São Paulo - Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificaram uma estrutura glacial fundamental para esclarecer a história paleoclimática da Antártica durante o período Mioceno (há cerca de 15 milhões de anos).

A estrutura – denominada pavimento de clastos glacial – comprova ter havido um período de expansão do manto de gelo da Antártica Ocidental, após o intervalo de aquecimento, denominado Ótimo Climático do Mioceno, quando se estima que o manto de gelo antártico começou a se expandir.

Os detalhes do estudo serão apresentados em julho durante a conferência bienal do Scientific Committee on Antarctic Research (Scar), que será realizada em Portland, nos Estados Unidos.

“O pavimento documenta um importante evento paleoclimático da Antártica Ocidental durante o Mioceno”, disse Antonio Carlos Rocha Campos, professor do Instituto de Geociências da USP e coordenador do projeto. Rocha Campos conduziu projetos apoiados pela Fapesp, entre os quais o Temático “Controles tectônico, climático e paleogeográfico das características, gênese e preservação de depósitos glaciais pré-cenozoicos do Brasil”.

De acordo com o pesquisador, a estrutura encontrada fornece a evidência cabal e irrefutável de que o continente antártico passou por uma fase de glaciação há cerca de 10 milhões de anos, após um período de aquecimento há cerca de 15 milhões de anos.

O pavimento de clastos glacial (fragmentos de rochas) é produzido pela ação de geleiras. Ao deslizarem sobre a superfície na qual se encontram, elas arrastam consigo fragmentos de rocha de diversas formas e tamanhos, que são incorporados ao gelo. O pavimento tem origem na liberação dos fragmentos de rochas, que são realojados subglacialmente (abaixo da camada de gelo) e erodidos durante o avanço da geleira, resultando em uma espécie de calçada de pedras.

Em 2011, durante realização de pesquisa na ilha de Seymour (Marambio), na parte ocidental do mar de Weddel, na Antártica Ocidental, a equipe de pesquisadores do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), integrada por Rocha Campos, deparou-se e identificou pela primeira vez esse tipo de estrutura glacial nessa parte do continente antártico.

Segundo Rocha Campos, a presença do pavimento de clastos indica que o manto de gelo da Antártica Ocidental atingiu a ilha de Seymour durante o Mioceno superior (há cerca de 10 milhões de anos), deslocando-se rapidamente, provavelmente, em condições terrestres.

“A história da glaciação na Antártica durante o Mioceno era contada com base em evidências que ainda deixavam dúvidas. A existência do pavimento de clastos esclareceu a questão porque são estruturas sabidamente associadas à ação de geleiras”, afirmou.

Os pesquisadores pretendem analisar agora outras fases da história paleoclimática da Antártica Ocidental sobre as quais ainda restam dúvidas quanto à identificação de evidências que caracterizem e comprovem as mudanças climáticas que ocorreram no continente.

Entre essas fases está a passagem do Eoceno (cerca de 36 milhões de anos atrás) para o Oligoceno (há 30 milhões de anos), quando houve uma notável mudança climática em praticamente toda a Antártica, associada ao início da formação do manto de gelo que cobre o continente.

Nesse intervalo geológico, a Antártica também experimentou mudanças de fase de aquecimento, seguida de glaciação, similar à variação climática que ocorreu no Mioceno.

“A história da formação do manto de gelo antártico é cheia de irregularidades. Não houve só uma diminuição gradativa da temperatura e aumento progressivo da massa de gelo na Antártica, mas uma alternância entre épocas de clima mais ameno, seguidas de fases de clima mais quente”, explicou Rocha Campos.

Uma das evidências utilizadas para caracterizar essas mudanças climáticas são os depósitos de origem glacial. Entretanto, de acordo com o pesquisador, a identificação desse tipo de sedimento ou rocha é bastante complexa e não raro inconclusiva.

Na ilha de Seymour, por exemplo, onde os pesquisadores brasileiros estão realizando seus estudos, vários intervalos climáticos são baseados na presença de sedimentos glaciais. Contudo, nem sempre a identificação pode ser feita com absoluta certeza. “Estruturas glaciais diagnósticas, como o pavimento de clastos glacial, são raras”, disse Rocha Campos.

Incêndio da estação brasileira

Rocha Campos e colegas de seu grupo na USP ficaram alojados na Base Argentina Marambio e alguns deles já haviam voltado ao Brasil quando ocorreu o incêndio na Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) – a base do Proantar no continente – no final de fevereiro.

Segundo Rocha Campos, a pesquisa que executam não depende da estação brasileira. “Mas é claro que lamentamos profundamente a perda da EACF pela sua importância simbólica e científica e, mais ainda, a de vidas humanas”, destacou.

Como a maioria das rochas em volta da estação é vulcânica e o grupo de pesquisa de Rocha Campos se dedica ao estudo de rochas glaciais, os pesquisadores montam acampamento ou solicitam alojamento em alguma estação perto da região onde realizarão suas pesquisas, como a da Argentina, na ilha de Seymour.

Tópicos: Antártica, Ciência, Universidades, Ensino superior, USP