Você está com dor de cabeça. Você toma um Tylenol ou Advil? A maioria das pessoas tem preferência pois aprenderam com o tempo que um funciona melhor do que o outro para aliviar a dor. Esse tipo de variação de pessoa para pessoa acontece com quase todas as medicações, seja ela sob prescrição ou não.

Farmacêuticos, médicos e pesquisadores tentaram por décadas entender por que a mesma medicação com a mesma dose pode funcionar bem para algumas pessoas, mas não para outras. Também tentaram entender por que algumas pessoas precisam de maiores ou menores doses de uma mesma droga ou por que algumas delas têm efeitos colaterais e outras não.

Muito fatores contribuem para essas diferenças, como idade, se estão tomando outro medicamento, funcionamento dos rins e se são fumantes, apenas para nomear alguns fatores. Mas está ficando cada vez mais claro que a genética também pode ser um importante fator.

Genes influenciam como drogas funcionam

Ao entender como as diferenças genéticas funcionam, médicos podem tomar atitudes mais personalizadas ao escolher a medicação e a dosagem. Isso é chamado de farmacogenética e os testes para guiar o uso de medicamentos estão ficando mais comuns.

Esse tipo de tratamento personalizado é um exemplo de medicina de precisão, que está sendo apontada como parte importante do futuro dos cuidados médicos. O presidente Obama anunciou no seu discurso “Estado da Nação” de 2015 um plano de lançar a Iniciativa de Medicina de Precisão:

“Para nos deixar mais perto de curar doenças como câncer ou diabetes—e para dar acesso a todos a informações personalizadas para que nós e nossos familiares sejamos mais saudáveis.”

Genes influenciam quão bem seu fígado quebra os remédios

Hoje, os testes mais frequentes procuram por variações (também chamadas polimorfismos) nos genes que carregam instruções para a criação de enzimas do fígado que metabolizam (quebram) as drogas.

Para drogas que já estão em sua forma ativa—o que quer dizer que a droga tem efeito imediato no corpo—as enzimas no fígado quebram a droga para deixa-la inativa, para que o corpo possa descarta-la. Quando a enzima que faz essa quebra não funciona devidamente por variações genéticas, o corpo não pode se livrar da droga de forma eficiente. Isso pode levar a uma quantidade muito grande da droga no corpo, o que pode resultar em efeitos colaterais graves.

Outras drogas são consumidas em sua forma inativa e são quebradas no fígado para ficarem em sua forma ativa. As enzimas no fígado que fazem essa quebra são essenciais neste processo. Para essas medicações, quando as enzimas não fazem seu trabalho bem por uma variação no gene, a droga não pode ser convertida em sua forma ativa.

Diferenças em como as enzimas quebram as drogas podem significar que pessoas precisam de doses diferentes de uma droga para chegar ao mesmo efeito, ou que algumas drogas não são efetivas para aquele paciente. Muitas variações de genes são comuns na população e podem afetar de muitas maneiras decisões sobre qual o remédio certo ou qual a dose certa.

Usando variações para escolher a medicação

Crianças com leucemia são testadas para variações de genes que quebram uma droga chamada thiopurines. Essas drogas são muito usadas no tratamento de crianças com leucemia e são consumidas em sua forma ativa.

Se testes revelarem que as enzimas que fazem a quebra e o descarte não funcionam bem, as crianças recebem um décimo da dosagem normal. Essa pequena fração de uma dose dá a elas os mesmos benefícios que alguém cujas enzimas funcionam normalmente e que recebem dosagem dez vezes maior por que seus corpos fazem esse trabalho de forma mais eficiente. Em casos como esses, a genética diferente entre as pessoas pode ser trabalhada ao mudar a dosagem de uma mesma medicação.

Para drogas que são convertidas em ativas pelo fígado, variações genéticas podem significar que essa pessoa precisa tomar um tipo diferente ou outra medicação. Um exemplo disso é a droga chamada Plavix ou clopidrogel, que é usada para evitar coagulação de sangue após ataques cardíacos ou aplicação de balões de angioplastia.

Ela precisa ser acionada pelo fígado, mas variações de genes fazem com que entre 25% e 30% das pessoas não possam converter o remédio para sua forma ativa. Quando pessoas com essas variações de genes tomam o Plavix, ele é menos efetivo em prevenir ataques cardíacos e enfartes.

Na Universidade da Flórida, começamos a testar esse gene em corações de pacientes recebendo balões de angioplastia em 2012. Para aqueles que tiveram a variação que fazia do Plavix uma escolha ruim, nós recomendamos uma medicação diferente.

Nós seguimos os pacientes que tinham essa variação e encontramos que aqueles que tomaram remédios alternativos tiveram significativamente menos ataques cardíacos, enfartes e tinham menos chances de morrer do que aqueles que continuaram tomando Plavix. Esses dados reforçam como usar as informações genéticas podem levar a um tratamento personalizado e melhorar a saúde das pessoas.

Essa mesma estratégia está sendo usada mais frequentemente para selecionar drogas contra o câncer, apesar de que na maioria dos casos é a genética do tumor, e não do paciente, que está sendo testadas para a escolha. A maioria das novas drogas aprovadas para tratamentos nos últimos anos é desenvolvida para um tumor com determinado genótipo.

Para onde vai a farmacogenética?

Esses são apenas alguns exemplos do potencial de uso de informações genéticas para guiar as terapias com drogas. Atualmente, mais de cem drogas têm informações farmacogenéticas em seus rótulos da Administração de Alimentos e Drogas (FDA). Com o tempo, mais e mais medicações devem ser adicionadas à lista que mostra para quais informações genéticas elas devem ser usadas.

Como as informações genéticas são obtidas vai mudar nos próximos anos. No exemplo usado acima, as informações genéticas são obtidas por testes de laboratório específicos que analisam o gene ou os genes de interesse.

No entanto, no futuro espera-se que todo o genoma de um indivíduo (todas as três bilhões de letras em seus códigos genéticos) possam ser obtidos e armazenados para uso no decorrer de sua vida. Quando isso acontecer, usar essas informações para chegar a recomendações personalizadas contará com o trabalho de um computador, que vai casar a informação genética com o conhecimento das drogas. Estamos a uma década ou mais dessa realidade.

No meio tempo, o número de drogas que podem ser guiadas por genética e pelo número de pessoas que se beneficiarão deve aumentar.

Este texto foi publicado originalmente no site The Conversation. Ele foi escrito por Julie A Johnson, reitora da Escola de Farmácia, professora de fármacia e medicina e diretora do programa de medicina personalizada da Universidade da Flórida.The Conversation

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