Julian Assange ataca a corrupção e diz que a imprensa mente

Falando aos brasileiros, Julian Assange diz que o WikiLeaks contribuiu para a Primavera Árabe e para a redução da corrupção nos países

São Paulo — Retido na Inglaterra por causa de um processo na justiça sueca, Julian Assange, fundador e principal nome à frente do WikiLeaks, não pode vir ao Brasil como pretendia. Mesmo assim, falou por videoconferência no evento Info@trends, que acontece em São Paulo. “Faz tempo que quero visitar o Brasil. Nossa organização tem mais apoio aí do que na maioria dos países. Há brasileiros que colaboram conosco”, disse.

Assange atacou jornais como o britânico Guardian e o americano New York Times que, segundo ele, omitem informações para preservar seus próprios interesses. Confira dez coisas que ele falou em sua palestra.

1 Prisão domiciliar

Não há nenhuma acusação contra mim na Inglaterra. Mesmo assim, de acordo com o Google, existem 260 mil páginas na web dizendo que estou sendo processado. E estou em prisão domiciliar. Eles podem me manter preso temporariamente mesmo sem acusação formal.

2 Guantánamo

A base americana de Guantánamo serve para esconder pessoas fora do alcance da lei, da mesma forma que os bancos que fazem lavagem de dinheiro escondem o dinheiro. É o que chamamos “estado das sombras”, aquela parte do estado que existe invisível para o público.

3 O Guardian e a Rússia

Liberamos comunicados da embaixada americana em Sófia, na Bulgária, que detalham a ação criminosa de um grupo russo no país. Vários órgãos de imprensa fizeram reportagens com base nisso. O jornal londrino Guardian publicou parte de um documento que vazamos, mas suprimiu trechos importantes. O Guardian sempre foi crítico em relação aos russos mas, naquela vez, se omitiu. Perguntamos a eles por que fizeram isso. Eles disseram que tinham medo de ser processados. Havia empresas poderosas envolvidas. Um processo poderia sair caro para o jornal. Em Londres, a imprensa esconde coisas do público continuamente.

4 Corrupção

Os documentos que divulgamos sobre a corrupção no Quênia falavam do desvio de 3 bilhões de dólares que foram mandados para o exterior. Foram parar em bancos suíços e serviram para a compra de imóveis em Londres e Nova York. Isso é muito pior que a corrupção local. É dinheiro que fluiu ilegalmente de um país pobre para países ricos.


5 Primavera Árabe

Nós já publicamos informações sobre 120 países, incluindo vários africanos. Muitos dos documentos foram traduzidos para o francês e para o árabe. A divulgação de notícias sobre corrupção nos governos contribuiu para os levantes da Primavera Árabe. 

6 Bloqueio financeiro

Se algum de vocês quiser usar seu cartão Visa para fazer uma doação ao WikiLeaks, não vai poder. Também não vai poder fazer isso via Master Card, Western Union ou PayPal. Esse bloqueio financeiro foi um contra-ataque iniciado pelo Bank of America em dezembro. Mas essa ação não tem amparo legal. E o bloqueio impede as pessoas de agir conforme suas convicções pessoais.

7 Fontes

Nunca divulgamos nossas fontes. Como jornalistas investigativos, temos de revelar nomes de criminosos, políticos corruptos e espiões. Mas não há nenhuma alegação de que alguém tenha morrido por causa do WikiLeaks.

8 Prisões

Já houve algumas prisões entre os nossos colaboradores. É o caso de um homem ligado a bancos suíços que nos passou nomes de clientes, já libertado. Há também o militar americano acusado de divulgar informações secretas, que continua preso. E eu passei 10 dias preso.

9 Quando o segredo se justifica

Não somos contra o segredo. Nós mantemos nossas fontes de informações ocultas. Esconder informações é algo que se justifica temporariamente quando a divulgação pode colocar pessoas em perigo. É o critério que usamos. Omitimos parte das informações enquanto durar o risco para a pessoa.

10 Concorrentes

Não temos nada contra outras organizações que divulgam informações sigilosas. Tenho defendido a liberdade de expressão desde que tinha 20 anos. E até ajudamos alguns desses grupos a se organizar. Há 23 deles agora. Isso garante que o processo vai continuar mesmo que o WikiLeaks acabe. Queremos que as pessoas agressivamente divulguem a verdade. Mas é bom notar que montar uma organização como a nossa não é fácil. As dificuldades incluem aspectos técnicos, políticos e legais.