Mobilidade: inovação brasileira a caminho

Michele Loureiro

Nos últimos anos a união das empresas automotivas com as companhias de tecnologia tem ganhado força. Dados da PricewaterhouseCoopers LLP estimam que as fusões e aquisições globais entre fornecedores dos dois setores atingiram quase 50 bilhões de dólares em 2016, mais que o triplo de 2014. Os dois setores notaram que a parceria é a melhor forma de desenvolver a mobilidade do futuro. Até Bill Ford, presidente do conselho de administração e bisneto do criador da centenária fabricante de carros, já afirmou que “as montadoras precisam mudar e virar fábricas de software. Esse é o futuro”. Os primeiros passos no Brasil começam a ser percorridos.

Para Rodrigo Custódio, diretor da Área Automotiva da Roland Berger, a motivação da união de força entre as duas indústrias é bem simples de ser entendida: lucro. “Em 2030, 40% do lucro disponível da cadeia automotiva terá migrado para novos negócios, como veículos autônomos, elétricos, modelos de compartilhamento e conectividade”, diz.

Ford e General Motors saíram na frente na empreitada tecnológica e as duas já investiram mais de 1 bilhão de dólares cada uma em startups na tentativa de criar veículos autônomos. As montadoras japonesas e alemãs também já aderiram ao movimento e as parcerias se multiplicam a cada dia. Para se ter uma ideia, atualmente 31 empresas de grande porte investem em iniciativas que miram o carro sem motorista, sendo 24 delas do setor automotivo. Além disso, GM, Volkswagen, Toyota Ford, Audi, Renault e BMW já aportaram juntas mais de 900 milhões de dólares em empresas de compartilhamento de veículos como Lyft, Gett e Chariot — todas essas concorrentes do Uber.

Enquanto os movimentos já estão consolidados em países da Europa e Estados Unidos, no Brasil o tema ainda ganha os primeiros contornos. Neste ano, a Liga Ventures, aceleradora que gera negócios entre startups e grandes empresas, organizou o primeiro programa nacional de inovação nos setores de mobilidade, transporte, logística e indústria automobilística. O programa recebeu cerca de 200 empresas inscritas.

Depois de três etapas de seleção, a Liga AutoTech escolheu neste mês as oito startups mais promissoras do Brasil nessa área: Automobi, Btime, Easy Carros, goEpik, KeyCar, Menu.com.vc, Trackage e Zumpy. As startups serão aceleradas durante quatro meses e terão orientações com executivos da montadora Mercedes-Benz, autopeças Eaton e as gestoras de frotas Sascar, Ticket Log, Repom e com a rede de mentores da Liga Ventures. Neste período, as startups podem conseguir investimentos e parcerias com essas empresas. Segundo Rogério Tamassia, diretor da Liga Ventures, nenhuma contrapartida em participação societária ou propriedade intelectual será exigida das startups aceleradas.

As startups de fora do país buscam soluções para o carro sem motorista, semáforos inteligentes, carros que estacionam sozinhos, alternativas de materiais e combustíveis No Brasil, por outro lado, as inovações trazem mais oportunidades para gestão de frotas, logística reversa e logística integrada, melhoria da mobilidade, sustentabilidade e telemetria.

A startup Automobi, por exemplo, tem uma plataforma para oficinas e concessionárias conectada aos donos de veículos. Esse serviço é similar ao da Menu.com.vc, que tem plataforma de comércio online que conecta indústrias de diversos setores aos comerciantes. A KeyCar tem um aplicativo para controle dos sistemas do veículo e monitoramento do motorista, já a Btime faz uma gestão de equipes externas com foco no aumento de produtividade e a Easy Carros trabalha com diagnósticos online de automóveis. Enquanto isso, a goEpik aposta em uma plataforma que padroniza e digitaliza processos industriais, dentro dos princípios da Indústria 4.0 e a Trackage traz soluções de monitoramento de cargas para pessoas e empresas. Por último, a Zumpy foca na integração de usuários para carona compartilhada.

“Por aqui a questão ainda é exploratória, mas vai crescer rápido”, diz Luciano Driemeier, gerente de estratégia do produto da Ford no Brasil. O problema é a crise econômica acabou atrasando a chegada de inovações ao país. Afinal, enquanto o mundo fala de veículos híbridos e autônomos, temos um mercado que encolheu quase 50% nos últimos quatro anos. Ao mesmo tempo em que tenta inovar, a indústria precisa se preocupar em manter-se de pé.

Fato é que estimativas de consultorias dão conta que o mercado global de veículos gera receitas anuais de 3 trilhões de dólares e que há um mercado de serviços de transportes com potencial de faturamento de 5 trilhões em 2030. Ou seja, ninguém quer – nem pode se dar o luxo – de ficar de fora.