São Paulo – Nem o seu DNA estará seguro. De acordo com Marc Goodman, ex-futurista do FBI, será possível criar armas químicas que atingem somente pessoas específicas.

Entusiasta do avanço científico, Goodman, que era policial de rua em Los Angeles no começo da carreira, vê a tecnologia como uma faca de dois gumes. Ele acredita que com a popularização de ferramentas de biohacking, criminosos poderão criar drogas que podem matar líderes mundiais em instantes.

"Com o sequenciamento do DNA, a engenharia genética se torna tão simples quanto a de software", segundo o futurista.

Além disso, ele prevê que os assaltos podem se tornar mais tecnológicos. Uma pessoa com marca-passo com Wi-Fi pode ser chantageada e precisar entregar seus bens ou então receber um choque em seu coração que tirará sua vida, possivelmente, sem deixar rastros, de acordo com Goodman.

Depois de atuar no segmento de prevenção contra crimes tecnológicos no FBI, no Serviço Secreto dos Estados Unidos e na Interpol, Goodman escreveu um livro chamado Future Crimes (HSM), em que descreve o cenário atual das ameaças cibernéticas e prevê, com embasamento científico, o que está por vir – e o que devemos fazer para enfrentar essa nova realidade.

"Criminosos adotam novas tecnologias antes dos mocinhos", diz Goodman, que cita criminosos que já usam drones para vigiar policiais ou para entregar drogas.

EXAME.com conversou com Marc Goodman, durante o lançamento de seu livro no evento HSM Expomanagement 2015, em São Paulo. Confira os principais trechos da entrevista a seguir.

Primeiramente, como você vê o cibercrime no Brasil?

Os crimes virtuais são os principais, em termos econômicos, no Brasil. As empresas brasileiras perdem mais dinheiro do que de todas as outras maneiras. No ano passado, o cibercrime custou 8 bilhões de dólares aos negócios brasileiros. 

Tecnologias de autenticação por reconhecimento facial ou biometria podem reduzir os números da criminalidade virtual?

Talvez. Todas essas novas tecnologias, como a biometria, reconhecimento facial, impressões digitais, scanner de vista, são o que há de mais novo nesse segmento. No caso das impressões digitais, você não está guardando apenas uma representação matemática do seu dedo no seu computador ou smartphone. E esses dados podem ser hackeados, portanto, sistemas biométricos podem ser subjugados. No Future Crimes, eu cito um caso que acontece em um hospital no Brasil. Os funcionários, médicos e enfermeiras, precisavam bater ponto com a digital. Mas esse era um hospital público e algumas pessoas não queriam trabalhar, então, uma pessoa fez um dedo de borracha e batia o ponto por todos os outros. Os criminosos são muito criativos e podem hackear qualquer tipo de sistema.

Por que o crime virtual é tão grande no Brasil?

Por muitas razões. Os brasileiros são muito criativos e, por muito tempo, o país não tinha leis claras para punir os crimes na internet. Se você cometer um crime na web, suas chances de ir para a prisão são mínimas. Fora isso, há altos níveis de pirataria de software no Brasil e quando as pessoas baixam esses programas pirateados de graça, eles colocam em suas máquinas softwares que tem muitas brechas, arquivos maliciosos e bugs que tornam os computadores vulneráveis. Por fim, o público não foi devidamente educado sobre o cibercrime. Pessoas mais velhas não conhecem táticas como o phishing ou links mal intencionados, então, é muito fácil enganar o público. Além disso, há a questão do boleto bancário ser uma forma de pagamento popular. No ano passado, mais de 4 bilhões de dólares foram roubados de empresas nacionais por conta disso. 

Na sua visão, para onde vai todo esse dinheiro roubado?

Ele vai para o crime organizado. Aqui, a maior parte dos crimes online são cometidos por brasileiros, o que é único. Por exemplo, nos Estados Unidos e na Europa, o cibercrime é praticado a partir de países como Rússia, Ucrânia, Romênia e China. Aliás, os EUA também têm muitos cibercriminosos, mas, no Brasil, o número é maior, é algo em torno de 60%. 

Vi uma palestra sua no TED Talks, e você disse acreditar que será possível hackear o DNA humano para criar ameaças voltadas a pessoas específicas. Como isso pode acontecer mesmo?

Meu livro de chama Future Crimes porque as pessoas estão olhando somente para trás. Quero que elas olhem para frente e vejam aonde essa tecnologia está nos levando. Toda vez que uma nova tecnologia é criada, como Internet das Coisas, Big Data, inteligência artificial, algoritmos, biologia sintética, os criminosos encontram uma forma de utilizá-las. Aqui mesmo já vimos casos de criminosos tentanto entregar drogas ou mesmo vigiar a polícia usando drones. Se alguém cria um robô, os criminosos vão aprender a usá-lo. Temos que ser espertos com a nossa tecnologia e buscar formas de proteger nossos sistemas, porque eles serão abusados.

Na biologia sintética, vamos ver muitos crimes diferentes. O maior é o chamado biohacking, que era restrito a professores em laboratórios ou governos. Mas, de forma semelhante 30 anos atrás, criminosos criaram computadores em suas casas antes mesmo que as pessoas os tivessem. Só que vimos que as pessoas conseguiram fazer coisas boas com computadores. Hoje, temos mais biohackers. O preço do equipamento diminuiu e está se tornando acessível. E os biohackers são como as pessoas com os primeiros computadores em casa. Estão tentando fazer algo bom, coisas interessantes, buscando, quem sabe, a cura do câncer. Mas com a popularização dessas ferramentas, vamos começar a ver alguns maus elementos criando novas formas de armas biológicas ou drogas.

A impressão 3D também é uma ameaça nesse sentido?

Sim, é possível imprimir armas e muitas outras coisas. Além disso, a impressão 3D será muito importante para os falsificadores de produtos. Hoje, você pode piratear filmes, músicas e livros. Eles poderão criar réplicas perfeitas de um rolex ou de um tênis. Isso pode custar bilhões às empresas.

O Future Crimes tem uma mensagem importante para os brasileiros?

Venho muito ao Brasil e sei que vocês são muito inovadores. A economia do futuro será construída com base na tecnologia descrita no livro. E é importante que os brasileiros entendam a internet das coisas, inteligência artificial e os algoritmos porque eles vão construir o futuro do país. É preciso encontrar os líderes científicos nacionais que serão responsáveis por levar o país a esse futuro. Mas como temos muito cibercrime, é preciso ter políticas e instrumentos legais que protejam contra o crimes na internet. Os donos de negócios precisam entender com o que estão lidando e o Future Crimes pode ajudar a trazer esse conhecimento.

Tópicos: Biologia, Ciência, FBI, Tecnologia