São Paulo - Na década de 60, os protestos das ruas eram noticiados na forma de texto e fotos nos jornais do dia seguinte, enquanto ainda não havia sido instituída a censura pelos militares.

Em 1984, o movimento das Diretas Já foi registrado em vídeo pelas grandes emissoras de TV e editado como matéria para os noticiários da noite. Nos protestos pelo impeachment do Collor, em 1992, o público em casa pôde assistir a flashes ao vivo pela TV, graças a veículos para transmissão via satélite.

Agora, em 2013, as manifestações que tomaram as ruas do Brasil contam com a existência da Internet e de redes celulares, o que altera radicalmente a forma como os eventos são acompanhados. Os próprios manifestantes tornam-se repórteres, fotografando e filmando com seus celulares, gerando um farto material audiovisual que complementa e, eventualmente, até desmente a versão da mídia tradicional ou as declarações de governantes.

É neste contexto que surge o Mídia Ninja, um coletivo de jornalistas voluntários que vem transmitindo os protestos ao vivo, usando smartphones e redes 4G e 3G. MOBILE TIME entrevistou por email com um dos porta-vozes do grupo, que preferiu não se identificar.

A ideia nasceu a partir da cobertura independente da Marcha da Liberdade, realizada em 2011, em São Paulo. Foi ganhando forma até ser lançada oficialmente em março deste ano durante o Forum Social Mundial, na Tunísia. Desde então, os "ninjas" vêm acompanhando os principais protestos que acontecem no Brasil, assim como plenárias populares e outros eventos relacionados à mobilização popular. Estavam presentes nas manifestações do Movimento do Passe Livre em junho, em São Paulo; na passeata em Belo Horizonte que levou 60 mil pessoas para o entorno do Mineirão; na marcha rumo ao Maracanã, no Rio de Janeiro, na final da Copa das Confederações; e até mesmo no protesto na frente do Copacabana Palace no último sábado, durante o casamento da neta de um empresário do setor de transportes.

Cada repórter registra o evento de um smartphone realizando streaming ao vivo, pelo app Twitcasting. No Rio e em São Paulo a rede 4G foi usada várias vezes, informa o grupo. O vídeo é acessível ao vivo na Internet, com links divulgados na página do grupo no Facebook e espalhados rapidamente pelo boca a boca virtual. São milhares de espectadores, em uma audiência que cresce a cada transmissão. Por vezes o streaming trava, por conta de congestionamento da rede móvel, mas nada que atrapalhe a narrativa. O que importa ali é o conteúdo.

Mais do que uma alusão à figura do habilidoso espião oriental, Ninja é uma sigla: Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação. "Buscamos apresentar uma mídia que possa oferecer liberdade radical de expressão, agilidade e a possibilidade de criar coletivamente narrativas diferentes do que a antiga mídia pode oferecer", descreve o membro do coletivo. É exatamente isso que se vê: uma reportagem improvisada, espontânea, sem limitação de tempo, sem break comercial, com independência editorial e filmada de dentro dos protestos, afinal, o ninja é também um manifestante.

Smartphones

Por email, o porta-voz do grupo cita aparelhos Sony Xperia e iPhone (que no Brasil não opera na rede 4G) entre os usados para as transmissões. Sobre o papel dos smartphones na organização e cobertura de protestos nos dias de hoje, escreve: "Os smartphones são ferramentas formidáveis para o registro e a difusão de tudo que está acontecendo nas manifestações. Eles transformam seu usuário em um potencial olho público, oferecendo contra-informação ao senso comum e ao que é passado pelos olhares distantes da dita 'grande imprensa'. Eles são catalisadores não apenas da mídia independente, mas também da autonomia de comunicação entre ativistas."

O Mídia Ninja é composto hoje por um núcleo duro de 25 colaboradores, entre editores, redatores, social media, videomakers e fotógrafos, espalhados por todo o Brasil. E há centenas de outras pessoas inscritas para participar. Sua proposta é montar uma rede de mídia independente com abrangência nacional.

Além do uso de redes sociais como Facebook, Twitter, Instagram, Flickr, Tumblr e Google+, prometem criar um site próprio, "para buscar autonomia editorial, dar conta de organizar o fluxo de pessoas e pautas, e buscar novos formatos para o financiamento da rede", explicam. Uma das possibilidades seria o financiamento do projeto pelos próprios leitores, tal como já fazem alguns jornalistas pelo mundo.

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