São Paulo – A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) vai tentar fazer chover no Sistema Cantareira. Não é a primeira vez que o Estado apela para a chuva artificial – e muito menos a primeira investida brasileira. A técnica já foi usada até para tentar aplacar a seca no semiárido Nordestino há mais de 50 anos. E ainda é alvo de controvérsias, por sua eficácia e possíveis efeitos indesejados no meio ambiente.

Antes da polêmica, vamos à pergunta básica: afinal, como é possível fazer chover de forma artificial? A técnica chamada de bombardeamento de nuvens ou semeadura, ou ainda, nucleação artificial, consiste no lançamento de substâncias aglutinadoras que ajudam a formar gotas de chuva.

A substância mais comum é o cloreto de sódio, o popular sal. É possível usar ainda o iodeto de prata, gelo seco (gás carbônico congelado) e, no caso da experiência paulista, água potável.

Essas substâncias são lançadas de avião na base ou no topo das nuvens consideradas capazes de originar precipitação. Ao entrar em contato com o vapor de água, essas partículas grandes atraem partículas menores e levam a formação de gotas de águas mais pesadas que começam a se precipitar, até que, voilà, faz-se a chuva.

Em 2008, a técnica ganhou notoriedade após ser usada na China, por ocasião dos Jogos Olímpicos de Pequim. Preocupado em evitar a ocorrência de chuvas durante a cerimônia de abertura, o país utilizou iodeto de prata no bombardeamento de nuvens nas vizinhanças da cidade para provocar chuva nesses locais e, assim, evitá-la nos Estádios Olímpicos.

Brasil experimenta a "dança da chuva" high-tech

Bem antes disso, em 1950, o Estado do Ceará começava seus primeiros experimentos de bombardeamento de nuvens para tentar contornar a seca no Semiárido. O programa, criado pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), perdurou por décadas até ser encerrado no ano 2000, por não demonstrar aumento significativo nas precipitações.

Além do Ceará, o Estado da Bahia também coleciona uma história particular de indução artificial de chuva, mais recente e aparentemente mais bem sucedida. Em meio à seca histórica que castigou a região em 2012, foi criado um projeto conjunto, para amenizar os estragos, entre as secretarias de Agricultura, Meio Ambiente, produtores baianos e a empresa ModClima – a mesma contratada pela Sabesp para fazer chover em SP.

A ideia era estimular precipitação suficiente para garantir uma boa condição de solo e salvar a produção de abacaxi da região de Itaberaba. Foram realizados 17 voos de semeação usando água potável que geraram 14 chuvas, segunda a empresa. A empreitada custou cerca de R$ 200 mil, tirados de recursos próprios das secreatrias de Agricultura e Meio Ambiente.

Segundo afirmações à imprensa feitas pelo secretário estadual de Agricultura, Eduardo Salles, as chuvas pontuais foram suficientes e salvaram a lavoura daquele ano. Apesar dos resultados satisfatórios, o governo da Bahia não levou o projeto à frente como parte de uma estratégia de gestão maior.

O argumento oficial foi de que o alto custo – R$ 6 milhões ao ano – teria tornado a semeadura um projeto inviável para as pastas. Com isso, o projeto virou um plano B, "até porque não resolvia o principal problema, que são os baixos níveis nas barragens", conforme afirmou o próprio secretário de Agricultura na ocasião.

São Paulo já tentou fazer chover antes e...

A técnica aplicada na Bahia é a mesma que São Paulo vem utilizando desde 2001, quando foi firmado o primeiro contrato com a empresa ModClima. Ao todo, segundo informações disponibilizadas no próprio site da companhia, já foram realizados 7 contratos de médio prazo com a Sabesp para induzir chuvas sobre os Sistemas Cantareira e Alto Tietê.

Procurada pela reportagem, a Sabesp não se pronunciou a respeito do valor investido nesses contratos nem sobre a eficácia da técnica de semeadura de nuvem. A empresa ModClima também não quis comentar.

A medida é encarada com reserva por especialistas da área consultados por EXAME.com. Para o professor Augusto Pereira Filho, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, o procedimento de semeaduras em nuvem é incipiente.

O especialista é autor de um artigo que analisa a precipitação na área da bacia do Rio Jaguari entre os meses de novembro de 2003 e fevereiro de 2004 quando se utilizou a tal técnica.

"Os resultados indicaram diminuição de 200 mm sobre a bacia em relação às áreas vizinhas e uma anomalia negativa de 300 mm quando comparado com 2003 no mesmo período", diz o resumo do artigo.

Além disso, foi realizada uma análise da acumulação de chuva diária entre maio e dezembro de 2004, quando se utilizou o procedimento sobre a mesma bacia.

"Neste segundo período, choveu menos na bacia em 90% dos dias do que em áreas vizinhas. Nos outros 10%, choveu mais, porém com baixa acumulação em geral. Assim, na melhor das hipóteses, o procedimento de semeadura de nuvens resultou incipiente”, diz o professor.

"Em momentos de crise, sempre surgem soluções milionárias, mas que deixam a desejar", acrescentou o especialista  à EXAME.com.  

É difícil prever efeitos indesejados

Celso Oliveira, da Somar Meteorologia, questiona a precisão da técnica de semeadura. “Não é possível representar a atmosfera em laboratório, então não dá pra saber exatamente como isso vai funcionar no ambiente natural”. Ele destaca que mesmo com a carência geral de chuvas, a operação é arriscada porque pode até provocar chuvas onde não se deseja que ela caia.

Outro ponto que preocupa o especialista é a dificuldade em determinar a real contribuição da técnica para a ocorrência de chuva. Explica-se. A semeadura feita pela ModClima baseia-se na pulverização de água potável em nuvens com chance potencial de precipitação. Quer dizer, a natureza tem que ajudar.

Segundo o meteorologista, há previsão de chover a partir da segunda quinzena de fevereiro em São Paulo. “Qual será a porcentagem de contribuição gerada pela natureza e qual será a da empresa?”, questiona. A conferir.

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