Estudo mostra como as aventuras formam a individualidade

Os cientistas buscavam determinar porque gêmeos idênticos não são cópias perfeitas de cada um, mesmo quando criados no mesmo ambiente

Explorar o mundo ajuda a formar o cérebro e as aventuras tornam cada indivíduo diferente, revelou um estudo publicado nesta quinta-feira por cientistas na Alemanha.

Segundo estudiosos, as descobertas publicadas na revista científica Science podem oferecer novas opções para o tratamento de doenças psiquiátricas.

Os cientistas buscavam determinar porque gêmeos idênticos não são cópias perfeitas de cada um, mesmo quando criados no mesmo ambiente, e estudaram a questão usando 40 camundongos geneticamente iguais.

Os roedores foram mantidos em uma jaula elaborada com cinco níveis, conectada por tubos de vidro e cheias de brinquedos, potes de flores de madeira, locais para fazer ninhos, entre outros. O espaço disponível para a exploração tinha cerca de cinco metros quadrados.

“Este ambiente era tão rico que cada camundongo reuniu suas próprias experiências nele”, explicou o cientista que chefiou o estudo, Gerd Kempermann, do Centro Alemão de Doenças Neurodegenerativas.

Mesmo que os camundongos fossem geneticamente iguais e que o ambiente onde foram mantidos também fosse o mesmo, eles demonstraram individualmente diferentes níveis de atividade. Alguns exploravam bastante, outros não.

Ao dotá-los de um microchip especial que emitia sinais eletromagnéticos, os cientistas conseguiram rastrear quanto os camundongos se movimentaram e quantificar seu comportamento exploratório.

“Com o passar do tempo, os animais então se diferenciaram crescentemente em seu campo de experiência e comportamento”, disse Kempermann. Após três meses, eles desenvolveram personalidades muito diferentes.


Os cientistas descobriram que os cérebros dos roedores mais exploradores, em comparação com os mais passivos, formaram mais novos neurônios no hipocampo, o centro de aprendizado e memória, em um processo conhecido como neurogênese.

Ratos de um grupo de controle, mantidos em um ambiente menos desafiador, demonstraram menor crescimento cerebral.

Kempermann e seus colegas disseram ter demonstrado pela primeira vez como as experiências pessoais e o comportamento subsequente contribui para a individualização e que nem a genética nem o ambiente sozinhos podem causar este crescimento pessoal.

“A neurogênese em adultos também ocorre no hipocampo em humanos”, disse Kempermann. “Consequentemente, supomos ter rastreado uma fundação neurobiológica para a individualidade que também se aplica a humanos”, acrescentou.

As descobertas representam uma nova compreensão de como o cérebro funciona e poderiam lançar luz sobre os processos de aprendizado e envelhecimento, disse Ulman Lindenberger, diretor do Centro de Psicologia sobre o Curso de Vida do Instituto Max Planck de Desenvolvimento Humano, em Berlim.

“Quando vistos das perspectivas educacional e psicológica, os resultados do nosso experimento sugerem que um ambiente fértil fomenta o desenvolvimento da individualidade”, disse Lindenberger.

Em um comentário também publicado na revista Science, Olaf Bergmann e Jonas Frisen, do Instituto Karolinska de Estocolmo, Suécia, escreveram que a pesquisa tem muitos usos.

“Espera-se que a compreensão molecular da neurogênese vá ajudar no desenvolvimento racional de novas classes de medicamentos para doenças psiquiátricas”, destacaram.

Além disso, pode “nos ensinar que a forma como vivemos a vida faz de nós o que somos”.