos, os idosos foram as maiores vítimas das ondas de calor registradas em diferentes partes do mundo nos últimos anos, como no verão de 2003 na Europa.

“A sensibilidade dos idosos ao calor é menor e eles têm menor percepção da variação da temperatura, desencadeando uma resposta comportamental mais tardiamente”, disse Trezza.

Ao perguntar aos idosos participantes do estudo se estavam confortáveis ou desconfortáveis sob a temperatura de 32 ºC, aproximadamente um terço respondeu que estava confortável.

O artigo “Environmental heat exposure and cognitive performance in older adults: a controlled trial” (doi: 10.1007/s11357-015-9783-z), de Trezza e outros, pode ser lido na revista Age aqui.

Tópicos: Medicina, Ciência, Saúde, Terceira idade