São Paulo – Cientistas brasileiras descobriram um gene que pode ajudar no tratamento de uma doença rara, que atinge um em cada quatro mil meninos em todo o mundo. A distrofia muscular de Duchenne diminui a expectativa de vida dos pacientes para apenas 30 anos.

“Aos dois ou três anos, a mãe nota que o filho está caindo muito. Com 10 ou 12 anos, ele não consegue mais andar”, explica Mayana Zatz, professora de genética do Instituto de Biociências da USP e uma das autoras do estudo, em entrevista a EXAME.com.

Segundo ela, a doença é caracterizada pela ausência da distrofina, uma proteína que forma um tipo de capa nas células musculares. Sem ela, ocorre a degeneração dos músculos. “No começo, o músculo ainda regenera. Porém, após dois anos, a perda muscular é maior do que a regeneração”, diz Zatz.

Quando se descobriu a existência da distrofina em 1987, todos os tratamentos para a doença de Duchenne focaram na substância. Os pesquisadores, até hoje, tentam encontrar uma forma de aumentar a produção da proteína para melhorar o quadro clínico do paciente.

A pesquisa da USP descobriu que a distrofina pode não ser a única forma de achar cura ou terapia para a distrofia muscular de Duchenne. Segundo as autoras, o gene Jagged1, ligado a processos de regeneração muscular, pode trazer esperanças de tratamento para os pacientes.

O estudo foi publicado na revista científica Cell sob o título de "Jagged 1 Rescues the Duchenne Muscular Dystrophy Phenotype" ("Jagged 1 resgata fenótipo da distrofia muscular de Duchenne", em tradução livre).

Mais de 10 anos de pesquisa

Como as cientistas chegaram a essa descoberta? “Foi totalmente sem querer”, brinca Zatz. Desde 2003, ela e um grupo de pesquisadores da USP pesquisam cães da raça Golden Retriever, que possuem a distrofia muscular de Duchenne.

Até então, todos os cachorros nasciam com a doença e morriam depois de um ou dois anos. Um filhote chamado Ringo chamou a atenção das cientistas em 2004. “Quando Ringo nasceu, achamos que era apenas mais um dos cães afetados. Realizamos os testes e vimos que ele tinha a mutação no DNA”, conta Zatz.

Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-Tronco da USP

Cachorro Ringo da USP

Ringo: apesar da distrofia, o cão apresentava poucos sintomas da doença

Após um ano, uma surpresa: Ringo não apresentava a doença. “Ele vivia pulando a cerca e logo teve filhotes. Um deles, o Suflair, apresentava as mesmas características do pai”, lembra a geneticista.

Intrigadas, Zatz e Natássia Vieira, na época doutoranda em genética pela USP, decidiram analisar quais eram as diferenças genéticas entre os músculos de Ringo e de outros cachorros doentes. Dessa análise saiu uma lista de 65 genes.

Para fazer o mapeamento genético completo do genoma dos cães e descobrir qual era o gene importante, Vieira foi a Boston, nos Estados Unidos. Lá, com a ajuda de Louis Kunkel, da Escola de Medicina de Harvard, e de Kerstin Lindblad-Toh, diretora científica do Broad Institute, ela encontrou uma região no cromossomo 24, que abrigava o gene Jagged1.

Para testar a nova hipótese, a pesquisadora aumentou em duas vezes a proteína do gene em peixes paulistinha – que não têm distrofina e possuem a doença. “Foi visto que 75% dos peixes sobreviveram após a aplicação”, relata Vieira.

De acordo com a cientista, o próximo passo do estudo é entender porque o gene deixa os músculos mais resistente. “Com isso, talvez, nós possamos encontrar outros genes que possam gerar novas terapias.”

Possíveis novos tratamentos

Atualmente, os medicamentos mais utilizados para o tratamento da distrofia de Duchenne são os corticoides. “Eles são ministrados desde que a doença é descoberta, pois aumentam a capacidade ventilatória”, explica Zatz.

No entanto, após alguns anos, pacientes precisam utilizar aparelhos de ventilação assistida. “O diafragma fica comprometido e, depois dos 20 anos, muitos dos meninos morrem de insuficiência respiratória”, diz a geneticista.

Cecília Bastos/Núcleo de Divulgação Científica da Universidade de São Paulo (USP)

Natássia Vieira

Natássia Vieira: a pesquisadora terminou o estudo em Harvard

Caso o Jagged1 se mostre capaz de aumentar a quantidade de distrofina no ser humano, novos tratamentos poderão aumentar a sobrevida dos pacientes. “Eu vou começar a estudar alguns vírus que podem aumentar geneticamente a capacidade de produção de proteínas do gene”, conta Vieira.

Segundo ela, os professores de Harvard já estão analisando remédios que podem fazer esse trabalho. “Se for uma droga que já está no mercado, vai ser mais fácil encontrar uma terapia.”

Caso contrário, o processo de aprovação do medicamento poderá demorar mais de dez anos. “A indústria farmacêutica não dá muita importância para a doença, por ela ser rara. Então, é outro impedimento”, diz Vieira.

Apesar de a descoberta ser um marco, tanto Zatz quanto Vieira são cautelosas com relação à possibilidade de encontrar cura para a distrofia. “Acho que tem potencial, mas ainda vai demorar algum tempo e anos de estudos”, afirma Vieira.

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